A Carta de

Tiago

 

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Capítulo III (v. 6)

 

Iniqüidade

 

6 A língua também é um fogo; como mundo de iniqüidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno.

               

A língua é comparada a uma fagulha que incendeia um bosque. Por vir especificada ‘um fogo’, demonstra que ela não é fogo, mas é comparável ao fogo por ter a capacidade de inflamar.

 

Embora esta carta traga muitos conselhos,  não devemos ler e analisar seus textos como se lê e analisa o livro de provérbios. Primeiro porque provérbios é um livro, e o texto de Tiago é uma epístola.

 

As diferenças entre carta e livro acabam por influenciar a escrita e a linguagem utilizada pelo autor, visto que a linguagem deve ser própria ao público alvo.

 

O público que se destina um livro é abrangente, universal, enquanto que uma carta destina-se a um público restrito (os destinatários). Ou seja, uma carta tem o cunho pessoal, enquanto um livro se guia pela impessoalidade e universalidade.

 

O livro de provérbios destina-se a humanidade e a carta de Tiago aos cristãos.

 

O tema ‘língua’ não tem início neste capítulo. Este tema vem sendo desenvolvido desde o primeiro capítulo, o que diferencia a abordagem de Tiago da abordagem feita em Provérbios. Em Provérbios geralmente uma idéia se conclui em apenas um versículo.

 

Como a língua é um pequeno membro que se gaba de grandes coisas, todos os cristãos devem ter o cuidado de gloriar-se apenas em Deus Jr 9. 24; I Co 1. 31;II Co 10. 17, pois no Senhor não há diferenças sócio-econômicas. Ou seja, o irmão de condição humilde deve gloriar-se na sua alta posição no Senhor e o rico na sua insignificância Ef 1. 9- 10.

 

Porém, ao ingressar na igreja, tanto o pobre quanto o rico buscam o que entendem ser a melhor posição: querem ser mestres, doutores, pastores, etc. Esquecem que para ser algo diante do Senhor, devem deixar tudo, principalmente os conceitos e conhecimentos do mundo “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo...” Fl 3. 8.

 

Aquele que procura ser mestre somente como meio para se gabar, sem ter a chamada para tal ministério, poderia causar um grande prejuízo a igreja de Deus, visto que poderia introduzir algum erro conceitual e a devastação seria semelhante ao pequeno fogo em uma floresta.

 

Observe que o homem é atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Por desejar ardentemente gabar-se de grandes feitos, aplica-se em alcançar grandes posições. Aquele que é guiado pela concupiscência, quando alcança uma posição de destaque, os deslizes com as palavras e os erros conceituais são inevitáveis (isto porque, todos nós tropeçamos em muitas coisas, e quem não tropeça em palavras é perfeito e capaz de refrear todo o corpo); e o que este homem estará propagando com a sua língua será como o fogo em uma floresta: devastador. A posição de mestre a alguém que não foi comissionado para ensinar potencializa o efeito destruidor do erro.

 

Para evitar tão grande mal, todo homem deve estar pronto a ouvir e ser tardio em falar, a exemplo daqueles que, diante da tentação, diziam de maneira equivocada que estavam sendo tentados pelo Senhor Tg 1. 13- 17. Qual não seria o estrago no seio da igreja se alguém com este erro conceitual viesse a alcançar a posição de mestre?

 

Aquele que é enganado pelo seu próprio coração acredita que é religioso. Estes geralmente não controlam a língua, estão prontos a falar, são tardios em ouvir, e acabam lançando mão da ira Tg 1. 16.

 

 

“...como mundo de iniqüidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno”

             

O versículo acima é um exemplo prático do exposto no capítulo um, versículo quatorze e quinze. Compare:

 

“Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” Tg 1. 14- 15.

           

Cada pessoa é tentada pela sua própria concupiscência, ou seja, primeiro ela é atraída e engodada pelos seus próprios desejos. Quando estes desejos são levados a efeito, dá-se à luz o pecado, e o fim dele é a morte.

           

Da mesma maneira, o homem que não cumpre com o disposto no versículo dezenove do capitulo um, acaba por se gabar de grandes coisas Tg  3. 5. Para fazer jus ao que foi propalado através da língua incontida, este homem vai se sentir atraído e desejar as ‘melhores’ posições na igreja.

           

Como todos tropeçam em muitas coisas, aquele que se gaba e alcança uma posição de destaque, irá tropeçar em palavras. Desta forma, a língua deste incauto será como fogo. Será como mundo de iniqüidade situada entre os seus membros.

           

Como o que contamina o homem é o que procede do seu coração “Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem” Mt 15. 18; “Nada há, fora do homem, que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele isso é que contamina o homem” Mc 7. 15, a língua é o veículo que evidencia o que está no coração, o que contamina todo o corpo.

 

Tiago e Jesus falam do mesmo problema que afeta o coração da humanidade. Este fala do princípio pernicioso que contamina o homem (o pecado que tem domínio sob o coração do homem sem Deus), enquanto aquele fala da língua, membro que torna evidente o princípio pernicioso que está no coração do homem.

 

Tiago dá mais um alerta: a língua pode acelerar o processo de destruição do homem, que sem a intervenção da língua, seria natural, ou seja, seria conforme o curso próprio da natureza. Isto porque o curso da natureza do homem é a morte, e a língua tem a capacidade de inflamar; ela acelera o curso da natureza. Um exemplo desta verdade é o recomendado por Paulo: “Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo” I Tm 3. 6.

 

A soberba leva a queda, uma entrada súbita na condenação do diabo. E, o que resta a quem teve inflamado o curso da natureza pela língua? Ser inflamada pelo inferno!

 

Onde há pecado, há morte e a justiça de Deus não opera, o que resta é o fogo do inferno Tg 1. 20 e 3. 6.

 

 

 

 

Claudio Crispim

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