A Carta de

Tiago

 

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Capítulo III (v. 14- 18)

 

A Inveja: Obra da Carne

 

           

 14 Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade.

 

 

O problema encontra-se no coração do homem e a língua torna evidente este mal “...sentimento faccioso em vosso coração...”.

 

Este versículo demanda um exercício de interpretação de texto para uma melhor compreensão. Observe:

 

·        Uma pergunta “Quem entre vós é sábio e entendido?”. O contexto nos mostra que só quem quer ser mestre se considera sábio e entendido;

·        Uma determinação a quem respondesse afirmativamente que é sábio e entendidoMostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria” A determinação do apóstolo só é cabível a quem presume ser sábio e entendido; porém, a determinação é impossível de ser cumprida por quem se arroga na condição de sábio e entendido;

·        Uma conclusão “Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração...” Este versículo é uma conclusão do apóstolo, e aponta os elementos que consta do coração daqueles que se acham sábios e entendidos. Observe que o argumento fica inconsistente quando se tenta combinar a primeira e a segunda parte do versículo ao se enfatizar a partícula ‘se’: “Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso...”, “...não vos glorieis, nem mintais contra a verdade”. O indivíduo pode se gloriar de uma alta posição, porém, jamais alguém vai querer se gloriar de ser invejoso e faccioso. A Bíblia Vida Nova da Editora Vida Nova reza o seguinte: “Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade”. Para enfatizar a partícula ‘se’, trocam o ‘não’ pelo ‘nem’, o que dá a entender que alguém se gloria em ser invejo e faccioso (‘glorieis disso’, disso o quê?).

 

 

A ênfase deve estar no verbo ‘ter’, o que demonstra que aqueles que se sentiam entendidos e sábios só estavam cheios de inveja e contenda “Porém se tendes inveja amarga, e contenda em vosso coração...”.

 

A pergunta persiste: quem é sábio e entendido? Um sábio e entendido deve mostrar através do seu bom comportamento suas obras em mansidão de sabedoria. Quando alguém que se diz sábio e entendido não consegue cumprir com a determinação anterior, só pode estar acometido de amarga inveja e um sentimento faccioso no coração.

 

A determinação é clara e precisa: “...não vos glorieis nem mintais contra a verdade”.

 

·          Não vos glorieis – Com relação a gloriar-se, a primeira determinação do apóstolo é oposta: Glorie-se o irmão de condição humilde (...) o rico, porém, glorie-se na sua insignificância...”; O apóstolo Tiago dá um bom motivo para os irmãos se gloriarem Tg 1. 9- 10, e reitera que todos devem estar prontos a ouvir, tardios em falar Tg 1. 19. Se alguém estava procurando a posição de mestre com a intenção de gloriar-se, a determinação é clara: não vos glorieis; pois os mestre receberão maior juízo Tg 3. 1; a língua se gaba de grandes coisas Tg 3. 5; e, quem entre eles era sábio e entendido, a ponto de gloriar-se? Tg 3. 13;

·        Nem mintais contra a verdade – o verbo no grego sugere que não deveriam alegar ‘falsas reivindicações de estarem na verdade’, ou seja, eles na verdade não eram mestres, antes tinham amarga inveja no coração e um sentimento faccioso. 

 


15 Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica.

               

Muitos dentre os cristãos se sentiam mestres, sábios e entendidos, porém a sabedoria que neles estava não vinha de Deus Tg 3. 1 e 13.

 

A pretensa sabedoria que alguns possuíam não era a sabedoria que vem do alto.

 

A sabedoria terrena, animal e diabólica é a que está vinculada à velha natureza. Eles ainda eram carnais I Co 3. 3.

 

 

16 Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa.

O apóstolo dá os motivos que compromete a sabedoria que alguns possuíam: inveja, espírito faccioso, perturbação e obra perversa “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus” Gl 5. 19- 21; “Porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens?” I Co 3. 3.

 

 

 

17 Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia.

 

O apóstolo Tiago descreve a sabedoria que vem de Deus. Esta é a sabedoria que Deus dá liberalmente a todos “E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada” Tg 1. 5.                

 

 

 

18 Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz.

 

O apóstolo Tiago chega a uma conclusão: o fruto da justiça semeia-se na paz! O que ele quis dizer?

 

Não se semeia o fruto, e sim a semente, pois devemos ter em mente que a semente dará o seu fruto no devido tempo. Ou seja, para se obter o fruto da justiça devemos lançar a semente na paz. Mas, qual é a semente que produz o fruto da justiça? Para se obter o fruto da justiça faz-se necessário semear a semente apropriada, que é a palavra de Deus I Pe 1. 23.

 

Sabemos que Cristo é a nossa paz e que o fruto da justiça só é possível por meio dele Ef 2. 14. Sobre este assunto o apóstolo Tiago já havia feito uma abordagem anteriormente:

 

“Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas. Portanto, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar. Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus. Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas” Tg 1. 18- 21.

 

·       Gerou pela palavra da verdade: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” I Pe 1. 23a palavra do evangelho é semente que pode salvar as nossas almas e nos deixa na posição de primícias das criaturas de Deus;

·        Pronto para ouvir: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” Rm 10. 17a semente só germina quando ouvimos. Por isso a recomendação do apóstolo: “...recebei com mansidão a palavra...”;

·        Não opera a justiça de Deus: “Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” II Co 5. 21a justiça que surge é em Cristo (nele) e é resultado de uma obra divina (feitos);

·        Rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia: “E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” Hb 12. 11o ato do cristão em rejeitar a imundícia e a superfluidade de malícia é o mesmo que se exercitar na paz. 

           

Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz.

 

Passemos a explicar novamente o versículo dentro do contexto que o apóstolo vinha discorrendo.

 

Aqueles que desejavam ser mestre simplesmente para se gabar, foram avisados de que a sabedoria que vem do alto é pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem hipocrisia. Após informar qual a sabedoria que deveriam buscar, Tiago conclui: “Ora...”.

 

Ou seja, só é possível semear o fruto da paz, levar a semente do evangelho, aqueles que dela são nascidos e que exercitam a paz. Os que promovem a paz, ou aqueles que a exercitam, não devem ter amarga inveja e nem sentimento faccioso. Estes são requisitos essenciais a quem deseja ser mestre.

 

A bíblia nos apresenta o fruto da justiça e o fruto do Espírito. Qual a relação entre eles?

Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz”

“Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança...”

 

Tiago fala como se semeia o fruto da justiça e Paulo aponta o que é o fruto do Espírito.

 

·        O fruto do Espírito “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” Gl 5. 23- 24 - O fruto do Espírito só é possível àqueles que crucificaram a carne e nasceram do Espírito Eterno. Estes deixaram de viver segundo a carne e passaram a viver segundo o Espírito. Ou seja, cumpre-se o que foi dito por Cristo: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” Jo 3. 6. Aqueles que são nascidos do Espírito através do lavar regenerador da palavra do evangelho, estes são espirituais, e produzem em Deus amor, gozo, paz, longanimidade, etc. “Estai em mim, e eu em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim” Jo 15. 4;

·        O fruto da justiça “Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados” I Pe 2. 24 -  O fruto da justiça só é possível àqueles que tiveram os seus pecados levados pelo corpo de Cristo e crucificaram a carne, estando mortos para o pecado. Estes deixaram de viver para o pecado e passaram a viver segundo a Justiça. Ou seja, para pudéssemos ser: “Cheios dos frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus” Fl 1. 11.

 

Observe que o ‘fruto da justiça’ e o ‘fruto do Espírito’ só são possíveis por meio de Jesus. Observe também que os dois frutos estão no singular: o fruto. Ou seja, o fruto do Espírito é o mesmo que o fruto da justiça.

 

E o mais interessante: Paulo e Tiago falam do fruto do Espírito, e ou Fruto da Justiça, para dissuadir os seus leitores de comportamento semelhantes:

 

Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros” Gl 5. 26;

“Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade (...) Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa” Tg 3. 14- 16.

 

 

 

Sobre a abordagem ‘fruto do Espírito’ leia comentário a carta de Paulo aos Gálatas versículo a versículo, também disponível no nosso site: www.ibiblia.net

 

 

Claudio Crispim

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