Qual foi a intenção de Paulo ao
supostamente 'injuriar' o sumo sacerdote de 'parede branqueada'?
Foi um 'destempero' de Paulo
(falta de temperança)? Temporariamente Paulo tornou-se 'carnal'?
Problema de visão? Ele reconheceu o seu erro, o que minimiza a sua
conduta? Paulo fez ressurgir temporariamente das cinzas a sua ira
temperamental?
Paulo ao supostamente 'injuriar' o sumo
sacerdote Ananias utilizou um substantivo, 'parede', e um adjetivo,
'branqueada'. O que este qualificativo unido ao substantivo quer
dizer?
Para entendermos a colocação do
apóstolo dos gentios diante do
Sinédrio (assembléia
de juízes judeus que constituía a corte e legislativo supremos de
Israel)
não podemos esquecer que
o incidente deu-se durante o
exercício de defesa de Paulo.
Paulo estava exercendo a sua defesa perante pessoas 'versadas' na
lei, e, para compreendê-lo melhor,
é preciso ler os Salmos e os profetas
(escritura).
Paulo também sabia que a
assembléia era constituída de dois partidos da religião judaica: fariseus e saduceus.
Concluímos que: Paulo conhecia a
Escritura (a lei), o Tribunal, e as pessoas que estavam assistindo o
julgamento. Por compreender e conhecer todos estes elementos, Paulo
tinha plena condição de exercer a sua própria defesa. Porém, quem devia fazer valer a lei no Sinédrio,
o sumo sacerdote Ananias, estava burlando a lei, e ninguém parecia
importar.
"Até quando maquinareis o
mal contra um homem? Sereis mortos todos vós, sereis como uma
parede encurvada, e uma sebe pouco segura" Sl 62: 3.
O que é possível verificar neste
salmo?
Nos versos 1 e 2 o salmista
expressa a sua confiança em Deus. O salmista demonstra que Deus é
descanso, salvação, rocha e DEFESA "A
MINHA alma espera somente em Deus; dele vem a minha salvação.
Só
ele é a minha rocha e a minha salvação; é a minha defesa; não
serei grandemente abalado" Sl 62: 1- 2.
O que Paulo estava fazendo perante
o Sinédrio? A sua própria defesa. Observe que este salmo salienta a
fé em Deus, que é a defesa daqueles que nele confiam.
No verso 3 o salmista questiona:
"Até quando maquinareis o mal contra um homem?". Que tipo de mal
estas pessoas descritas pelo salmista estava maquinando? Elas
estavam burlando o direito do salmista!
Como? Através da falsidade, da
mentira, do suborno, da extorsão e do roubo eles estavam sonegando o que
era de
direito do salmista. Não estavam seguindo os princípios que a
justiça dita Sl 62: 4 e 9-10.
O salmista expressa a sua
confiança em Deus em contraste com aqueles que exercem o juízo no
meio do povo: estes estavam confiados na mentira (v. 4).
Ao supostamente injuriar o sumo
sacerdote, Paulo fez referência a este salmo e a outros trechos da
escritura.
Quem perverte o direito do próximo
será julgado por Deus 'Sereis mortos todos vos...' (v. 3). Quem
perverte o direito do próximo é comparado a uma parede encurvada
'...sereis COMO uma parede encurvada...' (v. 3). Quem perverte o
direito é comparado a uma sebe que não oferece
segurança '...e uma sebe pouco segura' (v. 3).
O que relaciona este salmo com a
defesa de Paulo perante o Sinédrio?
-
A relação entre 'parede
branqueada' e 'parede encurvada';
-
O exercício de defesa de Paulo;
-
O tema do salmo: '...é Ele a minha defesa, jamais serei abalado'
(v. 2).
"Pelo que assim diz o Santo de
Israel: visto que rejeitais esta palavra, e confiais na opressão e
na perversidade, e sobre isso vos estribais, esta maldade vos será
como a brecha de um muro alto, que, formando uma barriga,
está prestes a cair, e cuja queda vem de súbito, num instante" Is
30: 12- 13.
Este texto demonstra que parede,
muro, sebe geralmente refere-se a justiça. Ou seja, a justiça, ou o
justo juízo e a
retidão deveriam ser a proteção, o lugar seguro, onde as pessoas
encontrariam descanso para as suas causas.
Porém, a prática demonstra que
aqueles que exerciam o juízo nos tribunais de Israel rejeitam os
princípios de Deus (a lei). Confiavam na opressão, na
perversidade, no suborno e pervertiam o direito.
Havia os que confiavam na opressão: estes eram
os amorais. Mas, havia também aqueles que confiavam em suas ações, e eram
reprovados por Deus, pois ambos, morais e amorais rejeitavam a palavra de Deus.
A justiça humana é comparada a uma
parede: "Apalpamos as paredes como cegos; como os que não têm
olhos, andamos apalpando" Is 59: 10. Ou seja, um muro, uma parede ou
uma 'sebe' indica os limites de uma propriedade, o que remete as
garantias decorrentes da lei.
Quando se demarca uma propriedade
com um muro, o homem esta fazendo uso da lei. O homem procura
guia-se (como cego) através da justiça humana. Quando conseguem
viver a 'altura' das leis, regras e moral humana (embora não
consiga), agarram-se a uma justiça própria, que somente consiste em
direitos e deveres decorrentes de um sistema normas.
Quando procura guiar-se através destes
sistemas de códigos e normas o homem tropeça como se estivesse nas trevas
mesmo quando há luz (meio-dia).
A escritura (lei) é a luz pela qual o
povo devia guiar-se, porém, ao trilharem os seus próprios caminhos,
ou seja, guiando-se somente na letra da lei, tropeçavam.
Confiavam na lei, porém, quando
fossem reunidos nos lugares escuros (regiões da morte), a condição
deles seria de mortos perante Deus (destituídos da vida que há em
Deus) 'Tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros
somos como mortos" Is 59: 10.
O profeta Isaias demonstra que aqueles que
estão confiados em suas maldades (e aqui entenda que não há quem faça o bem),
estão abrigando-se a beira de uma parede encurvada (com uma barriga) que está
prestes a ruir.
Estes não estão sob a proteção ou fundados na
rocha inabalável. Pensam estar seguros, mas o verdadeiro descanso é proveniente
de Deus que promove a salvação do homem que nele confia Sl 62: 1.
"Pois na lei de Moisés está
escrito: Não atarás a boca ao boi que debulha. É de bois que Deus
tem cuidado?" I Co 9: 9
Observe que ao citar a lei aos
cristãos em Corinto, Paulo o faz em defesa de um direito seu.
Paulo estava defendendo o seu
direito de apóstolo, e utiliza uma citação da lei que versava sobre
a obrigatoriedade dos juízes observarem os direitos dos transgressores da
lei.
É comum as pessoas utilizarem a
citação "não atarás a boca ao boi que debulha" como forma de motivar
as pessoas a contribuírem. Porém, o apóstolo não estava interessado
em contribuição "Mas eu de nenhuma destas
coisas usei. E não escrevi isto para que assim faça comigo. Melhor
me fora morrer, do que alguém fazer vã esta minha glória" I
Co 9: 15.
Paulo utiliza a lei para fazer uma
defesa e pleitear o seu direito "Está é a
minha defesa para com os que me condenam" I Co 9: 3. Pelo
menos para os cristãos de Corinto Paulo era apóstolo! (v. 2).
Da mesma forma, ao ser espancado
(defraudado em seu direito), Paulo invoca a lei em sua defesa quando
diz: "Deus te ferirá, parede branqueada...".
Por que Deus haveria de ferir ao
sumo sacerdote Ananias? Porque é isto que expressa o Salmo:
"Sereis
mortos todos vós...". O juízo de Deus sobre aqueles que pervertem o
direito é morte.
Através desta suposta injuria,
Paulo lembra Ananias do seu dever, e que ele seria réu de juízo
perante Deus, e não dos homens Dt 25: 1.
Paulo não faz uma injuria, visto
que o ato de injuriar é falar algo que denigra a moral do ofendido.
Qual era a moral de Ananias, homem réprobo que não observava a lei e
o direito em seu tribunal?
Quando Paulo disse 'parede
branqueada', ele procurou enfatizar a condição daquele que
estava pervertendo o seu direito.
1) A lei mandava chicotear, e Paulo foi
ferido no rosto;
2) Paulo ainda não havia sido condenado, e
estava sofrendo uma punição não prescrita na lei At 23: 2.
O que Ananias fez foi aviltar o
apóstolo perante os seus olhos Dt 25: 3.
Paulo sabia que Ananias era o sumo
sacerdote, pois ele estava assentado na condição de juiz
"...Tu
estais aqui assentado para julgar-me...". Da mesma
forma, Paulo sabia que fora açoitado por ter dito que, até àquela
presente data, tinha andado diante de Deus com toda a boa consciência At 23: 1.
Observe também que 'branqueado' é um qualificativo que denota um
processo, e não algo intrínseco. A parede não era branca, antes foi tornada
branca por algum processo.
Á época de Paulo utilizavam a cal no processo
de branqueamento de uma parede. Parede branqueada é o mesmo que parede caiada.
Por que parede branqueada? Porque aos olhos
dos espectadores presentes no Sinédrio Ananias parecia um homem justo. O
processo de caiar, ou branquear era para esconder a sujidade da parede.
Mesmo agindo contra a lei, os espectadores do
tribunal e o povo tinham Ananias por justo. Isto porque ele era sumo sacerdote,
juiz, mestre, etc, em Israel.
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"Entonces
Paulo lhe diffe: Ferir teha Deus, parede caiada..."
Novo Testamento das India Oriental, Amsterdam, 1681. |
Sobre este aspecto Jesus protestou aos
fariseus: "Ai
de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros
caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios
de ossos de mortos e de toda a imundícia. Assim também vós exteriormente
pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de
iniqüidade" Mt 23: 27- 28.
A aparência dos escribas e
fariseus era semelhante a dos sepulcros bem cuidados. Por fora, formosos,
cuidados, caiados, mas por dentro, guardam toda sorte de imundície.
É neste aspecto que Paulo
protesta a Ananias com os dizeres: "Parede caiada". Por estar assentado na
cadeira reservada aos juízes, Ananias tinha o dever de julgar conforme a lei,
porém, ele estava transgredindo a lei. Ele estava em pior condição que Paulo
perante a lei Tg 2: 10.
Agora, falta verificar por que
Paulo desculpou-se por ter falado daquela forma ao sumo sacerdote.
Ao fazer menção da lei, Paulo
esperava que os espectadores lhe apoiassem, tomando partido da lei. Porém, o que
se observa é que estes estavam cegos, e voltaram-se contra Paulo ao dizerem:
"Ousas insultar o sumo sacerdote de Deus?" At 23:
4.
Eles eram partidários de
Ananias, e deixaram de observar a própria lei. Através da colocação "parede
branqueada" Paulo experimentou o tribunal, e percebeu que todos eram parciais e
tendenciosos.
Por mais que exercesse a sua defesa com maestria, Paulo percebeu
que seria condenado.
A alternativa de Paulo foi
apelar para a clara divisão da platéia, ao utilizar um argumento que jogasse os
presentes uns contra os outros At 23: 6.
Diante da oposição do tribunal
e dos que assistiam ao seu julgamento, Paulo fala com ironia:
"Não sabia, irmão, que ele é sumo sacerdote..." At
23: 5.
Paulo sabia tratar-se do sumo sacerdote, principalmente por distinguir
sobre qual cadeira Ananias estava assentado (juiz).
Paulo também percebeu que fora
esbofeteado a mando de quem devia cumprir a lei, visto que, ele não 'injuriou'
quem bateu nele, antes falou a quem havia mandado esbofeteá-lo: o sumo sacerdote
Ananias.
Desta forma
excluímos a idéia de que Paulo não tenha percebido tratar-se do sumo sacerdote
pela possível deficiência visual.
Concluímos que:
Quando Paulo falou a Ananias:
"Deus há de ferir-te, parede branqueada...", ele tinha a nítida intenção de
defender-se frente a uma clara violação da lei e dos seus direitos.
Em sua defesa ele utilizou de
forma implícita a colocação do salmista que diz:
"Sereis
mortos todos vós, sereis como uma parede encurvada...",
da mesma forma que foi utilizada a citação: "Não atarás a boca ao boi que
debulha" quando ele defendeu o seu direito de apóstolo na carta aos
Coríntios.
Associado a idéia do salmo 62, que é a
confiança na defesa de Deus, temos a
condição dos sepulcros caiados, que externamente são cercados de cuidados, porém,
continuam na condição de sepulcros Mt 23: 27- 28.
O rei Belsazar teve a sua sentença escrita em
uma parede do palácio real, e o local estava devidamente pintado de branco (caiado) Dn 5: 5.
Estes elementos reunidos demonstram que a fala
de Paulo não foi fruto de um destempero.
Paulo não 'entrou' na carne, como alguns pensam. Ele não abordou o sacerdote
daquela forma por causa de um problema de visão.
A lei não trata de bois e nem
os salmos de paredes "É de bois que Deus tem cuidado? Ou
não o diz certamente por nós?" I Co 9: 9- 10. Como estava no exercício de
sua defesa não havia a necessidade de Paulo submeter-se a qualquer tipo de
injúria real (aviltamento).
Por fazer referência a
escritura, socorrendo-se dela, não havia a necessidade de Paulo desculpar-se,
principalmente por ele não procurou atingir o sumo sacerdote Ananias em seu caráter e
moral. Paulo somente questionou a conduta do sacerdote no exercício de sua atribuição.
Paulo percebeu que a platéia
desprezava a lei, ou que não se importariam com a distorção da lei, quando após aviltado,
ninguém considerou que a sua autodefesa tinha como parâmetro a lei At 23: 3.
Os espectadores do julgamento
não se importaram com uma clara violação da lei, o que tornou evidente ao
apóstolo que
ele precisaria ser mais incisivo quando exercesse a sua defesa com base na lei At 23: 5.
Observe que Paulo não
amaldiçoou o sumo sacerdote Ananias em nome de Deus, antes o salmo traz em seu
escopo uma sentença, que Paulo a proferiu de modo apropriado: "Deus há de
ferir-te...".
Ananias foi avisado das conseqüências dos seus atos
"O
avisado
vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena"
(Provérbios 27: 12), mas o ferir compete a Deus.
A colocação de Paulo é
apropriada, e o apóstolo Judas assim demonstra:
"Mas, o arcanjo Miguel, quando
contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou
pronunciar contra ele juízo de maldição, mas disse: O Senhor te
repreenda" Jd 9.
O alerta de Paulo foi
pertinente (Deus te ferirá), e as bases do julgamento previsto na escritura
(parede branqueada), que esta prestes a cair. Qual era a atribuição de Ananias?
A atribuição de Ananias era a de Juiz, prerrogativa concedida pela lei, a mesma
lei que ele estava transgredindo.
Diante do comportamento
abusivo de Ananias, a resposta de Paulo é irônica: Como saber que, alguém que
agiu daquele modo, contrariando acintosamente a lei, pudesse ser sumo sacerdote?
Embora Paulo não
'reconhecesse' o juiz pela sua conduta, ele demonstra que em momento algum havia
esquecido o que a lei prescrevia: "Não falarás mal de uma
autoridade do teu povo" At 23: 5.
Claudio Crispim