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O arrependimento

 

 

“Eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores, ao arrependimento”

Lc 5. 32.

           

 O erro é um fato na vida de todos. Não há um ser humano que não tenha cometido um erro no decorrer de sua vida. Quando nos damos conta dos nossos erros, logo vem o arrependimento. Não há um ser humano que nunca tenha se arrependido no decorrer de sua vida.

            O homem se arrepende de atos já realizados ou daqueles que não conseguiu realizar. A consciência diante dos erros tem uma variação de pesos. Se tomarmos uma decisão errada na vida, a consciência nos acusa de certa maneira. Se cometermos um crime perante a sociedade, a consciência nos acusará com um peso muito maior.

            Quando a consciência nos intima, resta-nos a pergunta: “Como reparar o meu erro?”. O arrependimento apregoado por João Batista refere-se à conduta, a moral ou a comportamento? Reparar o erro é o bastante? 

"Porque todos tropeçamos em muitas coisas" (Tiago 3: 2).

 

João Batista

 

“E, naqueles dias, apareceu João o Batista pregando no deserto da Judéia, e dizendo: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” Mt 3. 1- 2.

 

Estas foram as palavras de João Batista que ecoaram no deserto: Arrependei-vos! Em seguida, João Batista apresenta o motivo pelo qual os seus ouvintes deveriam arrepender-se: "...porque é chegado o reino dos céus".

O motivo da mensagem de João Batista é específico, a proximidade do reino dos céus, e nada além disso.

A palavra 'arrependimento' é tradução de um verbo grego 'metanoeõ', e significa mudança de concepção, ou seja, mudança de ponto de vista referente à uma determinada matéria.

Qual a matéria que os escribas e fariseus deveriam mudar de ponto de vista? Devido a proximidade do reino dos céus, que é Cristo entre os homens, que mudança se tornou necessária à concepção dos religiosos à época?

Este estudo tem o objetivo de tornar conhecido qual a concepção dos escribas e fariseus e o que deveria ser mudado.

 

Jesus foi morar em uma cidade chamada Nazaré para que se cumprisse a profecia que diz: “Ele será chamado Nazareno” Mt 2. 23; Is 11. 1.

Por aqueles dias apareceu João Batista pregando no deserto, e a mensagem apregoada era: “Arrependei-vos...”, e ele deu o motivo pelo qual estava anunciando a mensagem “...porque está próximo o reino dos céus”.

A proximidade do reino dos céus é demonstrado através da urgência em chamar as pessoas ao arrependimento. João Batista estava conclamando os seus ouvintes a mudarem os seus pontos de vista, visto que, o Senhor estava próximo.

Observe que esta mensagem era direcionada a todos os ouvintes de João Batista, sem qualquer distinção.

João Batista é o personagem que Isaías anunciou que haveria de vir na condição de arauto do Messias, e Mateus dá testemunho do cumprimento da profecia: “Porque este é o anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas”  Mt 3. 3.

A missão de João Batista foi predita muito antes de ele vir a existência, e a mensagem que ele apregoou, objetivava preparar o caminho de Cristo, e que os homens endireitassem as suas veredas |Is 40: 3.

 

A proximidade ou a urgência da manifestação do reino dos céus era motivo, tanto para a mensagem de João Batista, quanto para a mudança de concepção dos ouvintes.

Entre os visitantes das cidades de Jerusalém, Judéia e toda região circunvizinha ao Jordão, muitos religiosos vinham ao batismo. Enquanto executava a sua missão, João Batista percebeu que, entre os que vinham ao batismo, haviam muitos fariseus e escribas.

A mensagem de João era idêntica a todos os seus ouvintes: "Arrependei-vos, pois está próximo o reino dos céus" Mt 3: 2, porém, ao ver os saduceus e fariseus entre os que se batizavam, João Batista disse-lhes: "Raça de víboras...".

 

“E, vendo ele muitos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento. E não presumais, de vos mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão...” Mt 3. 7 -9.

 

João Batista é contundente na sua mensagem: “Raça de víboras...”. Foi por raiva que João Batista nomeou os fariseus e saduceus de víboras? Foi por acaso que João Batista gritou aos saduceus e fariseus que eles eram uma espécie de víboras? Não!

Não é sem motivo que João Batista assim os nomeia. João, o Batista, durante o seu ministério fez várias citações de Isaías aos seus ouvintes, e o capitulo 59 do livro de Isaías é esclarecedor sobre porquê João chamou-os de 'raça de víboras'.

 

1.      “Eis que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar; nem agravado o seu ouvido, para não poder ouvir” Is 59. 1 – Sobre o nosso Deus, sabemos que Ele é salvador. Acerca do homem, sabemos que ele precisa de salvação, visto que em Adão o homem foi julgado e condenado. O pecado em Adão afetou a natureza do homem, deixando de ser santo e justo para ser condenável diante de Deus;

2.      “As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniqüidade, e obra de violência há nas suas mãos” - Os homens foram declarados culpados e condenados em Adão. Quanto às obras dos homens, elas serão julgadas no futuro, quando todos comparecerão ante o grande Trono Branco. As suas obras serão reprovadas, visto que, aqueles que a produziram, não estavam em Deus;

3.      “Chocam ovos de basilisco, e tecem teias de aranha; o que comer dos ovos deles, morrerá; e, quebrando-os, sairá uma víbora (...) Conforme forem as obras deles, assim será a sua retribuição, furor aos seus adversários, e recompensa aos seus inimigos; às ilhas dará ele a sua recompensa” Is 59. 5 e 18. – Ao chamá-los de raça de víboras João Batista fez referência a doutrina dos escribas e fariseus. Eles eram filhos do diabo, a antiga serpente Jo 8: 44. Eles eram filhos do diabo, e 'chocavam' ovos de serpentes através de suas doutrinas. Quem se alimentasse da doutrina dos escribas e fariseus haveria de perecer. Quando alguém entrasse pelos seus caminhos tortuosos (quebrando-os, sairá uma víbora), haveria de propagar o mesmo veneno dos seus mestres. Conforme as obras deles, Deus dará a recompensa! Não há como fugir da ira de Deus, pois ela é a recompensa de suas obras reprováveis. A condenação dos homens se deu em Adão (sem qualquer referência à ira);

4..      “Não conhecem o caminho da paz, nem há justiça nos seus passos; fizeram para si veredas tortuosas” Is 59. 8.  A missão de João era conscientizar os ouvintes a que endireitassem as suas veredas. Porém, primeiro precisavam reconhecer que 'fizeram' para si veredas tortuosas conforme se verifica nos versículos 9 e 10 de Isaías 59, e segundo, que eles estavam em inimizade com Deus. A doutrina que apregoavam não estabelecia a paz com Deus e nem eram seus caminhos conhecidos pelo Senhor.

 

Obs: Leia Mt 12. 1- 37, principalmente quando Jesus também chama os fariseus de 'raça de víboras'.

 

Os saduceus e fariseus viam ao batismo, porém a condição deles permanecia: eram raça de víboras. Filhos da serpente que se apresentou no Éden.

Eles seguiam uma vereda tortuosa, e por isso João Batista os questiona: "Quem vos ensinou a fugir da ira futura?". Qual foi o ensinamento que os saduceus e fariseus obtiveram no decorrer de suas vidas? Que caminho eles trilhavam com o intuito de ter acesso a Deus?

Eles pensavam (acreditavam) que bastava ser descendente de Abraão para ter acesso livre ao reino dos céus. Pensavam que eram salvos por executarem as obras da lei; sentiam-se em uma posição privilegiada por terem recebido a circuncisão; a ponto de sentirem que não necessitavam de arrependimento (mudança de concepção).

Muitos vieram ao batismo de João Batista, entretanto a disposição inicial do coração permanecia. Por que? Porquê continuavam a pensar que bastava dizer que tinham por pai a Abraão. A concepção deles permanecia. Aquele não era e não é o caminho pelo qual o homem foge da ira futura! Quem os ensinou estava enfatuado em sua mente carnal.

A concepção errônea deles fez com que criassem uma vereda tortuosa que não conduz a Deus. Eles estavam tão apegados àquela concepção, que aceitavam a conformidade externa decorrente do batismo diante dos homens, porém, não abandonavam as suas crenças.

 

A mensagem de João demonstra que todos os homens precisam deixar de lado as suas concepções acerca de como se livrar da ira futura: "Arrependei-vos!".

Nesta passagem, o ‘Arrependei-vos’ está mais para a idéia geral da mensagem, que é mudança de ponto de vista, do que uma nova doutrina, a do arrependimento, como muitos entendem.

Os religiosos vinham ao batismo, mas continuavam pensando que, por serem descendentes de Abraão, já eram filhos de Deus.

A idéia geral que o texto nos apresenta decorre de dois princípios que permeia todo o evangelho:

 

a) Não basta pensar ou dizer sou filho de Deus com base em elementos como: nacionalidade, religiosidade ou descendência “E não penseis que basta dizer: Temos por pai Abraão...”, pois a filiação divina só é alcançada por meio da regeneração, através do poder de Deus; a regeneração decorre do poder de Deus, como se observa em João 1: 12.

 

b)  Quando João batista diz: “Produzi, pois fruto digno de arrependimento...”, ele não está falando do comportamento dos ouvintes, antes ele faz referência a um princípio que Jesus demonstrou mais tarde: “Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore” Mt 12. 33. João Batista aponta a natureza corrompida pelo pecado de Adão, que impossibilita aos homens sem Deus produzirem frutos dignos da nova concepção.

 

“E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” Mt 3:10.

“Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” Mt 7:17.

“Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons” Mt 7:18.

“Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo” Mt 7:19.

“Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore” Mt 12:33.

 

Resumo: os versículos 1 a 7 de Mateus 3 apresenta um mensageiro de Deus com uma missão específica (v. 1- 3), preparar o coração do povo para a chegada do Messias prometido nas Escrituras. Para isso, era necessário demonstrar que o caminho em que estavam não conduzia a Deus (aplainar). O povo precisava mudar de concepção acerca de como alcançar a salvação. Deveriam mudar de conceitos e deixar de trilhar o caminho tortuoso que estavam a percorrer.

Enquanto permanecessem seguros na concepção herdade de seus pais, permaneceriam na condição de filhos da ira e da desobediência. Enquanto permanecessem divulgando suas concepções, permaneceriam na condição de 'raça de víboras', executando as obras daquele que é o pai da mentira, e permanecendo na ira divina.

A natureza herdada em Adão é que determina a condição dos homens: pecadores, filhos da desobediência e da ira. As suas ações é segundo a natureza herdada de Adão: obras mortas. Essas obras são designadas teias de aranha, que não servem para vestes, e serão postas a julgamento no futuro, quando Deus retribuirá os homens segundo as suas obras.

 

 

Claudio Crispim

 

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