A Carta de

Tiago

 

| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 9 | 10 | 11 |

 

Pág. 10

 

Capítulo II (v. 19- 26)

 

A Fé Morta

 

 

19 Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o crêem, e estremecem.

 

A crença em um só Deus é importante, porém pode ser inócua tal crença se não se fizer acompanhar as obras.

 

 

20 Mas, ó homem vão, queres tu saber que a fé sem as obras é morta?

 

A insensatez de alguns em compreender a mensagem do apóstolo sobre as obras da fé, leva o apóstolo a dar exemplos:

 

 

21 Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?

 

A fé de Abraão foi demonstrada na perseverança em levar o seu único filho até o altar de sacrifício. Sobre este aspecto o escritor aos Hebreus assim escreveu: “Pela fé ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito” Hb 11. 17.

 

Abraão não se fez de rogado quando lhe sobreveio a provação, permanecendo firme.

 

Abraão foi justificado quando creu em Deus, porém a sua fé provada se demonstrou mais preciosa que o ouro, e as suas obras testemunharam acerca de sua fé “Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo” I Pe 1. 7.

 

idem.

 

Em Gn 15. 6 a fé de Abraão foi lhe imputada para justiça, ou seja, Deus justificou a Abraão, e sobre este aspecto Paulo afirma: “Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” Rm 4. 3- 5.

 

O aspecto que Paulo comenta é o da declaração divina acerca do homem: aquele que crê que Deus justifica o ímpio, esta fé é imputada como justiça. Abraão não tinha praticado nenhuma obra, mas creu. Ele estava de posse da fé que veio por meio da palavra de Deus, que lhe fez a promessa.

 

Tiago comenta Gn 22, onde a ação de Abraão confirma a sua fé em Deus. Neste ponto é as obras de Abraão que o justifica, ou seja, são as obras que dizem algo à respeito do pai Abraão. Em Gênesis quinze, Deus declara algo sobre Abraão, e em Gênesis vinte e dois, as obras dizem algo acerca do patriarca “...pelas obras justificado...” (v. 21).

 

 

22 Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada.

 

Através do exemplo anterior o apóstolo espera que o leitor insensato possa ver que a fé coopera com as obras, e que pelas obras a fé é aperfeiçoada. Ou seja, a prova da fé leva ao aperfeiçoamento da fé, resultando em obras.

 

 

23 E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus.

 

Tiago citou dois pontos distintos da Escritura: Gn 15. 6, da justificação pela fé, e II Cr 20. 7, onde Jeosafá em pé na congregação nomeia Abraão de “amigo de Deus”.

 

A escritura cumpriu-se na seqüência exata e em dois pontos distintos: Deus justificou a Abraão Gn 15. 6, e a sua perseverança na fé, apesar da prova, concedeu-lhe a dádiva de ser chamado de amigo de Deus “Porventura, ó nosso Deus, não lançaste fora os moradores desta terra de diante do teu povo Israel, e não a deste para sempre à descendência de Abraão, teu amigo?” II Cr 20. 7.

 

O cumprimento da Escritura se dá em dois momentos: Quando Deus justifica o crente Abraão e ele persevera mesmo quando a sua fé foi provada, o que lhe deu o título de amigo de Deus posteriormente. Se Abraão não estivesse de posse da obra perfeita da fé,a perseverança, jamais teria recebido o título de amigo de Deus.

 

 

24 Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé.

 

Este versículo demonstra que o homem é justificado pelas obras da fé. Ou seja, o homem não é justificado somente pela fé, mas pela fé e pelas obras que esta produz Tg 1: 4.

 

 

25 E de igual modo Raabe, a meretriz, não foi também justificada pelas obras, quando recolheu os emissários, e os despediu por outro caminho?

 

A ação de Raabe em esconder os espias de Israel demonstra de maneira clara que ela havia crido em Deus. O que ela ouviu acerca do Deus de Israel foi o bastante para que ela alcançasse a fé, que logo em seguida foi posta a prova Js 2. 1- 24.

 

 

26 Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta.

               

Tiago conclui o pensamento com uma comparação. Assim como o corpo sem o espírito está morto, a fé sem obras é morta.

 

A fé sem as suas obras é morta. Não há referência as obras ou ações humanas como meio para se alcançar o favor de Deus.

 

O favor de Deus foi demonstrado, sendo que Cristo foi morto, e éramos ainda pecadores. Ele morreu isto porque não havia como o homem realizar algo que pudesse mudar sua realidade.

 

Agora que já fomos reconciliados com Deus através da morte de Cristo, haveria algo ainda a ser feito para permanecer com tal dádiva? Não!

 

O que o apóstolo demonstra é que devemos ter a fé e estar de posse das obras da fé.

           

 

“Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” Hb 4. 16.

 

Após cremos em Deus, devemos nos achegar ao trono da graça com confiança, certos de que em tempo oportuno acharemos graça e misericórdia.

 

O aproximar do trono da graça com confiança é uma das obras da fé, da mesma forma que o é reter firmemente a nossa confissão Hb 4. 14.

 

As obras da fé são aspectos que se manifestam no homem interior, onde ele lança mão da esperança proposta. Ele possui essa consolação como ancora firme e segura da alma.

 

 

Por várias vezes Tiago chama os cristãos de irmãos.

 

Quando ele chama o lugar de reunião dos cristãos de ‘sinagoga’ (com base no texto grego Tg 2. 2), é porque o conceito de igreja não se estendia ao templo, como o é em nossos dias.

 

As várias referências que a bíblia registra acerca da igreja descrevem mais um reunião de pessoas do que o templo onde estavam se reunindo. Para Paulo a igreja era a união de gentios e judeus em torno do nome de Cristo Ef 3. 10.

 

O ajuntamento dos cristãos constitui a igreja, porém o local pode ser denominado de templo, igreja ou sinagoga. À época de Tiago o termo mais preciso para o local de ajuntamento era ‘sinagoga’.

 

Neste aspecto o apóstolo João escreveu no Apocalipse desta maneira: “Conheço as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que se dizem judeus, e não o são, mas são a sinagoga de Satanás” Ap 2. 9; “Eis que eu farei aos da sinagoga de Satanás, aos que se dizem judeus, e não são, mas mentem: eis que eu farei que venham, e adorem prostrados a teus pés, e saibam que eu te amo” Ap 3. 9. O apóstolo escreve ao anjo das igrejas da Ásia, porém havia algumas pessoas que se diziam judias, mas na verdade eram sinagoga de Satanás. Ou seja, aqueles que se arrogavam no direito de se dizerem judeus queriam avocar para si a filiação divina, mas não passavam de sinagoga (templo) de Satanás.

 

As expressões judaicas que a carta apresenta decorrem de uma vida inteira voltada para o judaísmo. Tal característica não determina precisamente que os destinatários da carta também devam ser todos judeus convertidos ao cristianismo.

 

O tema da carta não é uma questão própria e exclusiva dos judeus convertidos, mas de todos quantos crêem em Cristo: perseverança!

 

A carta não apresenta temas como idolatria e escravidão pelo simples fato de os destinatários serem cristãos. Com relação a idolatria já havia recomendações proveniente do concílio de Jerusalém At 15. 20.

 

Não entraremos nas questões pertinentes às hipóteses das datas em que foi escrita a epístola, porém a carta não faz menção a cristãos gentios ou judeus por ser unânime entre os apóstolos desde o concílio em Jerusalém que os judeus e gentios constituem a igreja de Cristo At 15. 14.

 

Qualquer desvio deveria ser prontamente reprimido Gl 2. 14. Quem presenciou a repreensão de Paulo ou que ouviu falar de tal acontecimento, já estava mais do que alertado quanto a qualquer tipo de dissensão entre povos no seio da igreja.

 

As argumentações teológicas em Tiago são as mesmas que permeiam as cartas de Paulo, como já vimos em Tg 1. 17- 18.

 

Aliado a está característica, não dá para afirmar que a carta de Tiago foi escrita antes dos evangelhos. A linguagem dos evangelhos é voltada para fatos históricos, com exceções ao evangelho de João.

 

Tiago não faz alusão ao concílio de Jerusalém, porém tal fato não pode ser utilizado para tentar precisar a data da carta, visto que tal fato não é pertinente ao tema em questão.

 

Há quatro indivíduos identificados como Tiago no novo testamento. Podemos sugerir qual deles seria o autor da carta, porém não é possível afirmar categoricamente.

 

O que é plenamente observável a respeito do escritor da carta é que ele não precisar defender a sua posição no seio da igreja à maneira de Paulo. Bastou a simples identificação: “Tiago, servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo...” Tg 1. 1.

 

 

Claudio Crispim

| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 9 | 10 | 11 |

www.ibiblia.net ©