É compatível com o ensinamento de Jesus
a seguinte tese de Carl F. W. Walther? "Em terceiro lugar, a palavra de Deus
não é aplicada corretamente, quando o evangelho é pregado antes da
lei..." C. F. W. Walther, Lei e Evangelho, tradução de
Vilson Scholz, 2º ed., Concórdia Editora, pág. 14, 8ª Tese.
Se bem compreendi a proposta do
professor Walther (teólogo e mestre no Concórdia Seminary, St.
Louis, que pelos idos de 1884 a 1885 'premiou' os seus alunos com um
conjunto de preleções denominadas "A Correta distinção entre Lei e
Evangelho"), ele propôs que é necessário ao pregador do 'evangelho'
expor a lei em todo o seu rigor e o evangelho em toda a
sua doçura aos pecadores (6ª Tese).
É esta a forma correta de anunciar a palavra
de Deus? Seria esta a correta distinção entre Lei e Evangelho?
Para compreendermos por que Jesus
disse que não se coloca vinho novo em odres velhos, analisemos como
Jesus anunciou o evangelho aos pecadores
"Nem se deita
vinho novo em odres
velhos; aliás rompem-se os odres, e entorna-se o vinho, e os odres
estragam-se; mas deita-se vinho
novo em odres novos, e assim ambos se conservam"
(Mateus 9: 17).
O mestre Nicodemos e
a mulher samaritana foram evangelizados por Jesus, e através destes
exemplos é possível determinar a maneira correta de anunciar
aos ouvintes o tesouro da graça de Deus.
Nicodemos
representava o melhor da sociedade à época de Jesus
"E HAVIA entre os
fariseus um homem, chamado Nicodemos,
príncipe dos judeus" (João 3: 1):
- Por ser homem,
Nicodemos estava em condição social melhor que as mulheres;
- Era judeu e
descendente de Abraão, o que lhe dava a confiança de se
considerar melhor que os homens de outros povos;
- Era partidário
do farisaísmo, uma das seitas mais severa do judaísmo, o que lhe
concedia a condição de religioso exemplar;
- Como mestre,
Nicodemos era exemplo para o povo;
- Exercia o cargo
de juiz, e, portanto, precisava ter uma conduta ilibada em
sociedade;
- Nicodemos
possuía um nome entre os seus.
Por outro lado, a
mulher samaritana representava o pior da sociedade à época de Jesus
"Porque tiveste cinco maridos, e o que agora
tens não é teu marido; isto disseste com verdade" (João 4:
18):
- A samaritana era
alvo de discriminação social por ser mulher;
- Ela era
samaritana, condição inferior aos judeus no quesito religião;
- Ela teve cinco
maridos, e o que ela 'tinha', não lhe pertencia;
- Nem mesmo foi
nomeada, ou seja, o nome dela não era expressivo na sociedade.
Nicodemos era mestre
do judaísmo, e, portanto, entendido da lei. Em momento algum Jesus
fez referência à lei quando anunciou o evangelho ao distinto
fariseu. De que adiantaria falar da lei a um mestre do judaísmo?
Jesus expôs única e
exclusivamente a verdade do evangelho a Nicodemos sem qualquer
referência à lei.
Isto demonstra que
não é necessário a exposição da lei e dos seus elementos aos
pecadores. Quando Jesus expôs o rigor da lei
a Nicodemos? Observe que Jesus apresentou a Nicodemos uma
necessidade que é pertinente a todos quantos ainda não conhecem a Cristo.
De igual modo, Jesus
não apresentou a lei ou o seu rigor quando anunciou a graça do evangelho
à samaritana. Onde está o rigor da lei na conversa de Jesus com a
samaritana? Jesus condenou ou rejeitou a samaritana por ser
promiscua?
O que se observa na
abordagem de Cristo a Nicodemos e a samaritana?
Jesus anunciou a
necessidade do novo nascimento a um dos melhores representante da
moral e do comportamento humano, tornando sem valor as qualidades e
méritos de Nicodemos para salvação.
Por outro lado, Jesus
apresentou uma possibilidade à samaritana, uma representante do que
era e continua sendo
considerado o pior da moral
e do comportamento humano. Jesus demonstra à samaritana que a falta de valores e
méritos não obstrui a graça de Deus para a salvação.
Em Cristo está
a única possibilidade de salvação tanto para o melhor e o pior
dos homens, por que ambos são provenientes da mesma semente, a
semente corruptível de Adão
"O melhor deles é
como um espinho; o mais reto é pior do que a sebe de espinhos"
(Miquéias 7: 4).
Perceba que a
mensagem do evangelho é única, porém, a maneira de exposição pode variar
conforme o público alvo.
Quando Jesus disse a
Nicodemos que é preciso nascer de novo (da água e do Espírito), ele
fez referência à Regeneração.
Da mesma forma, foi demonstrado à
mulher samaritana que todos que beberem da água que é concedida por
Cristo, será criado em seu interior uma fonte que jorra para a vida
eterna, ou seja, aos pecadores, a única possibilidade de salvação é
proveniente da nova vida (Regeneração) através da palavra (água) de Deus
(Espírito).
A mensagem do
evangelho deve ser apresentada como necessidade aos homens
moralista, uma vez que as qualidades e os méritos do homem não o
torna aceitável diante de Deus. Isto demonstra que os méritos e qualidades
(boas ações) não podem
ser contado como elementos para a salvação.
Por sua vez, aos amorais, ou
imorais, deve-se apresentar a graça do evangelho como possibilidade,
porque em Cristo a salvação é possível. Deus não leva em conta a
condição do homem e da mulher tais como a falta de méritos e qualidades morais.
Da mesma forma,
quando anunciou a verdade
do evangelho à multidão, Jesus demonstrou que há somente dois
caminhos. Por que Ele não apresentou a necessidade de salvação como
foi anunciado a Nicodemos, e nem a possibilidade de salvação como fez
à
samaritana?
Porque na multidão há
um misto de pecadores com diferentes níveis de moral e comportamento (na multidão há vários 'Nicodemos' e
'samaritanas'). Como a mensagem de Jesus precisava alcançar todos os
tipos de pecadores (morais e amorais), ele apresentou a salvação
através da parábola das duas
portas, ou seja, através da parábola Ele demonstrou qual a condição dos seus ouvintes
(entraram pela porta larga e trilhavam um caminho de perdição), e
que eles precisavam decidir por entrar pela porta estreita que dá
acesso ao caminho que conduz a vida eterna.
O que se percebe
através das teses de Walther é que ele tenta unir lei e graça, ou
seja, deitar remendo de pano novo
em roupas velhas. Para Walther 'a pregação da
lei se dirige a pecadores impassíveis no pecado; a do evangelho, a
pecadores atemorizados' Walther, C. F. W, Lei e Evangelho,
Ed. Concórdia, 2ª edição, 1998, pág. 12.
Observe que a lei jamais convence o
homem do pecado, pois este é o papel do Espírito de Deus
"E, quando ele vier,
convencerá
o mundo do pecado, e da justiça e do juízo"
(João 16: 8).
O erro de tentar unir a lei e o
evangelho decorre da idéia de que o diabo é que prende o homem a
certas práticas pecaminosas "Enquanto um
indivíduo vive tranquilamente em pecado, enquanto se recusa a
abandonar determinado pecado, deve-se lhe pregar somente a lei, que
o amaldiçoa e condena (...)Porquanto, enquanto o diabo mantiver você
seu prisioneiro, por um único pecado que seja, o evangelho ainda não
poderá agir sobre você; o que você precisa ouvir é a lei"
Walther, C. F. W, Lei e Evangelho, Ed. Concórdia, 2ª edição, 1998,
pág. 12.
Percebe-se que o professor Walther
entendia que a 'pregação da lei' é que 'torna' o homem livre de pecado, e não a
palavra de Cristo "Vós já estais limpos, pela
palavra que vos tenho falado" (João 15: 3). Para Walther,
as práticas e as condutas é o que torna o homem pecador. Ele deixou
de considerar que o pecado decorre da natureza pecaminosa
herdada de Adão, o que fez com que todos nascessem em pecado e
destituídos da gloria de Deus.
A verdade do evangelho demonstra que
é por causa de Adão que todos pecaram Rm 5: 12. Os nascidos da carne (Adão)
são carnais e sujeitos ao pecado, sem qualquer referência as
práticas pecaminosas. Tanto Nicodemos quanto a mulher samaritana eram
pecadores por serem descendentes de Adão, o que demonstra que as
suas práticas não os tornava melhores ou piores diante de Deus.
Jesus anunciou a verdade do
evangelho para que os homens recebam poder para serem feitos
(criados) filhos de Deus Jo 1: 12- 13. É preciso ao homem nascer da semente
incorruptível, que é a palavra de Deus I Pe 1: 23. Desta forma o homem
torna-se membro da família de Deus, da qual Cristo é o Pai de
família (último Adão) "Basta ao discípulo ser
como seu mestre, e ao servo como seu senhor. Se chamaram Belzebu ao
pai de família, quanto mais aos seus domésticos?" (Mateus 10:
25).
Se o homem torna-se pecador por ter
nascido de Adão, através do novo nascimento, o homem é declarado
justo e santo por intermédio de Cristo por ter sido criado de novo
uma nova criatura, segundo Cristo, o último Adão I Co 15: 45 e 47.
Desta forma, verifica-se que o vinho
novo, ou o símbolo da nova aliança (evangelho) somente é comportado
por um odre novo (nova criatura). Não há como o odre novo (nova criatura) armazenar o vinho
velho (antiga aliança), visto que, ambos não se conservam.
O evangelho de Cristo não aceita
remendo, pois de outra maneira deixará de ser evangelho. A lei
(roupa velha) também não aceita remendos de uma roupa nova, ou seja, a
mensagem do evangelho não se une às obras da lei Lc 5: 37.
Só é possível ao homem abandonar o
pecado quando morre para ele. Não é questão de vontade ou de
comportamento humano. Não há como o homem deixar de servir ao pecado
por decisão própria, visto
que, somente a morte pode trazer liberdade aos nascidos de Adão.
Existem vários homens que procuram na
religião a liberdade do pecado. Aplicam-se as boas ações, as
orações, as meditação, oferendas, sacrifícios, etc., por
considerarem que não estão servindo ao pecado. Porém, somente a
morte concede a tão almejada alforria do pecado.
Quando o homem aceita a mensagem do
evangelho, ele toma sobre si a sua cruz e conforma-se com Cristo na
sua morte Mt 10: 38. É sepultado e ressurge um novo homem, onde a aliança de
Deus é indissolúvel. Ambos se conservam: a nova criatura (odre novo)
e a mensagem do evangelho (vinho novo).
É impossível à nova criatura
testemunhar que é possível alcançar o favor de Deus por
intermédio da lei. A vestimenta da nova criatura é providenciada por
Deus, sem qualquer referência aos trapos de imundície proveniente
das obras da lei. A nova criatura é o odre novo que professa somente o nome de
Cristo, o vinho novo.
O que o crente professa acerca de
Cristo é o mesmo que o 'vinho novo', ou seja, o crente anuncia a nova aliança
de Deus aos homens que foi estabelecida em Cristo.
O vinho novo equivale a mensagem do
evangelho, que Paulo demonstrou ser loucura par aos que perecem, mas
para os que crêem, poder de Deus. O vinho novo não coaduna com as
obras da lei, visto que o vinho novo é escândalo para os que vivem
segundo a lei "Mas nós pregamos a Cristo
crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os
gregos" (I Coríntios 1: 23).
Quando o pecador ouve a verdadeira
mensagem do evangelho e não se escandaliza como muitos se
escandalizavam da doutrina de Cristo, é porque compreendeu que, para
seguir a Cristo é preciso tomar a sua cruz e seguir após Cristo crucificando
o velho homem.
É preciso perceber a distinção que há
entre fardo e cruz. Fardo diz das ordenanças que os homens
sobrecarregam os seus semelhantes, mas que não tem valor diante de
Deus Mt 23: 4. Já a cruz diz de maldição, e cada um deve tomar a sua
própria cruz (maldição) e seguir após Cristo até o calvário
"E qualquer que não levar a sua cruz, e não
vier após mim, não pode ser meu discípulo" (Lucas 14: 27).
Todos os homens nascem debaixo de
maldição, e deve levá-la até o calvário para que ela (maldição) seja desfeita
na morte, quando o homem é sepultado e ressurge um novo homem para a
glória de Deus pai Cl 2: 12.
A mensagem do evangelho é para
que o homem se arrependa, ou seja, que abandone os seus conceitos de
como ser salvo, abraçando a Cristo.
Não há na bíblia qualquer referência
a se depositar a carga dos seus pecados ao pé de Cristo. Geralmente
ilustram o pecado como sendo um fardo que deve ser depositado aos
pés da cruz. Porém, a mensagem do evangelho demonstra que, o que
precisa ter um encontro com a cruz de Cristo é o homem gerado em
Adão.
O arrependimento diz do fardo que o
homem carrega, e que deve abandonar, pois o fardo de Cristo é leve
"Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é
leve" (Mateus 11: 30), uma vez que os mandamentos de Cristo
não são penosos.
Porém, a velha natureza deve ira ao
calvário, pois somente na morte é que o homem torna-se livre do
pecado, para ser de outro quando ressurgir uma nova criatura Rm 7:
1.
Quando os discípulos de João Batista
quiseram saber por que os discípulos de Jesus não jejuavam, uma vez
que todos os seguidores da lei jejuavam muitas vezes, Jesus
respondeu:
"Podem porventura andar tristes os filhos das
bodas, enquanto o esposo está com eles? Dias, porém, virão, em que
lhes será tirado o esposo, e então jejuarão" Mt 9: 15.
O jejum conforme as regras do
judaísmo não era conforme a determinação de Deus, visto que, o
profeta Isaias já havia lhes protestado acerca do verdadeiro jejum
"Seria este o jejum que eu escolheria, que o
homem um dia aflija a sua alma, que incline a sua cabeça como o
junco, e estenda debaixo de si saco e cinza? Chamarias tu a isto
jejum e dia aprazível ao SENHOR?" (Isaías 58: 5).
Sem demonstrar o que é o verdadeiro
Jejum, Jesus apresenta uma regra que todos conheciam:
"Ninguém deita
remendo de pano novo em roupa velha, porque semelhante remendo rompe
a roupa, e faz-se maior a rotura. Nem se deita vinho novo em odres
velhos; aliás rompem-se os odres, e entorna-se o vinho, e os odres
estragam-se; mas deita-se vinho novo em odres novos, e assim ambos
se conservam" Mt 9: 16-
17.
Jesus demonstrou por parábolas, aos discípulos
de João Batista, que não se aplica elementos da lei de Moisés ao
evangelho. Primeiro, porque não é o jejum ou o comer e beber que torna o
homem agradável a Deus, e sim, o ser uma nova criatura Gl 6: 15.
Jesus demonstra que os seus
discípulos são convidados das bodas, sendo incompatível a idéia de
contristar-se na presença do noivo Mt 9: 15. Como estar triste
diante daquele que é a força do Senhor? ;Am 6: 13.
Jesus é a alegria do Senhor, pois resgatou os
seus da maldição da lei. Assim, os discípulos não precisavam jejuar
aos moldes dos fariseus. Porém, quando Jesus fosse tirado (morto),
os discípulos ficariam verdadeiramente contristados, ou seja,
ficariam em jejum 'naqueles dias' Mt 9: 15. Observe que os
discípulos ficariam contristados, ou seja, jejuariam durante os dias
em que o noivo fosse tirado.
Da mesma maneira que ninguém costura
vestido velho com pano novo, pois o remendo com pano novo acaba
comprometendo toda a estrutura da roupa, também não é possível
adicionar elementos do evangelho à lei.
De igual modo, também não se coloca
vinho novo em odres velhos, pois os odres velhos não agüentam o
vinho novo e rompem, entornando o vinho. O velho homem não subsiste
diante do vinho novo do evangelho! Ele deve ser extinto, porque
somente o novo homem é capaz de conte-lo.
Verifica-se então, que a lei serviu
somente de 'aio' para conduzir os homens a Cristo, a essência do
evangelho. Através da lei o homem percebe que não pode
salvar-se a si mesmo através das obras que ela exige.
Diante da impossibilidade da lei, o
homem precisa confiar na promessa do evangelho, de que Deus já fez
para o homem todas as obras necessárias à salvação Is 26: 12.
De qual lei o professor Walther fez
referência? À lei de Moisés? À lei cerimonial? À lei que estabelece
regras e estipula maldições para quem não a cumprir? Que lei deve
ser anunciada adiante do evangelho?
"E disse-lhes também uma parábola: Ninguém tira
um pedaço de uma roupa nova para a coser em roupa velha, pois
romperá a nova e o remendo não condiz com a velha"
Lc 5: 36
Ninguém em sã consciência tira um pedaço de uma
roupa nova para 'coser' remendo em uma roupa velha. Isto porque é
preciso romper a roupa nova para tirar-lhe um pedaço, e o remendo
com um pedaço da nova não combina com a roupa velha.
Tanto a roupa velha quanto a roupa nova não servirão
para cobrir a nudez caso se danifique uma roupa nova para consertar
a roupa velha "Dizendo Nova aliança,
envelheceu a primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se envelhece,
perto está de acabar" (Hebreus 8: 13).
De igual modo, somente os odres novos comportam o
vinho novo, e ambos se conservam.
Mas, quem experimentou o vinho velho jamais dirá que
o vinho novo é melhor "E ninguém, tendo bebido
o vinho velho, prefere o novo, pois diz: O velho é melhor" Lc
5: 39.
A persuasão de que a palavra de Deus não é aplicada
corretamente, quando "o evangelho é transformado em pregação de
arrependimento" (15ª Tese), ou quando "o evangelho é pregado antes
da lei" é perniciosa, visto que, somente pela pregação da fé
(evangelho) é que se recebe o Espírito Gl 3: 2.
Fica o protesto: "Esta
persuasão não vem daquele que vos chamou. Um pouco de fermento
leveda toda a massa" Gl 5: 8- 9.