A Epístola de

Judas

 

 

E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e vituperam as dignidades. Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda. Estes, porém, dizem mal do que não sabem; e, naquilo que naturalmente conhecem, como animais irracionais se corrompem. Ai deles! porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Coré. Estes são manchas em vossas festas de amor, banqueteando-se convosco, e apascentando-se a si mesmos sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte; são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas;


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(Judas 8- 12)

Judas passa a descrever os homens ímpios que haviam se infiltrado entre os cristãos dissimuladamente.

Eles queriam se firmar entre os cristãos como mestres. Eram sonhadores, porém, tudo que viam em sonhos não passava de alucinações. Voltaram a condição de carnais, destituídos do Espírito de Deus.

Como resultado das suas pretensões, rejeitavam toda autoridade e blasfemavam das dignidades.

Acerca deste impuros, bem falou o apóstolo Paulo a Timóteo: "Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão" (Colossenses 2: 18).

Os falsos mestre queriam a posição de mestres para poderem dominar os cristãos. Através do pretexto de humildade e reverência ao que diziam ser sagrado, anunciavam ter sonhos e visões, porém, tudo era fruto de uma carnal compreensão.

Judas demonstra que os falsos mestres não observam o que preceitua a Escritura, quando ela demonstra que o arcanjo Miguel não ousou pronunciar juízo de maldições contra o diabo Zc 3: 2.

Embora tenhamos uma alusão ao nome do arcanjo Miguel em uma suposta disputa pelo corpo de Moisés proveniente de uma antiga tradição judaica, podemos compará-la com o texto de Zacarias, onde temos: "Mas o SENHOR disse a Satanás: O SENHOR te repreenda, ó Satanás, sim, o SENHOR, que escolheu Jerusalém, te repreenda; não é este um tição tirado do fogo?" (Zacarias 3: 2).

Talvez Judas tenha se equivocado ao citar a tradição judaica, sendo que o texto base que queria citar fosse o de Zacarias. Ou, de igual modo, alguém que tenha copilado a carta, tenha substituído o texto de Zacarias pelo texto da tradição judaica.

Porém, a idéia que o texto procurou transmitir foi preservada, mesmo com a alusão a tradição judaica, visto que, o Senhor não proferiu juízo infamatório contra Satanás, quando este se opunha acerca do Sumo Sacerdote Josué, antes disse: "O Senhor te repreenda, ó Satanás, sim, o Senhor que escolheu Jerusalém..." Zc 3: 2.

Devemos ter em mente que Miguel é um dos anjos de Deus, porém, não podemos confundi-lo com o Anjo do Senhor que é Cristo "O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem, e os livra" (Salmos 34: 7). Diferente de Miguel, o Anjo do Senhor é onipresente (acampa-se ao redor de todos que o temem, e deve ser temido (o temem). É de Cristo que Paulo disse: "Porque esta mesma noite o anjo de Deus, de quem eu sou, e a quem sirvo, esteve comigo" (Atos 27: 23).

Os pretensos mestres não consideravam nem mesmo o exemplo do Senhor quando Satanás se opunha a Ele acerca de Josué. Eles difamavam o que não entendiam por se arrogarem mestres. Até mesmo o que é possível compreender naturalmente pervertem.

O escritor declina três 'ais' sobre os seguidores do anticristo.

Através das heresias que estavam introduzindo dissimuladamente, os falsos mestres estavam percorrendo o caminho de Caim, que matou o seu irmão. Através das heresias procuravam matar os que alcançaram vida em Cristo.

A ganância cegou-lhes o entendimento, e seguiram o mesmo erro de Balaão. Em busca de recompensas materiais, resolveram transtornar a verdade do evangelho.

Ao falarem contra as autoridades superiores, agiram da mesma forma que Coré, atitude que os condenou a perecer conforme os revoltosos que se levantaram contra Moisés.

Embora estes homens estivessem se reunindo com os cristãos, na verdade eram pastores de si mesmos. São os mesmos que tem o ventre na conta de seu deus "Cujo fim é a perdição; cujo deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas" (Filipenses 3: 19).

Judas demonstra que tais homens banqueteavam-se nas festas fraternas dos cristãos, porém, sem recato algum. Nada deve se esperar deles.

Alguns teólogos classificam estes homens que Judas fez referência como sendo apóstatas gnosticistas denominados antinominianos ou libertinos.

É de consenso comum que a legalidade promovida pelos judaizantes é contrária a graça de Deus. Porém, também é temerário dizer conforme J. I. Packer:  "Essa é a resposta final ao antinomianismo: a graça estabelece a lei" Vocábulos de Deus, Packer, J. I, Editora Fiel.

No afã de combater os heréticos que acham por bem cometerem toda sorte de torpeza, não podemos nos socorrer da lei Mosaica como se ela complementasse a graça de Cristo, ou que a graça a estabelece.

É de conhecimento que Paulo apregoava a moderação em tudo, sem fazer qualquer referência a lei Mosaica como parâmetro de conduta. Para saber qual a relação entre graça e lei, leia os artigos: Vinho Novo somente em Odres Novos, Lei e Graça e O Evangelho anunciado.

 

Claudio Crispim 

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