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Como Interpretar as Carta da Bíblia

O ENSINO

 

O ministério de Paulo sempre se apoiou no ensino. Ele buscava “apresentar todo homem perfeito em Cristo” Cl 1. 28, e para isso, uma de suas ferramentas era o ensino sistemático do evangelho. “A ele 'Cristo' anunciamos, admoestando a todo homem, e ensinando a todo homem em toda sabedoria...” Cl 1. 28.

 

A matéria do mestre Paulo era o evangelho de Cristo. Ao chegar em uma cidade, o apóstolo de imediato procurava uma sinagoga onde pudesse expor o evangelho At 17. 1-2. A discussão em torno da matéria estendia-se pelo tempo necessário ou enquanto estavam aceitando que ele falasse.

 

Era costume de Paulo discutir sobre as escrituras, expondo e demonstrando os elementos do evangelho.

 

Expor uma matéria é explicar, narrar, contar, revelar, tornando evidente o que se quer demonstrar.

 

Demonstrar é provar mediante raciocínio conclusivo, provando, evidenciando, dando a conhecer o que se quer revelar.

 

A maneira de expor o evangelho ia além. O apóstolo discutia, principalmente diante de pessoas avessas às suas idéias. Ele debatia sobre o evangelho e a lei. Esta era a forma de consolidar os seus conhecimentos e transmitir o conhecimento do evangelho entre os inimigos declarados de Cristo.

 

Além de possuir um método de exposição do evangelho dividido em tópicos, como vimos ele ensinando Félix e Drusila, Paulo também possuía a experiência de expor o evangelho em uma escola por dois anos.

 

A escola de Tirano foi um centro de exposição do evangelho através da pessoa de Paulo, que acabou por levar o evangelho aos habitantes da Ásia, e posto em discussão a matéria do evangelho At 19: 9.  

 

Da mesma forma o escritor aos hebreus demonstra que o evangelho era exposto através de tópicos relevantes como: O arrependimento de obras mortas, a fé em Deus, o ensino sobre o batismo, imposição de mãos, ressurreição dos mortos e o juízo eterno Hb 6. 1-2.

 

 

 

UMA LINGUAGEM PRÓPRIA

 

Toda matéria secular precisa de uma linguagem própria para se firmar como ciência. Uma linguagem bem construída dá consistência à idéia que se quer transmitir.

 

A linguagem pertinente a uma matéria tem como objetivo o seguinte:

 

  • Facilitar a compreensão;

  • Facilitar a transmissão do conhecimento;

  • Criar uma identidade à matéria;

  • Não dar margem à interpretação dúbia.

O apóstolo Paulo foi eclético na apresentação do evangelho por ter a sua frente dois públicos alvo. Primeiro precisava convencer os judeus, e ao mesmo tempo tornar conhecida à mensagem do evangelho entre os gentios.

 

Para conseguir este feito foi desenvolvida uma linguagem peculiar que o tornava compreensível entre os judeus e os cristãos.

 

Em uma igreja com um grande numero de gentios, Paulo socorria-se de figuras como a família, o corpo, as relações sociais da época para conseguir expor o evangelho. Ex: a carta aos Efésios, na qual ele apresenta somente  dois versículos do antigo testamento.

 

Ao citar na carta aos Efésios o versículo 18, do Salmo 68, Paulo o faz acompanhado de uma explicação. Ao citar Isaias 60, versículo 1, Paulo o faz acompanhado de uma advertência.

 

Outras citações do Antigo Testamento são feitas de forma velada, isto é, a citação já vem incorporada a sua linguagem corrente. Observe: “Pois somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” Ef 2: 10.  Compare: “Senhor, tu nos dará a paz; Tu fizeste para nós toda a nossa obras” Is 26. 12.

 

A citação de Efésios já vem incorporada com uma gama de conhecimento que só tem total compreensão àqueles que se socorrerem do livro de Isaias.

 

Para os cristãos em Éfeso não se tinha este problema, pois é bem provável que já tinham estavas verdades impressas em suas memórias.

 

Ao construir a linguagem do evangelho, Paulo tem como elemento principal o livro de Salmos e os profetas para tratar com os judeus, e a figura da família e do corpo humano para explicar o evangelho aos gentios.

 

Esta maneira de construir a linguagem do evangelho torna acessível à compreensão de leigos, e facilita a transmissão do conhecimento.

 

A linguagem utilizada por Paulo é restrita aos primeiros cristãos, criando uma identidade à matéria que a compõe, que é o evangelho. O que seria esta LINGUAGEM em si?

 

Ao tratar de temas específicos do evangelho como a ressurreição, o velho homem, o novo nascimento, o termo “morte” torna-se indispensável. Todas as vezes que o apóstolo faz um comentário sobre a morte de Cristo ele frisa de maneira bem nítida que Cristo morreu, descendo a sepultura, para posteriormente ressurgir dentre os mortos.

 

O apóstolo Paulo nunca fez referência à morte de Cristo com o termo “dormir”, e mesmo assim, algumas seitas surgiram dizendo que Cristo não havia morrido.

 

Mesmo com uma linguagem bem clara surgiram distorções em certos grupos a respeito da pessoa de Cristo. Diante disto, imagine se o apóstolo tivesse uma só vez utilizado o termo dormir, referindo-se a morte de Cristo no calvário. Teríamos uma grande confusão, onde oportunistas que não crêem na morte de Cristo, utilizariam a sua linguagem de forma deturpada!

 

O uso de uma linguagem ou termo específico a uma determinada lição auxilia entender a matéria, reduz as interpretações distorcidas e ajuda a identificar quem realmente conhece a bíblia e faz parte de um grupo Cristão.

 

Outra forma de expor um certo tema é a forma com que o apóstolo se inclui na narrativa quando trata de um assunto específico. Todas as vezes que o apóstolo trata do tema que aponta o homem como pecador, julgamento, ele se inclui ou utiliza a primeira pessoa para tratar do assunto.

 

Ex: “Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” I Tm 1: 15; “Mas se nós julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados” I Co 11: 31; “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” Rm 5: 8; “Nós somos judeus por natureza, e não pecadores dentre os gentios” Gl 2: 15; etc

 

Em alguns temas abordados em suas cartas, o apóstolo procura não expor as pessoas envolvidas naquela determinada situação. Ex: “Ora, irmãos, apliquei estas coisas figuradamente a mim e a Apolo, por amor de vós...” I Co 4: 6.

 

Paulo ao ser informado da dissensão que havia na igreja de Corinto, acabou por utilizar o seu nome, o de Apolo e o de Pedro para não dar ênfase ao nome dos partidários. Esta atitude do apóstolo é atrelada ao amor que ele sentia pelos irmãos, que ainda estavam se desenvolvendo, mas que a soberba estava a rondar-lhes os seus corações, acabando por criar partidarismo entorno de certas pessoas.

 

Existiam partidos dentro da igreja de Corinto, mas ao compreendermos a linguagem de Paulo, fica esclarecido que este partidarismo não envolviam as pessoas de Paulo, de Cristo, de Pedro ou de Apolo, e sim, de alguns que queriam ter algum destaque na igreja.

 

Ao verificarmos a linguagem utilizada percebemos algumas diferenças incrustadas nas cartas de Paulo. Por exemplo: a carta aos Filipenses e a carta aos Colossenses: Paulo já tinha visitado os cristãos de Filipos, mas os cristãos de Colossos ainda não haviam recebido uma visita de Paulo. Observe que a carta aos filipenses não apresentam frases explicativas como as que aparecem na carta aos Colossenses: “Em quem temos a redenção pelo seu sangue”, a saber, “a remissão dos pecados” Co 1: 14.

 

Paulo para a explicação e passa a dar o significado do que é redenção; “vos reconciliou no corpo da sua carne, pela morte...” Co 1. 22.

 

Paulo ao falar de uma nova modalidade de circuncisão demonstra que a circuncisão de Cristo não se consegue utilizando as mãos, contrastando-a com a circuncisão da lei.

 

A circuncisão do novo testamento diz do despojar do corpo da carne, lançando fora toda a carne, ou o corpo do pecado, e por isso, ele especifica tratar-se da circuncisão de Cristo.

 

 

Claudio Crispim

 

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