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A Carta de Paulo aos |
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Introdução Antes de prosseguirmos, faz-se necessário esclarecermos dois assuntos acerca de alguns temas que iremos estudar no decorrer do capítulo três da carta aos Romanos. Em certa publicação brasileira, ao falar da justificação pela fé, o escritor recomenda um cuidadoso estudo dos versos 21 ao 31, arrematando que, nestes versículos estão contidos toda a doutrina fundamental do evangelho. Não me oponho a esta argumentação, mas não posso concordar com a argumentação seguinte: "Quando o mundo está com a boca fechada, condenável (mas não condenado) perante Deus, então é que Deus revela uma justiça divina para os homens..." McNair, S. E., A Bíblia explicada - 4ª Ed. - Rj: CPAD, 1983, Pág 407, Cap 3, § 4º.Segue-se a pergunta: O mundo é 'condenável' ou 'está condenado' perante Deus? A bíblia é clara ao demonstrar que o mundo já está condenado perante Deus, mas quanto às obras, o mundo é condenável, visto que as ações dos homens ainda serão submetida à juízo. Quando não se estabelece distinção entre a condenação em Adão (passado) e a retribuição decorrente das obras (condenável - futuro), não conseguiremos entender as argumentações paulinas. Jesus demonstrou que o mundo está condenado, conforme se lê: "Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não crê no nome do unigênito Filho de Deus" Jo 3: 18. Onde o mundo foi condenado? O mundo foi condenado em Adão, conforme Paulo descreve: "Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação..." Rm 5: 18. Por causa da ofensa de Adão, Deus estabeleceu o seu juízo e todos os homens tornaram-se condenados diante de Deus. Esta condenação deu-se lá no Éden, e toda a humanidade esta debaixo desta condenação (passado). A condenação em Adão comprometeu a natureza humana: o homem deixou de ser participante da natureza divina , que é vida, e passou a condição de morto, que é a separação da vida que há e é proveniente de Deus. Agora, se o mundo está condenado, porque o mundo é condenável diante de Deus? De qual julgamento o apóstolo faz referência? O que será julgado? Os versículos dezenove e vinte do capítulo três demonstra que o mundo é condenável (futuro) diante de Deus, visto que ninguém será justificado diante dele pelas obras da lei. Ou seja, quando se fala de obras o mundo é condenável, porém todos já estão condenados em Adão "...toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Pois isso ninguém será justificado diante dele pelas obras da lei" Rm 3: 19- 20. Observe que o apóstolo Paulo desde o versículo dezoito do capítulo um, aponta as obras reprováveis dos homens que detém a verdade em injustiça, demonstrando que Deus recompensará a cada ser humano segundo as suas obras Rm 2: 6, e neste juízo não haverá acepção de pessoas Rm 2: 11. Paulo aponta um juízo futuro, demonstrando que os gentios serão julgados, mesmo não tendo recebido um código de lei e perecerão, e os judeus, por terem um código, pela lei serão julgados, e como pecaram, também perecerão Rm 2: 12. Este julgamento que será estabelecido quanto às obras, também trará ao conhecimento de todos os homens o juízo estabelecido em Adão, conhecerão que estão condenados diante de Deus "...entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus" Rm 2: 5. O julgamento, quanto às obras, será realizado no tribunal do Trono Branco, conforme lemos em Apocalipse: "Os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. O mar entregou os mortos que nele havia, e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia, e foram julgados cada um segundo as suas obras" Ap 20: 12- 13. Quando do Tribunal do Grande Trono Branco, os homens conhecerão que estão condenados em Adão, ou seja, será manifesto a eles o juízo de Deus, e quanto ao julgamento das obras, receberão o que entesouraram para si: ira e indignação Rm 2: 5 e 8. Os salvos em Cristo também serão julgados quanto às obras no tribunal de Cristo, onde receberemos o que houvermos feito por meio do corpo... II Co 5: 10. Por isso o apóstolo Paulo fala que cada um será recompensado segundo as suas obras, tantos salvos, quanto perdidos Rm 2: 6. Jesus disse que o mundo está condenado, e jamais podemos contrariar a sua afirmação conforme McNair o fez, ao dizer: " ..mas não condenado". O mundo está condenado, e ainda é condenável por causa de suas obras más, visto que as suas obras irão a julgamento, e será aquilatado a recompensa de cada um.Ao falar como homem, Paulo faz a seguinte pergunta: "Será Deus injusto, trazendo ira sobre nós" Rm 3: 5. Esta pergunta feita pelos homens demonstra que desconhecem o juízo estabelecido em Adão, e que todos estão condenados. A pergunta também demonstra que estes esperam um julgamento da parte de Deus, e que terão uma retribuição favorável quanto as suas "boas" ações. Somente no dia da ira (manifestação do juízo de Deus) os homens conhecerão que estão condenados. Ao apresentarem as suas obras diante do tribunal, descobrirão que elas não servem para justificá-los, pois são trapos de imundícia Rm 2: 5; 3: 20.
Outro teólogo afirmou que: "Os tempos futuros de Rm 3: 20 (porque ninguém será justificado com base nas obras da lei); 3:20 (Deus que irá justificar) talvez não sejam futuros autênticos, e sim gnômicos (lógicos). O (muitos serão colocados como justos), de Rm 5: 19 naturalmente é dito do ponto de vista da virada dos tempos e, portanto, já vale a respeito do presente (cf. v. 17, 21). Por outro lado também o tempo presente nos enunciados em tempo presente de Gl 2: 16; 3: 11; 5: 4 não é um tempo presente autêntico, e sim presente atemporal do dogma, podendo, portanto, quanto ao assunto em questão, referir-se à sentença de Deus no juízo vindouro" Rudolf, Bultmann, Teologia do Novo Testamento, tradução Ilson Kayser, SP: Ed. Editora Teológica, 2004. (Foi suprimido os versos em grego).Bultmann não negou o que Cristo disse, como fez McNair, porém, ao ler Romanos 3: 20, percebe-se que ele fez uma leitura equivocada, e criou dois tempos para a justificação: presente autêntico e presente lógico. Para Bultmann, a justificação não é efetiva na vida do crente hoje, mas refere-se a uma sentença de Deus em um juízo vindouro. Percebe-se que ele ignorou o juízo estabelecido em Adão, e passou a considerar somente o julgamento vindouro, que será quanto as obras. Observe que Bultmann não tem certeza quanto ao que expõe, e expressa 'talvez, podendo', etc. Ao utilizar o verbo 'será' (futuro), o apóstolo Paulo procurou demonstrar o motivo da ineficácia das obras da lei "Por isso ninguém... (v. 20). Considerando que Paulo estava falando das obras reprováveis dos homens (judeus e gregos); considerando que todo o mundo é condenável (julgamento das obras - futuro); considerando o julgamento em Adão (juízo de Deus - passado), e que Paulo não está fazendo referência a tal juízo nestes dois versos; segue-se que ninguém SERÁ justificado por realizar o estipulado pela lei. Como o julgamento da obras será no futuro, aquele que está condenado, não será justificado quando do julgamento de suas obras (condenável) Rm 3: 19- 20. Porém, quanto ao juízo em Adão, os cristãos, por intermédio da fé em Cristo, já estão justificados (são declarados justos e livres da condenação), conforme Jesus disse: "Quem nele crê não é condenado..." Jo 3: 18. Utilizando o vocabulário criado por Bultmann, podemos assim dizer que a justificação se dá num presente autêntico "...pois todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, e são justificados gratuitamente..." Rm 3: 23 -24. A justificação não se dará em um presente atemporal, e nem mesmo refere-se ao 'juízo vindouro' (julgamento das obras).
Capítulo III 9 Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado; Paulo volta a sua argumentação ao primeiro versículo do capítulo três. Para aqueles (judeus) que julgavam serem melhores que os gentios na questões relativos à salvação, Paulo faz a mesma pergunta do verso três: "pois quê?". Somos mais excelentes que os gentios que adquirimos uma vantagem na conquista da salvação? De maneira alguma os gentios foram protelados quanto à graça de Deus! Paulo enfatiza já ter demonstrado esta verdade "...pois já demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado", compare com Rm 2: 12. 10 Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Caso houvesse dúvidas quanto às declarações do apóstolo, ele invoca a autoridade das Escrituras. Se as Escrituras dizem que 'não há um justo, nem um sequer', é porque não há exceção entre os homens, até mesmo por causa de nacionalidade. Não há um justo, e as Escrituras complementam: NEM UM SEQUER! Mas, de onde, de que parte das Escrituras Paulo faz a afirmação categórica: "Não há um justo, nem um sequer"? "Já pereceu da terra o homem piedoso, e não há entre os homens um que seja justo; todos armam ciladas para derramar sangue; cada um caça a seu irmão com a rede..." (Miquéias 7: 2);"E não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não se achará justo nenhum vivente" (Salmos 143: 2).A união das proposições presente em Miquéias e nos Salmos leva a conclusão de que não há 'entre os homens um que seja justo', pois diante de Deus 'não se achará justo nenhum'. 11 Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. 12 Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. Leia o Salmo quatorze e o cinqüenta e três antes de prosseguir na análise da carta aos Romanos. Todas as citações feitas por Paulo estão diretamente vinculadas à idéia: 'Não há um justo, nem um sequer'. O versículo dez é uma conclusão de Paulo, que resume a idéia base que contém as Escrituras, diferente dos versículos que se seguem, que são citações 'ipsis literis' das Escrituras. As Escrituras é categórica: apesar de inúmeras religiões, não há quem busque a Deus. Dentre os homens não há quem entenda como buscar a Deus! Isto porque, todos se extraviaram (se perderam), e se fizeram inúteis. Para entendermos este versículo, devemos nos lembrar que o único evento da história da humanidade que a bíblia relata, na qual alguém se perdeu, foi lá em Adão. Através da queda de Adão, todos os homens, a uma só se fizeram inúteis. Desde a queda não há entre os filhos dos homens quem faça o bem, sem qualquer exceção, o que demonstra que os judeus também se fizeram inúteis diante de Deus. Não podemos confundir 'fazer o bem' e fazer 'boas ações'. Esta condição é possível a todos os homens e depende da vontade humana, enquanto aquela somente é possível quando se está em Deus, e está vinculada à natureza do homem. Um comentário que consta da Bíblia Vida Nova aos versículos 10 a 18, na nota de roda pé, diz que: "É uma prova da universalidade do pecado. 1) O pecado no caráter humano (vv 10- 12. 2) O pecado na conduta humana (vv 13- 17): a) em palavra (vv 13, 14); b) em ação (vv 15- 17). A Fonte do Pecado (v 18)". A prova da universalidade do pecado não esta no caráter e na na conduta dos homens. Tal prova encontra-se na morte "Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram" Rm 5: 12. A fonte do pecado não está descrito no versículo dezoito, antes a origem do pecado é o diabo, e o pecado foi introduzido no mundo dos homens quando da queda em Adão. O caráter e a conduta (palavra e ação) perniciosa do homem no pecado apenas decorre do fato de terem 'conhecido a Deus', e contudo, não se 'importaram de ter conhecimento d'Ele', e foram entregues ao sentimento pervertido, as paixões infames, e a concupiscência de seus corações Rm 1: 21- 32. 13 A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; 14 Cuja boca está cheia de maldição e amargura. Leia o salmo cinco e o salmo cento e quarenta antes de prosseguir no estudo. O apóstolo mescla várias citações das Escrituras, observe:
O versículo quatorze é igual ao versículo dez, constitui-se em uma conclusão de Paulo com base nas Escrituras, e não é uma citação 'ipsis literis' como o versículos treze "Cuja boca está cheia de maldição e amargura". Por que a garganta dos homens é um sepulcro aberto? Porque, quando falam, expõe a podridão do pecado que compromete os seus corações. É por isso que precisam da circuncisão de Cristo, onde o coração enganoso é substituído por um novo coração. Paulo não está tratando de questões morais ou comportamentais, como a mentira e o engano. Estes versículos não se referem aos comportamentos descritos em Romanos 1, versos 29 a 31. Estes versículos fazem referencia à natureza perniciosa do homem separado de Deus. 15 Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. 16 Em seus caminhos há destruição e miséria; 17 E não conheceram o caminho da paz. 18 Não há temor de Deus diante de seus olhos. Leia Isaias cinqüenta e nove, antes de prosseguir no estudo. Isaias não estava a protestar aqui os crimes de sangue, embora eles são reprováveis diante de Deus. O texto de Isaias fala da natureza decaída do homem e o que ela pode produzir. Só é possível entender na plenitude o texto de Isaias quando se está de posse da compreensão da figura da árvore: "Ou fazei a árvore boa e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má o seus fruto mau, pois pelo fruto se conhece a árvore" Mt 12: 33. Leia a introdução à página cinco deste comentário. Como todos os homens estão debaixo do pecado (v. 9), ao citar Isaias, Paulo demonstra que todos os homens estão em igual condição quando não estão em Cristo: possuem pés ligeiros para derramar sangue inocente; os caminhos de todos levam a destruição e miséria. Como os homens percorrem o caminho da destruição, eles não conhecem caminho da paz, ou seja, o caminho que estabelece a reconciliação entre Deus e os homens, que é a graça de Deus por intermédio de Cristo. O homem segue o que há diante dos seus olhos, por isso não seguem o princípio da sabedoria que é Cristo (v. 18).
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Claudio Crispim
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