(I Pedro 1: 1- 2)
Continuação
Por tanto, para interpretar I Pedro
1: 2, é necessário considerar que:
- Nenhum ponto das Escrituras deve
ser considerado isoladamente do restante das escrituras
"Sabendo
primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de
particular interpretação"
(II Pedro 1: 20);
- Algumas frases
contidas nos textos são um tipo de aposto explicativo;
- É necessário
observar a forma do discurso do
interlocutor, que neste caso específico é o apóstolo Pedro;
- Não deixar ser
influenciado por tendências doutrinárias, que são muitas;
- Comparar o
versículo com o texto de outros escritores da bíblia;
- Por ser um
versículo complexo deve ser analisado segundo a idéia geral da
bíblia.
Segundo o que Paulo
demonstra, os cristãos foram eleitos em Cristo
"Pois nos elegeu
nele...' (Efésios
1: 4), e Pedro do mesmo modo demonstra que os eleitos alcançaram
está condição
'... em santificação do Espírito...'
(I Pedro 1: 2).
Perceba que tanto
Pedro quanto Paulo utiliza o dativo de forma especial (en
Cristo = em
Cristo) ao escreverem acerca da eleição. É um uso específico do
dativo preposicionado, característica própria à sintaxe cristã ao
utilizarem o grego.
Ora, Paulo disse que
os cristãos foram eleitos em Cristo, portanto, não podemos
interpretar que a eleição é segundo a presciência, e sim, em
santificação do Espírito.
Como? Ora, as
palavras de Cristo são Espírito e vida
"O espírito é o
que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos
disse são espírito e vida" (João 6: 63).
É através da Palavra que
Cristo santificou a sua igreja
"Para a santificar, purificando-a com a
lavagem da água, pela palavra" (Efésios 5: 26).
A santificação do Espírito é pela
palavra do evangelho e a eleição se deu em Cristo, ou seja, 'em
santificação do Espírito' (santificação pela palavra), pois Cristo é
o Verbo de Deus, a palavra da vida encarnada.
Ora, dizer que os cristãos foram
eleitos 'em Cristo', ou que são eleitos 'em santificação do
Espírito' evidencia a mesma idéia: a nova criatura (os cristãos) é
eleita por estar em Cristo (II Coríntios 5: 17).
Segundo Paulo, os cristãos foram
eleitos para serem santos e irrepreensíveis, ou seja, é para
santificação que os cristãos foram eleitos em Cristo antes da
fundação do mundo. Temos aqui dois eventos distintos:
- antes dos tempos eternos,
segundo o seu propósito eterno, Deus escolheu a Cristo para ser
preeminente sobre todas as coisas;
- para que Cristo fosse
preeminente em tudo, Deus o constituiu como cabeça da igreja,
que são os santificados pela palavra, as novas criaturas, homens
nascidos segundo Deus em verdadeira justiça e santidade.
Em Cristo Deus
escolheu os cristãos para que hoje sejam santos e irrepreensíveis.
Paulo apresentou o tempo da eleição para demonstrar que os cristãos
agora estavam em Cristo na condição de eleitos de Deus (Efésios 1:
13), e Pedro apresenta a condição dos cristãos hoje (eleitos), e
como alcançaram tal condição: em santificação pelo Espírito.
Percebe-se que
através da santificação se dá a eleição dos homens, pois para a
santificação é necessário ser anunciada a palavra aos homens, estes
por sua vez creiam na pregação, e Deus opera a sua maravilhosa obra:
a regeneração. Através da regeneração ocorre a justificação e
santificação simultaneamente.
Paulo demonstra que
os cristãos foram eleitos para santificação (objetivo), e
Pedro demonstra que pela santificação do Espírito os Cristãos são
eleitos (condição). A condição de eleitos decorre da
santificação, mas quando Deus escolheu antes dos tempos eternos
aqueles que estariam em Cristo, foi para serem santos e
irreprimíveis.
Cristo demonstrou que
a santificação é proveniente da sua palavra, que é espírito e vida
para todos os que crêem. A regeneração só é operada através da
semente incorruptível, que é a palavra de Deus. Compare:
"Eleitos
segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito,
para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e
paz vos sejam multiplicadas" (I Pedro 1: 2), e
"Tendo purificado as vossas almas na
obediência a verdade..." (I Pedro 1: 22).
A 'santificação' ou 'purificação' só
ocorre através da obediência.
Mas,
o
que é obediência? Obediência é crer na mensagem do evangelho do
mesmo modo que cumprir os mandamentos de Deus é crer em Cristo (I
João 3: 23). Qual a verdade que os cristãos da Galácia não estavam
obedecendo? À verdade do evangelho
"Ó
INSENSATOS gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à
verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi
evidenciado, crucificado, entre vós?" (Gálatas 3: 1).
Como se obedece a verdade do
evangelho? Crendo, como está escrito: "Porque
a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido"
(Romanos 10: 11).
Pedro procurou
demonstra em sua saudação inicial que os cristãos são os eleitos de
Deus, pois todos são santos por estarem em Cristo (Efésios 1: 2).
Eles tornaram-se santos (separados) após serem lavados pela palavra
da verdade, a palavra do evangelho que obedeceram.
É através da
obediência ao evangelho e aspersão do sangue de Jesus que os
cristãos foram purificados, tornaram-se eleitos.
Tudo o que ocorreu
com os cristãos após ouvirem e obedecerem à palavra do evangelho
(aspersão do sangue, santificação e eleição) já era de conhecido de
Deus (presciência) antes dos tempos eternos
"Pois os que dantes
conheceu..."
(Romanos 8: 29).
Quando os apóstolos
falaram da eleição, eles tinham em mente a geração que foi escolhida
por Deus e a condição dessa geração. A geração dos eleitos ocorre em
Cristo, e a geração dos não eleitos, em Adão (I
Pedro 2: 9). A geração dos eleitos (justos) se dá em Cristo e a geração dos
não eleitos (ímpios) em Adão porque uma é a geração dos justos e
outra é a geração dos ímpios.
Todos os homens
nascidos segundo Adão não foram eleitos por Deus para serem santos.
Mas, todos os homens que crêem em Cristo, ou seja, que obedeceram a
verdade do evangelho, são de novo gerados, segundo Deus, para serem
santos (separados).
É por isso que Pedro
fala que, segundo a presciência (não somente conhecer de antemão)
de Deus Pai os leitos são conhecidos d'Ele, aqueles que obedeceram
o evangelho e foram santificados pela aspersão do sangue de Cristo.
A idéia que Pedro
procurou evidenciar é a mesma que Paulo demonstrou no verso
seguinte:
"Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus,
como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais
de novo quereis servir?" (Gálatas 4: 9).
Através da sua presciência Deus é
conhecedor de todas as coisas, ou seja, nada se exclui do seu
conhecimento. Porém, quando os cristãos eram incrédulos, eles não
eram conhecidos de Deus. O que isto quer dizer, que Deus não é
conhecedor de todas as coisas? (Gálatas 4: 8).
Não! Quando os cristãos não conheciam
a Deus, Deus também não os conhecia. Porém, agora que conheceram a
Deus, ou antes, foram conhecidos por Ele através da aspersão do
sangue de Cristo que se da através da obediência à sua palavra,
tornaram se filhos, eleitos (escolhidos) conforme o propósito
eterno, que é a preeminência de Cristo como cabeça da igreja.
Conhecer a Deus vai além de um
simples saber. Fala de união, ou seja, de tornar-se um só corpo com
Cristo, conhecendo um ao outro em amor. Quando o cristão torna-se um
só corpo com Cristo é o mesmo que Deus ter conhecido os cristãos,
tornam-se um só corpo, pois o homem passa a compartilhar da natureza
divina (II Pedro 1: 4).
A palavra presciência não é utilizada
somente para demonstra que Deus sabe de todas as coisas e eventos
através dos séculos. Ela também é utilizada para demonstra que Deus
está unido ao homem (Deuteronômio 9: 24; Amós 3: 2; Mateus 7: 23;
João 10: 14- 15).
Ora, o sangue da aspersão foi
conhecido ainda antes da fundação do mundo do mesmo modo que os
eleitos são conhecidos d'Ele através da aspersão deste mesmo sangue
(I Pedro 2: 20).
Isto não coaduna com
a idéia de que Deus determinou quem seria salvo através da
presciência. O que Pedro demonstra não é o atributo da onisciência,
antes que Deus determinou tudo o que é relativo à salvação do homem:
o cordeiro, a palavra e a fé.
Claudio Crispim