A Carta de Paulo aos
Romanos
  

 

Pág. 18

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Introdução

 

Jesus Cristo Crucificado

Paulo foi instruído (versado) na arte do bem falar, porém, as suas mensagens não estavam apoiadas e nem consistiam em conhecimento humano (retórica). O tema das suas mensagens era e é a cruz de Cristo "E EU, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado" I Co 2: 1- 2.

Demonstramos anteriormente que (pág. 17), através da arte do bem falar, Paulo trabalhava a concepção dos ouvintes através da persuasão, porém, em momento algum ele esteve apoiado em elementos provenientes da sabedoria humana (retórica) "A minha palavra, e a minha pregação, não consistiam em palavras persuasivas de sabedoria humana..." I Co 2: 4.

Ao expor o evangelho de Cristo, Paulo não estava confiado na Retórica (sublimidade de palavras ou palavras persuasivas de sabedoria humana), antes estava cônscio de que a mensagem do evangelho é poder de Deus I Co 2: 5; Rm 1: 16.

Paulo demonstrava efusivamente que a mensagem do evangelho é Espírito e poder (vida), para que os cristãos não depositassem confiança em meras palavras de conhecimento humano "O Espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são Espírito e vida" (João 6 : 63) compare: "A minha palavra, e a minha pregação, não consistiam em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder" I Co 2: 5.

Observe a relação entre 'poder' e 'vida': a vida eterna decorre do poder que emana de Deus por meio da fé em Cristo, o Verbo de Deus, que é a vida de Deus concedida graciosamente aos homens Jo 1: 4.

Jesus, ao falar de si mesmo, apresentou-se como a vida de Deus concedida aos homens Jo 14: 6, e Paulo ao testificar d'Ele, apresenta-O como 'poder de Deus', visto que, somente através do poder de Deus (evangelho) os homens alcançam a vida eterna.

Observe a primeira carta aos Coríntios, onde é possível inferir que as divisões entre os cristãos em vários partidos eram provenientes do entendimento de alguns que estabeleciam aqueles que detinham maior conhecimento humano em uma posição de preeminência sobre os demais I Co 1: 13.

O que percebemos através dos textos bíblicos é que Paulo não promovia estas desavenças. Paulo procurava demonstrar que todos os cristãos foram agraciados e enriquecidos em Cristo, em toda palavra e conhecimento, de modo que, nenhum dom faltava aos cristãos I Co 1: 5. Se todos foram de igual modo enriquecido em conhecimento e sabedoria, porque estavam se gloriando nos homens se tudo pertencia a eles? I Co 3: 21.

Se todos os cristãos foram enriquecidos em Cristo em tudo, para quê focar elementos provenientes do conhecimento humano "...os quais são vãos" I Co 3: 20, se a maior riqueza está na cruz de Cristo?

Paulo demonstra que nada propôs saber aos cristãos, a não ser a Cristo, e Este crucificado "Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado" I Co 2: 2, ou seja, o apóstolo não apresentou aos cristãos elementos de sabedoria humana, visto que, tal sabedoria é vã e não vem do alto, conforme também atesta o apóstolo Tiago Tg 3: 14- 15.

As dissensões nas igrejas eram provenientes daqueles que estavam equivocados em sua carnal compreensão. Tinham a si mesmos por sábios, mas esqueciam que a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus I Co 3: 18- 19.

Além daqueles que consideravam a si mesmos por sábios segundo a sabedoria deste mundo, havia outros que se gloriavam naqueles que se diziam sábios, o que potencializava as contendas entre os cristãos "...portanto, ninguém se glorie nos homens!" I Co 3: 21.

Através do exposto por Paulo aos cristãos de Coríntios, verifica-se que a mensagem do evangelho não se mescla à sabedoria humana. Enquanto esta é vã, aquela promove a vida eterna.

Quando Paulo escreveu que a sabedoria deste mundo é vã, ele não estava descartando de todo o conhecimento humano. É salutar que os cristãos sejam instruídos no conhecimento secular, porém, é preciso compreender que o homem jamais se achegará a Deus por meio deste conhecimento.

Enquanto na condição de 'peregrinos' nesta vida, o cristão precisa instrui-se para melhor relacionar-se com os concidadãos deste mundo, mas deve estar ciente de que a instrução deste mundo não o torna apto a compreender as coisas do reino de Deus.

Alguém pode perguntar: por quê? A bíblia apresenta vários motivos:

  • Ter um diploma ou ser versado em ciências humanas não habilita homem algum a compreender a mensagem do evangelho "Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente" (I Coríntios 2: 14);
  • A mensagem do evangelho é loucura para os sábios deste mundo "Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem..." I Co1: 18;
  • A sabedoria deste mundo não promove o conhecimento de Deus "Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria..." I Co 1: 21;
  • O evangelho apresenta Deus se revelando aos homens por intermédio do seu Espírito, mas nenhum dos 'príncipes' deste mundo conheceu a Cristo, embora fossem sábios e entendidos "A qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu (...) Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito..." I Co 2: 8- 10. 

O que observamos em Paulo é que, apesar de ele ter sido instruído nas questões seculares, ele não usou desta sabedoria para se impor sobre os demais cristãos. Porém, não podemos negar que, ao expor o evangelho em suas cartas, Paulo utiliza elementos da retórica para melhor expor a verdade do evangelho.

Mas, quando comparamos as cartas de Paulo e Pedro, verificamos que, com relação à mensagem apregoada, as cartas de Pedro não ficam aquém do exposto pelas cartas Paulinas.

O problema quanto à sabedoria deste mundo surge quando alguém se arroga na posição de sábio e mestre, porém, firma-se na sabedoria deste mundo, e não na sabedoria que é do alto, proveniente da revelação de Deus por intermédio do evangelho I Co 3: 18- 20.

O homem movido pelo conhecimento deste mundo se vangloria em suas conquistas pessoais e apresentam os seus títulos como troféus. Acaba ensoberbecendo-se contra o seu  irmão, e esquece que, as conquistas pessoais deste mundo não tornam ninguém diferente perante Deus "Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?" (I Coríntios 4: 7).

Um exemplo claro de como o conhecimento humano interfere na compreensão da palavra do evangelho encontramos na doutrina da justificação.

Muitos estudiosos ao examinar a bíblia compreendem que a justiça divina é semelhante a apresentada nos tribunais humanos, e estabelecem esta relação pura e simplesmente por causa da palavra 'justificação'.

Scofield e Bancroft comungam da mesma opinião quando fazem referência à justificação: "A justificação é o ato judicial de Deus, mediante o qual aquele que deposita sua confiança em Cristo é declarado justo a Seus olhos..." Teologia Elementar, Bancroft, Emery H., Editora EBR, 3º Ed., pág. 255 (grifo nosso), e nota explicativa do rodapé da Bíblia de Scofield com Referências à Rm 3: 28.

Na mesma página, Bancroft dá uma definição 'bíblica' para a palavra justificação: "A palavra 'justificação', tanto na terminologia religiosa como na linguagem comum, é um termo ligado à lei (...) É termo técnico e forense...". Destas colocações surge a pergunta: Onde está definido que a palavra justificação é termo técnico e forense? O que se percebe, é que homens versados em ciências jurídicas passaram a adotar o termo 'justificação' como sendo um termo jurídico por entenderem que a justiça divina assemelhasse a justiça humana, ou seja, que Deus também trabalha com 'ato judicial'.

Ledo engano! Isto quando não apresenta contradições em suas definições. Se considerarmos as notas de Scofield, o que é justificação? É um ato judicial ou um ato de reconhecimento divino?

Se considerarmos a bíblia, verificaremos que os dois conceitos não condizem com a verdade. A bíblia não trás uma definição, porém, ela apresenta elementos que apontam para a seguinte definição: Justificação é um ato criativo de Deus!

Por que um ato criativo? Por que envolve o poder de Deus. O homem só é justificado (tornar justo, declarar justo, declarar reto ou livre de culpa e merecimento de castigo) quando crê no evangelho e recebe poder para ser feito (criado) novamente (regeneração) um novo homem em verdadeira justiça e santidade Jo 1: 12; Ef 4: 24.

A necessidade da justificação do homem não é por causa de seus atos, antes por causa da natureza herdada em Adão. Por isso a justificação é de vida, através da ressurreição com Cristo, onde o poder manifesto em Cristo, também se manifesta sobre os que crêem "Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida" (Romanos 5: 18); Ef 1: 19- 20.

Desta maneira, verifica-se que o conhecimento humano não alcança a magnitude da revelação de Deus por meio do evangelho. A sabedoria de Deus não surpreende somente os homens uma vez que a multiforme sabedoria de Deus é revelada aos principados e potestades por intermédio da igreja.

Enquanto o mundo procura sabedoria, o cristão deve fixar-se na mensagem da cruz de Cristo, que é escândalo para os sábios deste mundo, porém, a sabedoria de Deus confunde a sabedoria dos sábios deste mundo, pois o que é anunciado por meio do evangelho constitui-se poder de Deus.

    

 

Capítulo VI (vs. 15- 23)

15 Pois que? Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo nenhum.

A argumentação apresentada no verso 2 é complementada através deste verso e apresenta a mesma colocação de João e uma de suas cartas: "Qualquer que permanece nele não peca (...) Qualquer que é nascido de Deus não comente pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus" I Jo 3: 6 - 9.

Sem esquecer que os argumentos deste capítulo fundamenta-se no capítulo 5, do verso 12 ao 21, João apresenta uma figura que ilustra a condição daquele que á nascido de Deus, ou seja, é uma planta plantada por Deus "Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada" (Mateus 15: 13).

João apresenta o motivo pelo qual o homem nascido de Deus não peca: porque a semente de Deus permanece nele, ou seja, o que determina o tipo de uma planta é a semente.

A bíblia apresenta dois tipos de sementes: a corruptível e a incorruptível. Está é a palavra de Deus e aquela refere-se a semente corruptível de Adão, por quem todos os homens pecaram e foram destituídos da glória de Deus por causa da semente de Adão.

Sabemos que uma planta não pode produzir dois tipos de frutos, e nesta ilustração, verifica-se que a planta plantada pelo Pai só pode produzir segundo a semente planta. É um contra senso considerar que a planta que o Pai plantou possa produzir dois tipos de frutos: o bem e o mau.

Segundo o que Paulo apresentou temos:

  • Os mortos para o pecado não podem viver para o pecado Rm 6: 2;
  • Ao ser plantado na semelhança da morte de Cristo, o homem é semelhante a Cristo na ressurreição Rm 6: 5. Uma vez que os cristãos já ressuscitaram com Cristo Rm 6: 8; Cl 3: 1, segue-se que, qual Ele é, os cristãos o são neste mundo "Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo" (I João 4: 17);
  • A única referência às questões comportamentais no capítulo 6 refere-se a "andar em novidade de vida" Rm 6: 4, visto que 'viver em Espírito' diz da nova vida proveniente de Deus;
  • Uma vez que os cristãos não estão debaixo da lei, mas da graça, segue-se que o pecado perdeu o seu domínio Rm 6: 14. Como um servo só pode servir a um senhor, conclui-se que é impossível aos que tem a Cristo como Senhor em suas vidas produzir para Deus e para o pecado.

Neste versículo (v. 15) Paulo retoma a abordagem do verso 2, e demonstra que não há como o cristão pecar (De modo nenhum). Paulo demonstra que este saber era comum aos cristãos, visto que eles sabiam que haviam morrido com Cristo (v. 6). Também sabiam que Cristo havia ressuscitado dentre os mortos (v. 9). Mas, no que implica a morte e a ressurreição de Cristo?

Uma vez que o velho homem foi crucificado com Cristo (v. 6), segue-se que, com a 'morte' do velho homem, o cristão é declarado justo (v. 7), conforme demonstra o verso 5: "Porque, uma vez que temos sido plantados juntamente com Ele na semelhança da Sua morte..." assim é o cristão, justo e santo 'na semelhança da Sua ressurreição' I Jo 4: 17.

Uma vez que os cristãos já morreram com Cristo e a ressurreição é na semelhança da ressurreição de Cristo, segue-se que aqueles que morrem juntamente com Cristo, de uma vez por todas morrem para o pecado, já que tanto Cristo como os cristãos passaram a viver para Deus por intermédio da ressurreição. Desta forma os cristãos estão assentados nas regiões celestiais em Cristo, por causa da nova condição do homem espiritual gerado em Cristo (v. 10).

Muitos entendem que neste versículo (v. 15) Paulo está perguntado aos seus leitores se é pertinente aos cristãos permanecerem em uma vida de devassidão simplesmente por não terem o freio da lei, uma vez que agora estão na graça.

Mas, não é esta a colocação do apóstolo. É preciso considerar a primeira pergunta: "Pois que?", que introduz os elementos necessário à compreensão do leitor, quando ler a conclusão: "De modo nenhum".

Paulo através da pergunta: "Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça?" procurou introduzir uma nova figura que ilustrasse e trouxesse conhecimento aos Cristãos: "Não sabeis vós que..." (v. 16), contrastando com o conhecimento que era comum: "Sabendo isto..." (v. 6 e 9).

Após apresentar Adão e Cristo, o pecado e a graça no capítulo anterior Rm 5: 12- 21, neste capítulo, a primeira referência à lei encontra-se no verso15. Através deste versículo Paulo demonstra que a ausência da lei não determina a condição de submissão ao pecado, e sim o fato de o homem ter herdado de Adão tal condição. Antes mesmo de ser instituída a lei, já estava o pecado no mundo Rm 5: 13, o que demonstra que a abundante graça de Deus promove a justificação de vida Rm 5: 18, em contraste à condenação herdada de Adão.

Na justificação, Deus declara o homem livre de pecado e culpa, ou seja, o homem é justo perante Ele. Para receber tal declaração de Deus é preciso que o homem não esteja na condição de sujeição ao pecado, e, para isso, não pode pecar, uma vez que somente os escravos do pecado pecam "Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado" (João 8: 34).

Somente cometem pecado os servos do pecado, ou seja, àqueles nascido da semente corruptível de Adão. Isto porque, segundo o apóstolo João, os que tem em si a semente de Deus, nascidos da vontade de Deus Jo 1: 12, estes não pecam I Jo 3: 6- 9. 

A frase 'De modo nenhum (...) Pecaremos..." não é uma determinação divina que o homem deva cumprir como uma lei, antes diz da impossibilidade da nova natureza criada na regeneração através da semente incorruptível pecar.

Por não estarmos debaixo da lei (tutelados) pecaremos? De modo nenhum! Pois que os que morreram e ressurgiram com Cristo, de uma vez morreram para o pecado.

 

16 Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?

A frase 'De nenhum modo' pede uma explicação da parte do apóstolo sobre a impossibilidade de o homem pecar quando alcançado pela graça. Tal explicação advém de elementos pertinente à figura do escavo, que é introduzida através da argumentação seguinte "Não sabeis vós...?".

Não sabeis vós que é impossível servir a dois senhores? Não sabeis vós que a árvore só produz fruto segundo a sua espécie? Ou não sabeis que um fonte não pode jorrar água doce e salgada? Tg 3: 12. Todas estas figuras complementam-se e apontam para os elementos apresentados por Cristo acerca das duas portas e dos dois caminhos.

Como o homem apresenta-se como servo para obedecer ao seu senhor (...a quem vos apresentardes por servos...)? Ou seja, como o homem passa a condição de servo daquele a quem ele obedece (pecado ou obediência)?

A bíblia é clara sobre este aspecto. Todos os homens quando vem ao mundo através do nascimento natural, segundo Adão, apresentam-se ao pecado para o servir e obedecer. Ou seja, o nascimento natural é a porta larga que dá acesso a um caminho espaçoso que conduz a perdição "Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela" (Mateus 7: 13).

O nascimento segundo a semente corruptível de Adão (natural) é a maneira como o homem se apresenta como servo ao pecado. É o nascimento segundo a vontade da carne, segundo a vontade do varão e do sangue que coloca o homem em sujeição e em obediência ao pecado Jo 1: 13.

Como o homem se apresenta a Deus como servo? Através da obediência a palavra da verdade (evangelho) "...obedecestes de coração a forma de doutrina a que fostes entregues" (v. 17).

 

17 Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues.

Paulo agradece a Deus por de modo nenhum ser possível àqueles que morreram e ressurgiram com Cristo pecarem. Graças a Deus, pois outrora os cristãos foram escravos do pecado, mas, agora, em Cristo, por terem obedecido de coração à forma de doutrina a que foram entregue, foram feitos servos da justiça.

 

18 E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça.

Esta é a condição daqueles que obedeceram a verdade do evangelho: libertos do pecado e servos da justiça.

É Deus que, por intermédio de Cristo, faz (feitos= criados) os que crêem servos da justiça Jo 1: 12.

 

19 Falo como homem, pela fraqueza da vossa carne; pois que, assim como apresentastes os vossos membros para servirem à imundícia, e à maldade para maldade, assim apresentai agora os vossos membros para servirem à justiça para santificação.

(Falo como homem) - Observe o comentário ao capítulo 3, verso 5. Por causa da fraqueza da carne ou para evidenciar a condição da carne é que Paulo ilustra o tema como se os cristãos judeus ainda estivessem na carne.

Observe que ao falar aos Judeus Paulo se inclui na explicação "Qual é a vantagem do Judeus? (...) E, se a nossa injustiça for causa da justiça de Deus? ... (Falo como homem) Rm 3: 1- 5.

Da mesma forma, ao escrever aos cristãos da Galácia, Paulo assim diz: "Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito. Irmãos, como homem falo; se a aliança de um homem for confirmada, ninguém a anula nem a acrescenta" Gl 3: 14- 15.

'Nós' quem? Paulo fala acerca da bênção de Abraão aos gentios e da promessa do Espírito aos judeus, e que, tanto Paulo e os cristãos judeus receberam (nós).

Por ter feito referência a sua condição como judeu, ou seja, quando Paulo ainda estava na carne, é que ele introduz a ressalva: falo como homem. Isto demonstra que Paulo jamais quis se valer da sua condição de judeu para anunciar a verdade do evangelho.

Neste versículo Paulo registrou que falava como homem porque no verso 1 do capítulo 4 ele fez referência a seu irmãos na carne "Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne" Rm 4: 1, sendo que, as escrituras foram deixadas aos descendentes de Abraão segundo a carne "Ora, não só por causa dele está escrito, que lhe fosse tomado em conta, mas também por nós, a quem será tomado em conta..." Rm 4: 23- 24.

Em seguida Paulo demonstra que ser descendente de Abraão é ser fraco, visto que, ser descendente de Abraão não é ser filho de Abraão "Porque Cristo, estando nós ainda fracos..." Rm 5: 6. Ser filho de Abraão só é possível por meio da fé.

Desta maneira, ao chegar no capítulo 6, verso 19, Paulo reitera que, falou como homem, por causa da fraqueza da carne dos judeus, que não aproxima homem algum de Deus "Falo como homem, pela fraqueza da vossa carne..." (v. 19).

Compare: 'nós ainda fracos' diz de Paulo e dos judeus quando ainda estavam sem Cristo, e 'pela fraqueza da vossa carne' diz da condição dos judeus que confiavam da carne (descendência de Abraão) para a salvação, condição que Paulo não mais estava.

Após evidenciar a nova condição daqueles que estão em Cristo (v. 18), Paulo procurou tratar do comportamento dos cristãos judeus, visto que, por ter sido evidenciado que eles não estavam mais tutelados pela lei (v. 14), consideravam Paulo um libertino "Façamos males para que venham bens?" Rm 3: 8.

Ora (pois que), se os cristãos judeus haviam apresentado os seus corpos para servirem à imundície e a maldade através da sujeição à lei, embora as suas ações fossem alvo de louvor por parte dos homens por causa da moral e ética que seguiam, por que não continuar a fazer boas ações e receber de Deus o louvor?

Paulo estabelece um comparativo entre o antes e o depois de aceitarem a verdade do evangelho: "...assim como apresentastes os vossos membros (...) assim apresentai agora os vossos membros ..." Rm 6: 19.

Compare:

Na fraqueza da carne, ou seja, na submissão à lei, por acreditar que eram filhos de Abraão (de Deus) por serem descendentes de Abraão, permaneciam filhos da ira e da desobediência, permaneciam carnais.

No poder do Espírito, ou seja, na submissão à graça por meio da fé em Cristo, os judeus cristãos tornaram-se filhos de Abraão, livrando-se da fraqueza da carne e foram criados homens  espirituais Jo 1: 12 e 3: 6.

Por quererem servir a Deus por intermédio da lei, os judeus possuíam uma conduta ilibada se comparado aos outros povos de sua época, porém, esta devoção à lei somente era um serviço à maldade e a imundície. Assim como possuíam uma conduta ilibada diante dos homens por pensarem que era possível servir a Deus por intermédio da lei, agora, libertos da lei e servos da justiça, os cristãos judeus deveriam da mesma forma comportarem-se de modo ilibado e receberiam o louvor de Deus.
Por serem escravos do pecado, tudo o que cumpriam da lei era um serviço à imundície e a maldade, pois o senhor deles continuava sendo a maldade, ou o pecado. Agora, sendo servos da justiça pela fé em Cristo, tudo o que os cristãos realizassem estava sendo realizado em Deus, que preparou as boas obras para que os de novo nascido andassem nelas Ef 2: 10.
Ou seja, se eles não se livrassem da condenação de Adão que os fez filhos da ira e da desobediência, permaneceriam mortos em delitos e pecados, embora as suas ações fossem louvadas pelos homens. Mas, diante dos homens, tais obras não passavam de trapo de imundície, visto que tentava cobrir o velho homem decorrente da natureza de sujeição ao pecado herdada de Adão. Ou seja, agora, livres da condenação de Adão e feitos filhos de Deus, deveriam comporta-se de modo digno da nova condição em Cristo.

Embora o que importa é a nova natureza adquirida por meio da fé que opera pelo amor Gl 5: 6, não deveriam entregar-se a devassidão, por não estarem debaixo da lei.

 

Como os cristãos apresentaram os seus membros para servir à justiça? Por intermédio da fé na mensagem do evangelho, que é poder de Deus, que faz dos homens que crêem filhos de Deus.

Após ter sido liberto do pecado, os cristãos foram feitos servos de Deus, e tudo que produzem pertence àquele que os santificou "... para santificação" (v. 19). Não é a prática do que é puro e bom que promove a santificação dos cristãos como alguns pensam, antes, os cristãos foram santificados pela fé em Cristo At 26: 18.

Quando a bíblia diz que é preciso servir à justiça "...para santificação", ocorre o que chamamos em português de figuras de palavras, e neste caso em específico temos a 'antonomásia' ou a 'perífrase', que consiste em uma transposição de significado de uma palavra que usualmente significa uma coisa para ser usada com outro significado.

Neste versículo temos a palavra santificação, que é a obra de Cristo no homens que crêem, sendo usada em lugar do nome do autor da santificação, dada a relação de semelhança ou possibilidade de associação entre eles. O cristãos serve à justiça 'para Cristo', aquele que santifica, ou seja, o autor da santificação.

metonímia: consiste numa transposição de significado, ou seja, uma palavra que usualmente significa uma coisa passa a ser usada com outro significado. A metonímia explora a relação lógica entre os termos. Ex.:
Não tinha teto em que se abrigasse (teto em lugar de casa).

 

20 Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça.

Este versículo expressa o principio: "Nenhum servo pode servir dois senhores" (Lucas 16: 13). A sujeição de um servo a um senhor o torna livre de qualquer outro senhor.

Servo do pecado, livre da justiça. Servo da justiça, livre do pecado. Como servos da justiça os cristãos devem servi-la segundo aquele que santifica. É o mesmo que: "Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito" (Gálatas 5: 25), ou seja, se servimos a justiça por vivermos em Espírito, devemos ser puros e bondosos para andarmos em Espírito, andarmos segundo a vontade de Deus.

 

21 E que fruto tínheis então das coisas de que agora vos envergonhais? Porque o fim delas é a morte.

Como entender este versículo? Qual era o fruto (resultado) que os judeus tinham, e que agora, por estarem em Cristo, era causa de vergonha? Que 'coisas' eram estas que o fim delas é a morte?

Este versículo é melhor traduzido desta maneira: "Naquele tempo que resultado colhestes? Somente as cousas de que agora vos envergonhais; por que o fim delas é a morte" Ed. Revista e Atualizada no Brasil, SBB.

Que fruto os judeus colheram por terem se escudado no sobre nome judeu, repousado na lei e se gloriado em 'saber' a vontade de Deus? Nenhum, visto que, a verdadeira circuncisão é a do coração, no Espírito, não na letra (lei) Rm 2: 17 e 29.

O que eles ensinavam podia livrar-lhes da condenação em Adão? Não! Não bastava professar serem filhos de Deus por serem descendentes de Abraão Mt 3: 9, antes precisavam produzir frutos digno de arrependimento, ou seja, professar o nome de Cristo que estava trazendo o reino dos céus aos homens.

Era motivo de vergonha aos judeus terem assumido a posição de mestres, quando na verdade estavam igualmente perdidos como os demais homens, pois todos pecaram e destituídos estavam da glória de Deus Rm 2: 19- 23. Os judeus não estavam em uma posição privilegiada se comparada a dos gentios Rm 3: 9, porém, os seus discursos eram de falsidade e promovia a morte.

 

22 Mas agora, libertados do pecado, e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para santificação, e por fim a vida eterna.

Paulo demonstra que, por estarem em Cristo, agora estavam libertos do pecado e em sujeição à justiça.

Os cristãos judeus por serem servos da justiça deveriam professar (fruto) a verdade do evangelho, e não mesclar a lei ao evangelho.

Observe que 'fruto' neste versículo não se refere a comportamento, visto que comportamento é 'semear', conforme vemos em Gálatas 6: 7- 8.

De igual modo, o Fruto do Espírito não diz de comportamento humano, antes diz daquilo que o Espírito produz naqueles que vivem e andam em Espírito, por terem crucificado a carne com as suas paixões e concupiscência Gl 5: 22- 24.

O fruto que os cristãos judeus precisavam produzir era o fruto dos lábios que professa àquele que os santificou, ou seja, a Cristo "Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome" (Hebreus 13: 15). Compare: Pv 18: 20; Is 57: 19; e Mt 7: 20.

"Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre" Pv 18: 20, ou seja, é o mesmo que: "Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca. (Mateus 12: 34), visto que, segundo aquilo que professa um homem podemos saber se ele é uma árvore boa ou má Mt 7: 18. Se ele é ou não nascido da semente incorruptível, que é a palavra de Deus.

Segue-se que 'a morte e a vida está no poder da língua', visto que aquele que professar a Cristo receberá poder para ser feito filho de Deus Jo 1: 12, e aquele que não professar, já está condenado à morte eterna Pv 18: 21; Jo 3: 18.

Desta forma temos: tenha o vosso fruto, ou seja, professe a Cristo, e por fim, obtenha a vida eterna.

 

23 Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor.

Segue o motivo pelo qual é preciso ao homem professar a Cristo como Senhor: o salário do pecado é a morte, ou seja, o escravo do pecado só terá a morte como possessão.

Em contra partida, o dom gratuito de Deus para aqueles que tem o seu 'fruto' para a santificação é a vida eterna.

 

 

   

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Claudio Crispim

 

 

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