Teses sobre a Santificação
O que mais se tem
apregoado sobre a santificação é que nela se
desenvolve a experiência da salvação.
O Dr. Scofield
deixou registrado em suas notas de rodapé, da Bíblia
Scofield que: "A justificação
é um ato de reconhecimento divino e não significa
tornar uma pessoa justa (...) Ele declara
justamente e trata como justo aquele que crê
em Jesus Cristo" Nota de rodapé Romanos 3:
28. Observe que, para Scofield o crente não é justo,
mas somente reconhecido e tratado como sendo justo.
Sobre a
Santificação, Scofield apresenta um triplo
significado ao tema: posicional, experimental e consumação.
Ele considera que posicionalmente o crente é santo,
mas que, experimentalmente, está sendo santificado
progressivamente.
Neste mesmo
sentido, E. H. Bancroft ao falar da santificação,
subdivide o tema em três fases: inicial, progressiva
e final. Da fase progressiva, ele destacou:
"A justificação difere
santificação no seguinte: aquela é uma ato
instantâneo e que não comporta progressão; esta, é
uma crise que visa a um processo - um ato que é
instantâneo, mas que ao mesmo tempo traz em si a
idéia de desenvolvimento até a consumação. De acordo
com 2 Co 3. 18 estamos sendo transformados de um
grau de caráter ou de glória para outro. É porque a
santificação é progressiva que somos exortados a
continuar progredindo cada vez mais (1 Ts 3.12; 4.
1, 9, 10) nas graças da vida cristã. Existe
realmente o 'aperfeiçoamento de santidade'. O dom de
Deus à igreja, de pastores e mestres, tem o
propósito de aperfeiçoar os santos na semelhança de
Cristo até que, finalmente, atinjam o padrão divino
(Ef 4. 11- 15; Ef 3. 10 - 15)" BANCROFT,
Emery. H., Teologia Elementar - 3º Edição 2001, Ed.
EBR, Pg. 262 (grifo nosso).
Como demonstramos
anteriormente, o crente efetivamente é santo e
justo. Porém, como entender esta necessidade de
Santificação? A bíblia realmente apresenta a
Santificação em três fases distintas?
É comumente aceito
nos meios acadêmicos que a Santificação é obra
continua do Espírito Santo. Esta obra 'continua'
visa conformar o crente à imagem de Cristo. Tal
idéia é proveniente da palavra traduzida por
santificação, que deixou o seu significado original
ao longo do tempo em
segundo plano, e passou a ter inclusa a idéia de
moralidade e religiosidade.
Este novo
significado que se deu à palavra 'santificação' se deve também
à idéia de
purificação, e com base em alguns textos bíblicos
tentam demonstrar que na santificação ocorre uma
transformação moral; com esta idéia afirma-se que a
moral e o caráter são elementos que devem ser
transformados através de uma busca pela santificação.
Em resumo, as
várias teorias existentes sustentam que a Santificação
é posicional (objetiva), progressiva (subjetiva) e
efetiva no futuro. Explicam que a santificação
objetiva surge na regeneração e que todos os crentes
são separados e foram purificados por Deus.
Apesar do crente
ter sido Santificado por Deus, alegam que o Espírito
Santo, por sua vez, continua trabalhando na vida
deste crente regenerado com o fito de desenvolver um
novo caráter e uma nova personalidade: é o que
denominam de
santificação progressiva.
Segundo este
pensamento teológico, a Santificação efetiva deve
ser aguardada quando da volta de Cristo, quando se dará
a plena liberdade do pecado.
Dentre os elementos necessários
à Santificação, destacam: o Espírito Santo, a união com
Cristo, a palavra de Deus, o esforço do cristão, a
oração, a disciplina, a obediência, consagração, etc.
Para que a Santificação seja alcançada, alegam que o
cristão precisa da ação
“abundante” do Espírito, senão o crente fica a mercê das
fraquezas “morais” e “espirituais”.
Pensam na
mudança do caráter
e da moral do cristão como sendo necessária à
santificação, para que se
torne cada vez mais real a sua união com Cristo.
Entendem que há níveis diversos de santidade.
Millard J. Erickson em sua
Introdução à Teologia Sistemática define este
posicionamento: “A santificação é
a obra continua de Deus na vida do crente,
tornando-o realmente santo. Por ‘santo’ entende-se
aqui ‘portador de uma verdadeira semelhança com
Deus’. A santificação é um processo pelo qual a
condição moral da pessoa é moldada de acordo com
sua situação legal diante de Deus” Pg 417, 1º §
(grifo nosso).
O Dr. Shedd ao
falar de aspectos pertinentes a Santificação,
apresenta quatro fatores fundamentais:
"Em primeiro lugar, ele
depende da união entre o remido e o Redentor (...)
Segundo: a santidade deve caracterizar o padrão
de vida (...) Produzir um hábito de santidade
deve ser desafio prioritário do ministério
(...) Terceiro: a santificação, sendo um processo,
não deve ser encarada como um alvo que algum
dia alcançaremos nesta vida terrestre (...) Em
quarto lugar observamos a realidade escatológica. A
segunda vinda de nosso Senhor promete completar o
que a vinda de Jesus Cristo no primeiro século
iniciou" Shedd, Russell P., Lei, Graça e
Santificação, 2º edição, Ed. Vida Nova, Pág. 72 ss.
Refutação
Se levarmos em
conta a idéia de que a palavra traduzida por
'santificação' engloba questões como 'moral' e
'religiosidade', acabaremos por adotar os
pensamentos acima. Mas, quando se leva em conta que
a Santificação decorre da nova natureza adquirida em
Cristo, percebe-se que elementos como moralidade,
comportamento, caráter não são levados em conta na
Santificação.
Quando da queda do
homem em Adão, Deus não levou em conta questões como
moral e caráter. Nem mesmo existia a idéia de
caráter, moral ou comportamento no Éden.
O homem, quando foi
criado, era participante da vida que há em Deus,
sendo perfeito, santo, irrepreensível, inculpável e
participante da glória de Deus. Estas
características pertinentes ao homem Adão, foram
conferidas pela natureza concedida por Deus e não
por questões morais, comportamentais ou de
religiosidade.
Se na queda não
estava em voga elementos como moralidade e
religiosidade, porque estes elementos são computados
quando da reunião dos homens com Deus? A
bíblia apresenta a fé como única exigência, visto
que, a desobediência se concretizou por causa da
falta de confiança em Deus.
É possível que a
Santificação ou a Santidade decorra daquilo que
'merece e exige reverência moral e religiosa'?
Muitos ofertam aos seus deuses reverência moral e
religiosa, por entenderem que seja isto que tais
divindades exigem e merecem, porém, a atitude deles
não os santifica.
Da mesma forma os
judeus entendiam que Deus exigia e merecia ser
reverenciado por meio da religiosidade e moralidade
decorrente da lei. Porém, o zelo não mudou a
condição deles diante de Deus Rm 10. 1- 4.
Não adianta um
caráter impecável, uma moral intocável, um
comportamento exemplar, uma religiosidade rigorosa,
etc., nenhum destes elementos faz o homem aceitável
diante de Deus. Por quê? Porque a obra de Deus é
perfeita. Não há como o homem retocar a obra de
Deus.
A obra realizada
na Regeneração faz com que os homens passem à
condição de santos, irrepreensíveis, inculpáveis e
participantes da glória de Deus. Ou seja, a obra
realizada por Deus é perfeita. Perfeito em Cristo é
a condição de santo, irrepreensível e inculpável Cl
1: 22 e 28.
Como em Cristo
habita corporalmente a plenitude da divindade,
aqueles que crêem recebem a plenitude de Deus em
Cristo. Regeneração plena, Justificação plena e
Santificação plena.
O apóstolo João ao
falar da plenitude de Deus em seus filhos, assim
define: "Todo aquele que confessar que Jesus é o
Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus" I Jo
4: 15. Caso alguém tenha dúvidas quanto à natureza
herdada em Cristo, perceba que, tal qual Cristo é,
'somos nós também neste mundo' I Jo 4: 17.
Observe que a nova
condição em Cristo é efetiva neste mundo, e não no
vindouro. A filiação é que confere Justificação e
Santificação. Perceba que se adotarmos o
posicionamento corrente da teologia da atualidade,
deveríamos considerar que Cristo também está se
santificando progressivamente, pois tal qual Ele é,
somos nos AQUI NESTE MUNDO.
O Dr. Bancroft, ao
falar da Santificação progressiva citou II Co 3: 18
para justificar o seu posicionamento. Ao lermos o
verso bíblico, percebe-se que ele foi arrancado do
contexto e interpretado sem o critério das
Escrituras
"De acordo com 2 Co 3. 18
estamos sendo transformados de um grau de caráter ou
de glória para outro" (idem).
"Mas todos nós,
com o rosto descoberto, refletindo a glória do
Senhor, somos transformados de glória em glória na
mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor" II
Coríntios 3: 18.
O
contexto do verso acima faz referência à lei
entregue por Moisés ao povo. Ao fazer referência ao
brilho do rosto de Moisés após ter recebido as
tábuas da lei, e ao véu que Moisés utilizou, Paulo
demonstra que todos os cristãos estão com o rosto
descoberto. Que todos refletem a glória de Deus.
Que todos foram transformados de glória em glória.
Que a transformação operada nos da a imagem de Deus.
Mas, sobre que
glória Paulo estava falando? De caráter? Não! Da
glória proveniente da lei, que desvanecia, e da
glória proveniente do evangelho, que é permanente.
Onde Paulo faz referência a caráter? Não vemos no
texto, e nem mesmo o contexto fazer qualquer
referência a caráter ou moral.
"Pois o que foi
glorioso, não o é em comparação com a glória
inexeqüível"
II Coríntios 3: 10.
É sobre estas
'glorias' que Paulo fez referência, e não com
relação a caráter.
Porque uma é a
glória dos homens, quando criados por Deus, e outra
é a glória dos filhos de Deus, gerados da semente
incorruptível. A lei tinha a sua glória e valor para
o homem gerado da semente corruptível de Adão,
agora, em Cristo, o homem é transformado da glória
de criatura para a de filhos, ou melhor, em imagem e
semelhança de Deus.
É importante perceber que
existem muitas distorções quanto ao tema
Santificação, principalmente ao utilizarem citações
bíblicas. Estas são arrancadas do contexto para dar
ênfase às teses que são formuladas.
Antes de
prosseguirmos neste estudo, veremos algumas passagens bíblicas
que fazem referência à Santificação e o seu contexto, e
quando possível, faremos citações a outros escritores,
para tornar evidente as diferenças de interpretação
e a aplicação de algumas passagens
bíblicas.