Salvação
O apóstolo Paulo
nos apresenta a ordem natural dos eventos (perdição e salvação):
"Mas não é primeiro
o espiritual, senão o natural; depois o espiritual"
(I Coríntios 15: 46).
Não
há como vir a existência homens espirituais, sem antes existir
homens naturais. Isto porque Adão é o homem natural, e
Cristo, o último Adão, homem espiritual (I Co 15: 45).
Os
homens provenientes da semente corruptível de Adão são homens naturais,
e os nascidos segundo a semente incorruptível (I Pe 1: 23),
que é a palavra de Deus, são espirituais, visto que, em Cristo (último Adão), os homens espirituais
vêem a existir.
Somos informados por intermédio da Palavra de Deus que todos
os homens pecaram e foram destituídos da glória de Deus por causa da queda
de Adão. Todos os homens estão debaixo de condenação: judeus e
gregos, servos e livres, morais e amorais, religiosos e ateus, etc Rm 3: 9- 18;
"Pois assim como por
uma ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para
condenação..."
Rm 5: 18.
Todos os homens entraram pela 'porta larga' através do
nascimento de Adão, e seguem no 'caminho largo' que conduz à
perdição Mt 7: 13. Todos são vasos de desonra em Adão e foram
preparados para a perdição Rm 9: 21- 22. Todos os
nascidos de Adão são plantas que o Pai não plantou Mt 15: 13.
Mas, Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho
unigênito, para que todo aquele que nele crê, não pereça, antes,
tenha a vida eterna Jo 3: 16. Quando Jesus disse 'todo aquele', engloba judeus e gregos, morais e amorais, servos e livres,
homens e mulheres, etc. Cristo (último Adão), a porta
estreita dá acesso a salvação. Nele são feitos os vasos para
honra. Em Cristo as árvores de justiças são plantadas.
Em
Cristo Deus revela aos homens a sua maravilhosa graça! Todos os
que estão mortos em delitos e pecados, ou seja, na condição de filhos da ira e
da desobediência em Adão, por intermédio da fé em Cristo recebem
poder para serem feitos (de novo criados) filhos de Deus. Em Cristo o homem é
novamente gerado, recebendo de Deus um novo coração e um novo
espírito Sl 51: 10.
A
condenação deu-se em Adão, e a salvação está em Cristo. O
primeiro Adão trouxe condenação, o último Adão redenção.
Diante de Adão (condenação) e Cristo (graça redentora), o que
dizer da Lei? O que dizer de Moisés e Cristo? Qual a relação
entre Lei e Graça?
É
um erro considerar que em primeiro lugar foi exposta a lei e
depois a
graça, visto que a graça de Deus tem se
manifestado salvadora a todos os homens, hoje, porém, somos
informados que desde os tempos eternos Cristo é Cordeiro de Deus, morto antes da fundação do
mundo "Mas
com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e
incontaminado, o qual, na verdade, em outro tempo foi
conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado
nestes últimos tempos por amor de vós"
I Pe 1: 19- 20.
A
graça de Deus é antes dos tempos eternos, provisionada para
suprir a necessidade dos homens em todo o tempo. A graça
de Deus veio primeiro que a lei. Em segundo lugar, temos a
condenação da humanidade que se deu em Adão, e depois a lei.
Paulo demonstra que a condenação é anterior a lei quando disse:
"Pois antes da
lei estava o pecado no mundo"
Rm 5: 13. A realidade
da condenação é patente desde Adão até Moisés. Da mesma forma, a
realidade da redenção é facilmente observável desde Adão até
Moisés.
O
que dizer de Abel? Que dizer de Enoque? Que dizer de Noé? Que
dizer de Jó? Abraão? Isaque? Jacó? José? Todos eles foram salvos
pela graça por intermédio da fé Hb 11: 1- 22.
Primeiro temos a graça, depois a lei!
"A promessa de que
havia de ser herdeiro do mundo não foi feita pela lei a
Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé"
Rm 4: 13.
Tanto o Antigo Testamento quanto o Novo Testamento é dominado
pela realidade da graça de Deus. Deus demonstrou em primeiro
lugar a sua graça, e posteriormente a lei
"Ora,
tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé
os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão,
dizendo: Todas as nações serão benditas em ti" Gl 3: 8.
A nova aliança foi estabelecida em Cristo, o descendente
"Mas digo isto:
Que tendo sido a aliança anteriormente confirmada por Deus em
Cristo, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois,
não a invalida, de forma a abolir a promessa" (Gálatas 3:
17).
A aliança da graça
foi confirmada quatrocentos e trinta anos antes da lei a Abraão,
para que a graça de Deus chegasse gratuitamente aos gentios e
judeus
"Para que a bênção de Abraão chegasse
aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós
recebamos a promessa do Espírito" Gl 3: 14.
Conforme o exposto
acima, a declaração de Packer é infundada: "Na economia de Deus, a lei foi
exposta em primeiro lugar e a graça posteriormente. O Antigo
Testamento é dominado pela grande realidade da lei de Deus, tal
como o Novo Testamento é dominado pela graça de Deus. Porém,
como relacionar a graça com a lei, visto que a lei veio antes da
graça?" Vocábulos de Deus, J. I. Packer, Editora Fiel.
Após destacar a ordem correta dos eventos
já é possível analisar o
legalismo e o antinomianismo.
O
conceito de legalismo de nossos dias não condiz com as práticas
dos judaizantes, fariseus e escribas à época de Cristo. Como
exemplo, os dicionários de hoje definem 'fariseu' como sendo um
indivíduo hipócrita, porém, à época de Cristo, fariseu era
alguém com um estilo de vida com base na religiosidade judaica
"Sabendo de mim
desde o princípio (se o quiserem testificar), que, conforme a
mais severa seita da nossa religião,
vivi fariseu"
(Atos 26: 5).
Muitos dos fariseus à época de Jesus eram hipócritas, porém
farisaísmo não era sinônimo de hipocrisia. De igual modo, o
conceito de legalismo hoje diz de alguém que toma a lei e a usa
de modo que 'mereça' a salvação.
No
entanto, verifica-se nas escrituras que os fariseus e escribas
confiavam na carne, ou seja, que eram salvos por serem
descendentes de Abraão
"E não presumais, de vós mesmos, dizendo:
Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas
pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão" (Mateus 3: 9).
Individualmente, cada judeu, fariseu e escriba confiavam que
eram filhos de Deus por serem descendentes de Abraão Rm 9: 6- 8;
Jo 8: 39 e 41. Agora, como povo, os judeus tinham a lei como
forma da ciência e da verdade Rm 2: 17- 20, e, por causa dela
consideravam que eram melhores que os outros povos Rm 3: 9.
Podemos classificar os judeus como sendo tradicionalistas,
formalistas e em alguns aspectos, legalistas, pois a tradição e
a forma eram proveniente da lei.
Não
encontramos no Novo Testamento alguém que tenha declarado ser
salvo por cumprir os quesitos da lei Mt 19: 20, porém, por serem
descendente de Abraão, muitos afirmaram a João Batista e a Jesus
que não precisavam de arrependimento.
O
Jovem rico, apesar de guardar a lei desde tenra idade, ainda
queria algo para fazer que lhe desse o direito a salvação.
Percebe-se que ele não confiava na carne, talvez por não ser um
descendente de Abraão.
Os
judaizantes, por sua vez, não eram estritamente legalistas. Eles
professavam serem cristãos, mas queriam continuar guardando
alguns aspectos da lei: circuncisão, dias, festas, etc. Eles
estavam mais para o antinomianismo do que para o legalismo, por
quererem transtornar o evangelho de Cristo.
Por esta
causa Paulo advertiu aos gálatas
judaizantes que queriam transtornar o evangelho
"O qual não é outro, mas há alguns que vos
inquietam e querem transtornar o evangelho de Cristo"
(Gálatas 1: 7).
A palavra
'antinomiano' serve para definir a pessoa que em nossos dias se
diz alcançada pela graça, e nela se apóia para continuar vivendo
uma vida desregrada (libertino).
Porém, a
libertinagem que Judas e os apóstolos combatiam era aquela que
buscava transtornar o evangelho. Perceba que a preocupação dos
apóstolos era com o evangelho de cristo, visto que
dissimuladamente alguns queriam transtornar a fé do evangelho.
Eles buscavam negar a Cristo como único Senhor.
A liberalidade dos
'libertinos' à época de Paulo, e que hoje são nomeados
'antinomianismo', era quanto a distorção da verdade do
evangelho, uma vez que procuravam introduzir encobertamente
heresias destruidoras, negando a Cristo como Senhor II Pe 2: 1;
Jd 4; Fl 1: 27- 30; I Jo 2: 21- 22.
"E TAMBÉM houve entre o povo
falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que
introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o
Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição.
2 E muitos seguirão as suas dissoluções,
pelos quais será blasfemado o caminho da verdade" II Pe 2: 1-
2;
"Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para
este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução
a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso,
Jesus Cristo"
Jd 4;
"Somente
deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo,
para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de
vós que estais num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo
ânimo pela fé do evangelho.
E em nada vos espanteis dos que resistem, o que para eles, na
verdade, é indício de perdição, mas para vós de salvação, e isto de
Deus. Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não
somente crer nele, como também padecer por ele, Tendo o mesmo
combate que já em mim tendes visto e agora ouvis estar em mim"
Fl 1: 27- 30.
Inferir dos textos que dissolução
ou libertinagem refere-se a uma conduta torpe e devassa, é
admitir que o evangelho apóia-se na obras proveniente de
cumprimento de regras.
Segue-se que a idéia construída
entorno do legalismo e do antinomianismo não condiz com a
abordagem bíblica. Tais conceitos surgiram ao longo da história
cristão por causa dos inúmeros conceitos acerca da lei e da
graça de Deus. Embora considerem o legalismo e o antinomanismo
como pólos opostos opostos de um mesmo erro, erram também por
supor que há alguma relação entre a lei e a graça.
Por isso, preciso discordar de
J. I. Packer
uma vez que a graça não estabelece a lei. Tal posicionamento
surge da idéia de que a salvação de Deus é ética e moral
"Visto que o espírito
do homem é o centro de seu ser ético, e uma vez que a salvação
é, principalmente, transação ética, segue-se que o homem precisa
ser espiritualmente despertado e iluminado a fim de poder
receber e apreender as coisas pertencentes a Cristo e aceitá-lo
pela fé" -
Keyser (Citação de E. H. Bancroft, Teologia Elementar, EBR,
2001, pág 227).
A bíblia apresenta Adão e Cristo
como personagens principais. Este trouxe salvação a todos os
homens e aquele condenação. O erro começa quando se interpreta a
bíblia através de Moisés e Cristo, a lei e a graça.
A relação correta encontramos no
versículo seguinte: "Pois assim como por
uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para
condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça
sobre todos os homens para justificação de vida" (Romanos
5: 18).
| Adão |
ofensa |
juízo |
condenação |
| último Adão |
justiça |
graça |
vida |
Onde fica a Lei?
Onde encaixar Moisés?
Moisés era profeta e falou de Jesus
"E, na verdade, Moisés foi fiel em toda a
sua casa, como servo, para testemunho das coisas que se haviam
de anunciar" (Hebreus 3: 5). Enquanto Moisés foi fiel na
construção do santuário de Deus conforme o modelo visto nos céus
Hb 5: 8, Cristo, como Filho, criou todas as coisas e constituiu
homens como templos para habitação de Deus
"Essa casa somos nós..." Hb 3: 6.
De igual modo, a lei era sombra de
Cristo, dando testemunho daquele que havia de se manifestar
"PORQUE tendo a lei a sombra dos bens
futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos
sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, pode
aperfeiçoar os que a eles se chegam" Hb 10: 1; Cl 2: 16-
17; Hb 8: 5.
Ela serviu de 'aio', indicando a
Cristo "De maneira que a lei nos serviu de
aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos
justificados" (Gálatas 3: 24). Ao introduzir a nova
aliança, a velha foi extinta "Dizendo Nova
aliança, envelheceu a primeira. Ora, o que foi tornado velho, e
se envelhece, perto está de acabar" (Hebreus 8: 13).
Em Cristo foi estabelecida a lei da
liberdade, onde as relações humanas não se pautam por regras e
leis, pois as leis são para os roubadores
"Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta:
Amarás ao teu próximo como a ti mesmo" (Gálatas 5: 14); I
Tm 1: 9.
Longe de quem professa a Cristo
viver em devassidão e entregue aos desejos mundanos e profanos
"Como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia,
mas como servos de Deus" (I Pedro 2: 16).
Como a lei cumpre-se no amor,
segue-se que a liberdade também é normatizada
"Mas vede que essa liberdade não seja de
alguma maneira escândalo para os fracos" (I Coríntios 8:
9). Qualquer tipo de regra ou normatização legal imposta aos
servos de Cristo leva a servidão "ESTAI,
pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não
torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão"
(Gálatas 5: 1); "Na verdade pareceu bem ao
Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão
estas coisas necessárias:" (Atos 15: 28).
A base do serviço do Cristão é bem
sólida e superior a lei. Paulo é bem claro: servi uns aos
outros, não através da lei ou norma, mas com base no amor
"Porque vós, irmãos, fostes chamados à
liberdade. Não useis então da liberdade para dar ocasião à
carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor"
(Gálatas 5: 13).
A obra para qual Tiago exorta, é a
obra perfeita da fé: a perseverança! Tg 1: 4. A fé sem a
perseverança é morta, pois não terminou a sua obra
"Aquele, porém, que atenta bem para a lei
perfeita da liberdade, e nisso persevera, não
sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será
bem-aventurado no seu feito" (Tiago 1: 25);
"Assim falai, e assim procedei, como
devendo ser julgados pela lei da liberdade" (Tiago 2:
12).
Quem atenta para o evangelho, a lei
perfeita da liberdade é bem-aventura, pois nem Paulo escapou de
ser taxado de carnal "Rogo-vos, pois, que,
quando estiver presente, não me veja obrigado a usar com
confiança da ousadia que espero ter com alguns, que nos
julgam, como se andássemos segundo a carne" (II
Coríntios 10: 2).
Aqueles que apregoam de boa mente
que é preciso ao homem guiar-se através de leis morais farão uso
de tais normas para criar fardos. Outros utilizarão estas normas
para fazer dos cristãos presas suas Cl 2: 8.
Que regras deve o homem seguir, que
não perecerão pelo uso? Não toques, não proves, não manuseies?
"...por que vos sujeitais ainda a
ordenanças...?" Cl 2: 20. A lei da liberdade não é
perfeita, precisando fazer-se acompanhar da lei? Gl 5: 14.
Claudio Crispim