Pág. 4
Capítulo
I (v. 21- 27)
Recomendações
21Por isso, rejeitando toda a
imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós
enxertada, a qual pode salvar as vossas almas.
Já que a justiça de Deus não coaduna com a ira do homem, o apóstolo concita
os ouvintes a lançarem fora toda impureza e todo vestígio do mal. A
imundície e superfluidade de malícia são descritas em Tiago três, treze a
dezesseis.
A amarga inveja e o sentimento faccioso geralmente advêm da incontinência em
falar e da pressa em vingar uma causa própria.
A prontidão em falar acintosamente e a ira não é próprio daqueles que são
mansos, ou seja, a palavra do evangelho deve ser recebida em mansidão.
A palavra de Deus é poder de Deus para todo aquele que crê, ou seja, poder
de Deus para salvação das vossas almas.
22 E sede cumpridores da
palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos.
Tiago solicita um compromisso com a palavra do evangelho. O compromisso com
a palavra se estabelece quando o ouvinte resiste as tentações, é paciente, e
manso. Este não esta se enganado a si mesmo.
23 Porque, se alguém é
ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao
espelho o seu rosto natural;
Esta é a segunda comparação que Tiago faz.
Ele estabelece uma hipótese: “Se...”. Aquele que duvida é comparado à onda
do mar, e o ouvinte que não pratica é semelhante a quem contempla o próprio
rosto através de um espelho. A comparação se firma no versículo seguinte:
24 Porque se contempla a si
mesmo, e vai-se, e logo se esquece de como era.
Através das comparações Tiago demonstra dois perigos:
a) O ouvinte esquecido ou relapso, e;
b) Ouvinte sem fé, que é levado de uma a outra parte
“...porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento,
e lançada de uma para outra parte” (v. 6).
25 Aquele, porém, que atenta
bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte
esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito.
O apóstolo faz uma ressalva: “Aquele, porém...”.
O ouvinte que recebe a palavra com fé e a pratica, este é o que atenta bem
para a mensagem do evangelho, a lei perfeita.
A lei que não deixa alternativa de escolha não é perfeita. A lei perfeita
deixa alternativa entre cumprir e o não cumprir.
Tiago alerta novamente o ouvinte relapso e o sem fé:
a) e nisso persevera – a perseverança é resultado da fé em prática. A fé
posta em prova produz a paciência, e o exercício da fé à perseverança
“Sabendo que a prova da vossa
fé opera a paciência” (v. 3); “Todo aquele que prevarica, e não persevera na
doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo,
esse tem tanto ao Pai como ao Filho” II Jo 1. 9.
b) não sendo ouvinte esquecido – o ouvinte
esquecidiço é aquele que não cumpre a palavra. Ele não é fazedor da obra e
nem bem-aventurado.
Só é bem-aventurado o ouvinte que atenta para o evangelho com fé. Este será
perfeito e sem falta de coisa alguma, visto que é paciente.
O que suporta a tentação é aquele que
cumpre com a palavra, ou, aquele que faz a obra, sendo o resultado disso a
paciência, a obra perfeita
“Tenha,
porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e
completos, sem faltar em coisa alguma” (v. 4).
26 Se alguém entre vós cuida
ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a
religião desse é vã.
O apóstolo Tiago chega ao momento da prática. Ou seja, se o cristão
não suportar a provação, não terá a obra perfeita, que é a paciência. Este
passará a agir, não refreando a língua. Descumprirá cabalmente a
determinação: “...todo o homem
seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar...” (v. 19),
enganando a si mesmo (v. 22). Tal homem
se apoiará na religiosidade, onde a justiça de Deus não opera.
Tal homem está enfatuado, pois se apóia em um discurso falso: sou religioso!
“E sede cumpridores da palavra, e não somente
ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” (v. 22).
27 A religião pura e
imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas
suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.
Uma demonstração clara de que alguns estavam apoiados em falsos discursos é
que a verdadeira religião se resume em assistencialismo aos órfãos e viúvas,
sem se contaminar com a corrupção do mundo.
As recomendações aos gentios no concílio de Jerusalém são claras:
“Na verdade pareceu bem ao
Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas
necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do
sangue, e da carne sufocada, e da prostituição, das quais coisas bem fazeis
se vos guardardes. Bem vos vá” At 15: 28- 29.
Sobre este mister o apóstolo Paulo foi alertado:
“Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também
procurei fazer com diligência” Gl 2: 10.
Tais determinações foram necessárias, visto que alguns não estavam atentando
para a perfeita lei da liberdade:
“E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram, e secretamente
entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos
porem em servidão” Gl 2: 4.
A recomendação de Tiago era tão somente para que observasem o que era
pertinente ao evangelho de Cristo
“E sede cumpridores da
palavra, e não somente ouvintes...”,
porém, alguns estavam presos à
religiosidade, que se firma em questões tais como o legalismo, o formalismo
e a moralidade. Estes estavam se enganando quando se firmavam nos discursos
da religiosidade:
“...enganando-vos com falsos discursos”.
Vale salientar que
o capítulo um da carta de Tiago visa preparar os cristãos para a exposição
de questões que são abordadas no capítulo Dois.
O leitor desta carta deve ter o cuidado de observar e analisar o seu
conteúdo sobre o prisma de um único contexto.
A carta de Tiago
desenvolve uma idéia principal, porém, antes de especificá-la, ele teve o
cuidado de preparar os seus destinatários diretos, os cristãos de sua época,
com várias exortações, exemplos e comparações.
Não devemos nos
ater as exortações, exemplos e comparações sem o prisma da idéia principal.
A linguagem que
Tiago utiliza é evangelística, pois não se estrutura em citações do antigo
testamento. A linguagem é baseada em comparações e exemplos pertinentes ao
dia-a-dia dos leitores Tg 1: 10- 11, e 23.
Quando se faz
necessário a exposição de alguns conceitos de cunho teológico, o apóstolo
Tiago se socorre de conceitos incontestes Tg 1. 17, sem o auxílio da citação
de trechos do antigo testamento.
A carta de Paulo
aos Efésios segue quase a mesma estrutura de linguagem de Tiago por não
utilizar citações do antigo testamento.