A Carta de

Tiago

 

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Capítulo I (v. 17- 20)

 

Erros Conceituais

 

17 Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. 

 

Os leitores não deviam cometer o erro de considerar que as tentações eram provenientes de Deus. Antes deveriam considerar que de Deus é proveniente toda a boa dádiva e todo o dom perfeito.

 

As bênçãos são provenientes de Deus, que desce de Deus, ou antes, vem do alto.

 

Não é próprio de Deus a mudança e nem mesmo a ‘sombra’ de variação, fato que por si só demonstra que não deveriam errar quanto ao conceito de que Deus tenta alguém com o mal e que concede todo o dom perfeito.

 

 

 

18 Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fossemos como primícias das suas criaturas.

 

Esta carta utiliza uma linguagem eminentemente evangelistica, porém, neste versículo fica demonstrado que o apóstolo possuía perfeita compreensão das nuances teológicas da mesma forma que Paulo e Pedro.

 

O apóstolo Tiago não se utilizou de conceitos teológicos ao escrever por questões próprias ao público alvo da carta. Não se deve considerar que o apóstolo Tiago não comungava ou que não possuía a mesma compreensão que o apóstolo Paulo demonstra em suas cartas.

 

Toda: Deus concedeu aos cristãos toda boa dádiva e todo o dom perfeito, de maneira que nada falta àqueles que aguardam a Jesus “De maneira que nenhum dom vos falta, esperando a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” I Co 1: 7;

Boa dádiva:   Presente de Deus aos homens.

Dom perfeito: A graça de Deus por meio do evangelho “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” Ef 2: 8;

Pai das luzes: “Deus é luz, e nele não há trevas alguma” I Jo 1: 5; “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” Ef 5: 8; “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” Gl 3: 26;

Em quem não há mudança e nem sobra de variação: A imutabilidade de Deus é base para a nossa fé “Por isso, querendo Deus mostrar mais abundantemente a imutabilidade do seu conselho aos herdeiros da promessa, se interpôs com juramento Por isso, querendo Deus mostrar mais abundantemente a imutabilidade do seu conselho aos herdeiros da promessa, se interpôs com juramento” Hb 6: 17, pois só pela fé em Deus somos filhos da Luz;

Segundo a sua vontade: Segundo o consentimento (beneplácito) de Deus que, por meio da fé, adquiríssemos a filiação divina “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” Ef 1: 5;

Ele nos gerou de novo: Aqueles que crêem em Cristo são novamente criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade. Não é uma reformulação ou uma melhoria na velha natureza. Antes recebemos poder para sermos feitos (criados novamente) filhos de Deus “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome” Jo 1: 12;

Palavra da verdade: A palavra da verdade é a mensagem do evangelho, pois o apóstolo Paulo demonstra que o evangelho é poder de Deus para todos quanto crerem Rm 1: 16;

Para que fossemos como primícias das suas criaturas: Aqueles que crêem são gerados de novo e passam a ser uma nova criatura “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” II Co 5: 17. Dentre todas as criaturas de Deus somos considerados como sendo as primícias, visto que ressurgimos com Cristo dentre os mortos “Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem” II Co 5: 17;

 

Com base neste versículo podemos verificar que não há divergência alguma entre o que Tiago e Paulo escreveram em suas cartas.

 

É característica própria a carta de Tiago utilizar uma linguagem evangelista, já que o público alvo da carta se constitui de leigos. Eram carentes de conhecimento Tg 1: 3; 5; 16; 19, e uma linguagem teológica não seria de todo compreendida.

 

Por isso o apóstolo Tiago apresenta um evangelho aplicado e menos conceitual.

 

E Tiago prossegue: “Sabei isto, meus amados irmãos...” (v. 19).

 

 

 

19 Portanto, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.

 

O apóstolo reitera pela terceira vez: meus amados irmãos!

 

Ele não exclui quem quer que fosse da exortação: Todo o homem:

 

            Deveriam ser prontos a ouvir;

            Tardios a falar, e;

            Tardios a irarem-se.

 

O apóstolo reitera alguns cuidados que os irmãos deveriam ter quanto a paciência. O homem paciente está pronto a ouvir! Esta recomendação tem dois aspectos dentro do contexto que Tiago procurou transmitir:

 

            a) Eles ouviriam prontamente a mensagem que estava sendo transmitida por meio da carta, e;

            b) Quanto fossem inteirados dos problemas existentes no seio da igreja Tg 2. 1- 4, não partiriam para julgamentos precipitados, antes estariam prontos a ouvirem um pouco mais. Seriam pacientes.

As recomendações deste versículo soam como um freio à concupiscência de alguns, que eram atraídos a falarem precipitadamente Tg 1. 13- 14.

 

Tiago utiliza o mesmo principio que Paulo ao exortar o homem a examinar a si mesmo.  Este com poucas palavras, de maneira direita e incisiva, aquele utiliza o texto para evidenciar a cada indivíduo o seu erro, fazendo com que se esquecessem dos erros do próximo.

 

 

 

20 Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus.

 

Este versículo esclarece o versículo 15.

 

A abordagem de Tiago tem inicio com a declaração: “Bem-aventurado aquele que suporta a provação” (v. 12). Este homem receberá de Deus o prometido, a coroa da vida, o que é pertinente ao homem livre do pecado. “Os que amam a Deus são aqueles que foram chamados segundo o seu propósito de fazer convergir em Cristo todas as coisas; estes não estão sujeitos ao pecado e tem direito a coroa da vida; antes eram sujeitos ao pecado, e portanto, alijados da vida”.

 

Nestes versículos podemos observar que dois temas são desenvolvidos paralelamente:

 

a)                Não deveriam errar nas questões conceituais. Se Deus não muda, como conciliar ‘boa dádiva’ com ‘o tentar com o mal’?

b)              A maldição do pecado só recai sobre aqueles que não perseveram, e, portanto, não são bem-aventurados.

 

As questões relativas ao parágrafo (a) já foram comentadas anteriormente.

 

Sobre o parágrafo (b) resta descobrir qual o tipo de ‘pecado’ que leva o cristão a morte.

 

O cristão que for atraído e engodado pela sua própria concupiscência (um exemplo prático que o apóstolo Tiago utiliza é a precipitação em falar v. 19), não suportando a tentação, teria em si mesmo os elementos necessários a concepção da concupiscência.

 

É questão de tempo para a concupiscência tomar corpo e dar à luz o pecado e do pecado advém à morte!

 

O pecado que dá luz à morte é o lançar mão da ira.

 

Deus diz: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor” Rm 12. 19; “Porque bem conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo” Hb 10. 30.

 

Quando Paulo diz: “...dai lugar a Ira...”, é uma referência clara ao Senhor! È o mesmo que dizer, daí lugar a Deus, pois a Ele pertence a Ira “Pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” Cl 3. 6.

 

Aquele que não suporta a tentação, que advém de uma cobiça e se põe a falar incontidamente, acabará se inflamando em sua própria ira. Este morrerá, visto que deixou de se sujeitar a justiça de Deus, que é pela fé.

 

Aquele que sai a vingar-se a si próprio está trilhando o mesmo caminho de Davi quando induzido por Nabal “Agora, pois, meu senhor, vive o SENHOR, e vive a tua alma, que o SENHOR te impediu de vires com sangue, e de que a tua mão te salvasse; e, agora, tais quais Nabal sejam os teus inimigos e os que procuram mal contra o meu senhor” I Sm 25. 26.

 

O apóstolo Tiago prevendo que alguém poderia ficar indignado frente aos problemas que seriam relacionados nos versículo 1 a 5 do capítulo 2, antecipa-se e demonstra que, se alguém não adotasse o comportamento do versículo 19, incorreria em não estar sujeito a justiça de Deus, que é por meio da fé em Cristo.

 

Quem se deixar levar pela própria cobiça não suporta a provação, e passa a agir por conta própria alimentando sentimentos facciosos e soberbos, ações pertinentes a ira do homem.

 

 

Claudio Crispim

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