Diante destes aspectos iniciais,
é preciso olhar para as cartas como um tipo de
comunicação manuscrita e/ou impressa que é endereçada
a uma pessoa ou a uma coletividade.
As cartas bíblicas foram direcionadas aos cristãos, o que leva a concluir que
eles já conheciam o conteúdo do evangelho. “Pois nenhuma outra coisa vos
escrevemos, senão as que já sabeis ou reconheceis”
II Co 1. 13; “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro
evangelho além do que já vos tenho anunciado,
seja anátema” Gl 1. 8.
Estes versículos nos concede a idéia geral de como
se deve olhar para as cartas
do Novo Testamento. Tudo que foi escrito nas cartas aos cristãos já lhes era do
conhecimento e compreensão.
Em decorrência dos destinatários conhecerem o evangelho, na maioria das vezes as
cartas têm um tom de defesa do evangelho, ou de trazer à lembrança aspectos do
evangelho.
O que os cristãos já conheciam ou tiveram contato através da pregação pessoal de Paulo ou de
seus filhos na fé, era defendido tenazmente contra os falsos doutores, falsos
religiosos e falsos cristãos “Não vos lembrais de que
estas coisas vos dizia quando ainda estava
convosco?” II Ts 2. 5.
Sabemos que a maioria dos cristãos conheceram o evangelho por intermédio
de Paulo e de Pedro, o que nos leva a concluir que: o remetente e os
destinatários possuíam um conhecimento que lhes era comum, ou que foi
estabelecido entre eles uma relação interpessoal.
Quem escreve uma carta, redige-a a quem no mínimo conhece e/ou que
tenha alguma relação pessoal. Ou, escreve àqueles que no mínimo detém os
mesmos conhecimentos ou interesses. Esta peculiaridade da carta traz algumas
implicações diferente de um texto de um livro.
A linguagem de quem escreve uma
carta deve ser peculiar. É peculiar porque não
envolve só os signos lingüísticos, antes há uma linguagem própria a quem escreve
e a
quem recebe a informação (há uma linguagem própria entre pessoas que se
conhecem e que acaba por influenciar a escrita).
Esta linguagem própria ao
destinatário e ao remetente transcende além dos
signos lingüísticos, e tem a função de evitar interpretações dúbias.
Na
comunicação, tanto pela fala quanto pela escrita, busca-se transmitir uma idéia,
e não somente palavras soltas. Um dos erros mais freqüentes em se interpretar
uma escrita está em só buscar a significação das palavras e deixar que
estes “signos lingüísticos” falem por si só, deixando de levar em consideração a
idéia geral que surge da combinação dos significados das palavras com a sua
estruturação lingüística.
Isto porque a comunicação, tanto
escrita ou falada, possui uma linguagem tanto mais significativa e importante do
que os signos lingüísticos, que transcende e envolve questões culturais e a
linguagem própria ao grupo.
Como exemplo, temos a linguagem restrita aos
médicos. Os médicos têm uma linguagem própria concernente a profissão que
desenvolvem.
Os profissionais do direito têm
sua própria linguagem. Os policiais dentro de suas funções também possuem uma
linguagem própria. Qualquer seguimento da sociedade tem a sua própria linguagem
que é restrita e possui uma significação própria, compreendida só dentro daquele
grupo em especial.
Na comunicação entre pais e filhos há uma importância maior
na autoridade dos pais do que na própria linguagem utilizada. Um olhar diz muito mais
que um ríspido “_ Quieto menino!”.
Dentro deste aspecto devemos tomar cuidados redobrados ao
interpretarmos as cartas paulinas, porque a união entre os primórdios cristãos
era tão grande que já possuíam características próprias de uma família.
Eles já haviam desenvolvido uma
linguagem própria e restrita ao grupo.
Uma carta geralmente é recheada de fragmentos de idéias e
lembranças.
Está voltada para contemporâneos de quem a escreveu “Rogo-vos que,
quando estiver presente, não me veja obrigado a
usar com confiança da ousadia que espero ter com alguns que nos julgam” II Co
10. 2. Nós, nunca teremos esta possibilidade de encontrar Paulo segundo estes
aspectos humanos.
O(s)
Remetente
(s)
Outro aspecto a ser observado refere-se ao autor da carta.
Neste aspecto estão inseridos: a apresentação pessoal, a motivação, a
confiabilidade de seus escritos, a escrita não é impessoal como nos livros e contém muito
da natureza do escritor.
Estes elementos nos levam a verificar os seguintes aspectos:
-
A
motivação de quem escreve uma carta;
-
O que se pretendia com a carta? Trazer uma lembrança? Dar uma
notícia? Aplacar saudades?;
-
A disponibilidade de tempo e meios para se implementar a escrita
da carta “Vede com que grandes letras vos escrevi de meu próprio punho” Gl 6.
11;
Ao lermos as cartas paulinas, conseguimos sentir que a pessoa de Cristo era
o motivo central da vida do apóstolo. O amor de Deus conquistou este homem de
tal forma que isto tornou-se motivação para que ele trabalhasse e escrevesse em
defesa do evangelho.
É possível observar nas cartas uma intensa luta do apóstolo para se fazer
compreendido. O objetivo desta luta era desfazer qualquer tipo de interpretação
errônea acerca do evangelho que ele pregava.
Em sua maioria, as cartas de Paulo foram endereçadas às igrejas que ele já
havia visitado. As outras igrejas que ele ainda não havia visitado e acabou por
escrever-lhes, estava sob cuidado de irmãos que eram filhos seus na fé, e por
isso mesmo, já familiarizados com a linguagem do apóstolo.
As cartas de Paulo sempre foram voltadas para o coletivo. Mesmo quando
direcionada a uma pessoa em particular, como é o caso das epístolas a Timóteo e
a Tito (epístola pastorais), geralmente estava tratando dos problemas afetos ao coletivo.
Ao escrever, o apóstolo estava consciente de que os leitores tinham
conhecimento da matéria que ele estava tratando, pois estes leitores tinham
aprendido diretamente do apóstolo ou de um dos filhos seus na fé.
Um leitor que não teve um contato direto com os apóstolos,
contato este que proporcionaria um conhecimento completo de expressões
restritas ao grupo de cristãos primitivos, poderia formular uma interpretação dúbia,
como bem demonstra o apóstolo Pedro: "Falando disto,
como em todas as suas epístolas, entre as quais há
pontos difíceis de entender, que os indoutos e
inconstantes torcem, e igualmente as outras
Escrituras, para sua própria perdição" (II Pedro 3:
16).
Claudio Crispim