A Carta de

Tiago

 

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O apóstolo Tiago precisava tratar de um assunto complexo entre os cristãos, e para isto ele utiliza o capítulo um de sua carta preparando os corações dos ouvintes para o tema principal: a acepção de pessoas!

Do versículo dois até aqui, o apóstolo Tiago está estruturando o irmão de condição humilde. Nos versículos dez e onze o apóstolo alerta os cristãos de boa condição financeira.

Observe que não há mudança na idéia no contexto geral tratado no primeiro capítulo. Compare o versículo dois com o doze.

O capítulo um da carta de Tiago é um exemplo claro de psicologia aplicada. Ele não apresenta o problema a ser tratado de inicio. Ele primeiro trata de estruturar os ouvintes evidenciando as provações, a fé, a condição pessoal, a conciliação, para depois trazer o problema à tona.   

 

Capítulo I (v. 9- 16)

 

Posições: Alta e Insignificante

9  Mas glorie-se o irmão abatido na sua exaltação,

O irmão de condição financeira humilde deveria gloriar-se na sua exaltação, ou seja, ter grande alegria, visto que, a sua condição humilde lhe concedia muitas provações, muitos motivos para se refugiar em Deus, desenvolvendo a perseverança, que resultará na exaltação futura Hb 10: 36.

O irmão de condição humilde tem maior motivo para exercitar a sua fé em perseverança, isto é, para gloriar-se.

Sobre este aspecto Paulo demonstra que, caso fosse gloriar-se, gloriaria em suas fraquezas II Co 12: 5.

 

10 E o rico em seu abatimento; porque ele passará como a flor da erva.

O rico deveria ANALISAR a sua condição de maneira diferente. Deveria ter em mente a sua fragilidade, visto que o homem nada é.

O homem tem grande tendência a confiar naquilo que pode ver, o que pode lhe ofuscar a visão de que ele é sustentado por Deus e para ilustra a condição dos homens, principalmente os ricos, Tiago lembra a fragilidade da flor.

 

11 Porque sai o sol com ardor, e a erva seca, e a sua flor cai, e a formosa aparência do seu aspecto perece; assim se murchará também o rico em seus caminhos.

Tudo que é exterior ao homem perece com o tempo. Os caminhos que os homens trilham neste mundo têm um fim, e para o rico não é diferente “Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas” II Co 4:18.  

 

12 Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam.

Esta é uma declaração prática de elementos pertinentes ao evangelho de Cristo. Esta declaração é igual a do escritor aos Hebreus:

“Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” Hb 10: 36.

Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam.

Aquele que suporta a provação demonstra que é paciente, e que receberá de Deus a vida eterna prometida a todos quantos creram em seu Filho.

A vontade de Deus é que todos os homens creiam naquele que ele enviou. A promessa é de vida, e vida eterna. Mas, para alcançá-la o homem precisa de perseverança na fé dada aos santos.

As discrepâncias de ordem socioeconômica no seio da igreja local estavam causando alguns problemas que será tratado no capítulo dois. Porém, Tiago estrutura os seus leitores a serem pacientes, suportando as tentações e provações. 

 

13 Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.

O apóstolo passa a demonstrar que as provações da vida não são provenientes de Deus. Alguém pode considerar que Deus para aperfeiçoar a fé de seus filhos acaba por submetê-los a inúmeras provações. Mas, não é assim! Deus a ninguém tenta.

A fé não precisa ser aperfeiçoada.  O que é passível de aperfeiçoamento é o comportamento humano e a sua compreensão da realidade a sua volta. A fé é dom de Deus, que é perfeita como perfeito é o Pai celeste que nos dá todas as garantias necessárias que estruturarmos a nossa crença.

Por isso o apóstolo Paulo diz: “Eu sei em quem tenho crido” II Tm 1: 12.

 

14 Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência.

Após descartar que as tentações são provenientes de Deus, Tiago demonstra onde as tentações têm origem.

Neste versículo ele não aponta a origem do pecado, visto que o pecado teve origem em Adão, lá no jardim do Éden. Observe que ninguém tem a possibilidade de pecar a semelhança da transgressão de Adão. Não há como os descendentes de Adão dar origem ao pecado “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” Rm 5: 14.

Cada ser humano possui um desejo em particular. Cada pessoa vê as coisas com valores diferenciados. Uns dão maior valor a bens materiais, outros a conduta, outros a dignidade, etc.

O apóstolo Tiago demonstra que o homem é tentado pelo seu próprio desejo. Ele cobiça, é atraído e seduzido pelos seus interesses.

Este desejo após tomar corpo, se for levado a efeito, resulta em uma conduta pecaminosa. Se o desejo for vetado pela consciência do homem, por leis, ou regras éticas, mas este homem leva a efeito este desejo, acaba por gerar a morte.

Por que o apóstolo toca neste assunto? Por causa de elementos apontados no versículo dezenove e vinte deste mesmo capítulo.

Note que Tiago está escrevendo a cristãos, pessoas que não estavam mais sujeitas ao pecado. Da mesma forma estavam livres do pecado de Adão, uma vez que já criam em Cristo. Como um desejo não contido poderia levar a morte?

Caso os ouvintes não suportassem a tentação; caso não fossem perseverantes na fé que receberam, e lançassem mão da ira, deixariam de se sujeitar a justiça de Deus que é pela fé, e estabeleceriam uma própria com base na vingança. Tal inversão, adotar uma justiça própria em lugar da divina, leva a morte espiritual.

 

15 Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.

O apóstolo está tratando de questões práticas. O irmão de condição humilde deveria ter em conta a sua dignidade. Já o de condição abastada, em quanto era insignificante a existência dos homens sobre a face da terra.

Se estas pessoas considerassem estes elementos, não seriam tentados a fazer acepção de pessoas Tg 2: 2. Da mesma forma caso alguém fosse discriminado, sofreria a provação e não lançaria mão da ira, pois tal ação substitui a justiça de Deus que é pela fé, e se estabelece uma outra, a justiça própria.

Através da fé recebemos a justiça de Deus, pois é Deus quem nos justifica. Quando queremos embasar as nossas ações em um sentimento próprio de justiça e de vingança, estaremos vestidos de trapos de imundície. Só resta a morte diante de Deus.

A morte não é resultado da conduta errônea, e sim da falta de fé. Se não há fé, não se consegue sofrer as tentações com paciência. Se não há fé, o homem não espera na providência divina e passa a agir por conta própria.               

 

16 Não erreis, meus amados irmãos.

A determinação é específica aos cristãos (meus amados irmãos). O apóstolo solicita aos cristãos que não errassem demonstrando que, mesmo os cristãos são passíveis de erros.

Qual o erro que o apóstolo faz referência? Erros comportamentais ou erros conceituais?

O apóstolo faz uma repreensão acerca do erro conceitual que havia se instalado em alguns. Alguns pensavam que a tentação era proveniente de Deus, porém, a verdadeira concepção acerca de Deus é que Ele concede boa dádiva e todo dom perfeito. Compare: Gl 6: 7 e I Co 6: 10. 

           

 

Claudio Crispim

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