(I Pedro 1: 1- 2)
Pedro não teve o mesmo problema que o
apóstolo Paulo quanto a ter que defender o seu apostolado. Por ter
sido escolhido por Cristo para ser discípulo, e visto o Mestre ainda em carne, não teve
dificuldades no exercício do seu ministério.
Paulo demonstra em suas cartas que
Pedro possuía uma posição de destaque entre os primeiros cristãos,
tanto que foi significativo para Paulo passar quinze dias com Pedro
e ser recebido entre os discípulos pelo evangelho que anunciava aos
gentios (Gálatas 1: 18; 2: 9).
No decorrer da carta Pedro também se
apresenta como o 'Ancião' (I Pedro 5: 1), e que Silvano foi quem
escreveu (escriba) a carta, e que eles estavam na companhia de Marcos (I Pedro 5:
12- 13). A maestria na escrita da carta deve-se a Silvano, mas o
conteúdo da carta ao apóstolo Pedro.
Muitos questionam a autoria da carta
de Pedro por ele ter sido um simples pescador da Galiléia e ter
escrito uma carta tão bela em grego semelhante à literatura ática.
Estudiosos questionam a autoria da carta por ele citar a Septuaginta, por usar
o 'artigo' de modo elegante como nenhuma outra carta do Novo
Testamento e por ter um vocabulário próprio e numeroso.
Ora, Pedro mesmo demonstra que não
foi ele quem escreveu a carta, e sim Silvano. Percebe-se que Pedro
apresentou os argumentos e Silvano, na condição de hábil escriba
usou o seu conhecimento para imprimir à carta o estilo próprio as
frases da literatura ática.
Quando escreveu, Pedro estava em uma
cidade que ele nomeou de Babilônia (I Pedro 5: 13). Os destinatários
da carta estavam em cinco províncias Romanas:
Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia.
Após identificar-se, o apóstolo
aponta quem são os destinatários da sua epístola: os estrangeiros
dispersos. 'Estrangeiros dispersos' diz dos cristãos que foram
perseguidos por causa da mensagem do evangelho (Atos 8: 1; 11: 19).
Ora, é certo que os dispersos eram na maioria judeus, porém, ao
escrever, Pedro tem como foco os cristãos, sem qualquer referência a
origem carnal dos cristãos.
Pedro escreveu aos eleitos, ou seja,
aos santos e irrepreensíveis em Cristo (Efésios 1: 4). Os
arminianista utilizam-se deste verso para afirmar que a eleição é
segundo a presciência de Deus, porém, é necessária uma análise mais
rigorosa.
Uma tradução bíblica datada de 1681
diz o seguinte:

Novo testamento, Companhia das Indias Oriental,
cidade de Amsterdam, Bartholomeus Heynen e Joannes de Vooght, 1681.
Observe o verso em questão: "Elegidos
fegundo a providencia de Deus Pae..." (v. I). Ora, a
eleição é segundo a presciência ou providência?
Como já demonstramos no artigo
O Evangelho Anunciado, a eleição não é o
modo pelo qual Deus salva o homem. Deus não escolheu antes dos
tempos eternos quem seria salvo ou não, com base na sua presciência
ou na sua soberania. As concepções
calvinista e arminianistas não são bíblicas.
Para compreender a idéia que o
apóstolo Pedro procurou evidenciar, não se pode interpretar um verso
fora do contexto, ou isolá-lo do restante da bíblia.
A estrutura da primeira carta de
Pedro comparada à carta de Paulo aos Efésios é equivalente na
estrutura do texto e na idéia que procuraram demonstrar. Observe:
"Pedro, apóstolo de Jesus
Cristo, aos estrangeiros da dispersão, no Ponto, na Galácia,
na Capadócia, na Ásia e na Bitínia, eleitos segundo a
presciência de Deus Pai, na santificação
do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo:
Graça e paz vos sejam multiplicadas" (I
Pedro 1: 1- 2).
"Paulo, apóstolo de Cristo
Jesus pela vontade de Deus, aos santos
que estão em Éfeso, e fiéis em
Cristo Jesus: a vós outros graça, e paz da
parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo" (Efésios 1:
1-2).
Tanto Pedro quanto Paulo se
apresenta, identificam os destinatários, saúdam com graça e paz,
apresentam o local onde os cristãos se reuniam, porém, enquanto Pedro fala da nova
condição pertinente aos salvos, 'eleitos' (presente), Paulo faz
referência ao evento da eleição (passado).
Ora, Deus elegeu os cristãos em
Cristo (Efésios 1: 3), e os cristãos são eleitos (condição atual) por estarem em
Cristo (I Pedro 1: 2).
Para os arminianistas a eleição é
segundo a presciência de Deus, e os calvinistas apontam a soberania
de Deus. Como a maioria dos tradutores segue uma tendência
teológica, não sabemos o quanto estes posicionamentos doutrinários
influenciam os tradutores.
Porém, é possível extrair do texto
uma resposta: a eleição não é segundo a presciência e nem
segundo a providência de Deus Pai, antes é na (em, ou através) Santificação do
Espírito. Observe:
| |
segundo a presciência de Deus Pai |
|
Eleitos (condição atual) |
na santificação do Espírito |
| |
para a obediência e aspersão do sangue |
Se considerarmos que a frase 'segundo
a presciência de Deus Pai' é um aposto explicativo, veremos que não
imposta à posição que ela é inserida no texto. Ora, têm-se várias
cominações possíveis:
"... segundo a
presciência de Deus Pai, eleitos na santificação do Espírito
para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo...", ou;
"... eleitos,
segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do
Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus
Cristo...", ou;
"... eleitos na santificação do
Espírito, segundo a presciência de Deus Pai,
para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo...", ou;
"... eleitos na santificação do
Espírito para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo,
segundo a presciência de Deus Pai...".
Alguém que segue uma visão
arminianista prefere agrupar as várias frases que compõe o versículo
segundo a sua concepção: eleitos segundo a presciência. Outro, que
não prefere a concepção arminianista, mas a calvinista, preferem a
providência divina.
Porém, de acordo com o restante das
escrituras a eleição não é segundo a presciência, antes segundo
o propósito eterno de Deus. Ora, se é segundo o propósito eterno
não pode ser segundo a presciência!
Continua
Claudio Crispim