Antes de
prosseguirmos o estudo da Carta de Paulo aos Romanos, faz-se necessário
nos deter em observar as transformações que ocorreram ao longo da
história recente sobre o modo de exposição e argumentação do pensamento
humano.
A
abrangência interlocutiva da linguagem é um fenômeno de todos os tempos
e de todas as sociedades, porém, o estudo cientifico deste fenômeno
(Pragmática) é recente.
A
tendência da metafísica ocidental a partir de Platão (428 - 427 a.c),
salvo exceções, tendeu privilegiar a dimensão apofântica (lógica
do verdadeiro e falso), declarativa e locutória da linguagem. Perseguiam
um ideal de linguagem (lógico-matemático).
O que a
metafísica não alcançou, a ciência moderna se declarou herdeira. Para os
da ciência moderna (Kepler, Galileu, Descartes e Newton), fazer ciência
consiste em matematizar e formalizar, eliminando da linguagem as
considerações implícitas, tendo estes elementos da linguagem natural
como equívocos ou inadequadas ao discurso científico.
Veja o que
Perelman diz da metafísica e da ciência moderna sobre o discurso
declarativo como única forma de descrição da linguagem: "Negar as
outras formas de discurso, ou a desvalorizá-las como fazia Platão,
acusando de sofístico todo o uso lingüístico não apoiado na essência, na
definição, na clareza a priori" (Perelman, citado em Meyer, 1992:
120).
Apesar do
ostracismo imposto pelas regras da metafísica quando realçadas pela
'linguagem' adotada pela ciência moderna, temos na história um outro
tipo de abordagem lingüística do discurso: a retórica.
A primeira
referência a retórica remonta ao século V a.C, tendo em dois sicilianos
(Corax e Tisia) os seus idealizadores, por causa de Hiéron, um certo
tirano de Siracusa, que, segundo a lenda, teria proibido os seus súdito
de utilizar a fala.
A Retórica
cresceu em importância na democracia ateniense, visto que, saber falar
para persuadir e convencer nas assembléias, tribunais, praças públicas,
etc transformou-se em necessidade.
Era
preciso a quem fizesse o uso da fala saber convencer o interlocutor da
pertinência de sua abordagem. Por fim, os Sofistas, que se auto
intitulavam 'mestres de Retórica' os seus principais representantes.
Aristóteles ao abordar a Retórica, transforma a 'técnica de persuasão'
em ciência quando dedica três livros a Retórica, ao compor um conjunto
de conhecimentos, categorias e regras.
Essencialmente, Aristóteles demonstrou que a Retórica visa criar meios
de persuadir um auditório acerca de uma determinada matéria. Sem
fixar-se naquilo que é demonstrável ou analítico, a Retórica tem o que é
verossímil ou provável como seu objeto, através de uma natureza
puramente discursal (dialética).
O declínio
da Retórica teve início no final do século XVI num processo que
estendeu-se até o século XIX, que marca o seu desaparecimento. Ela
perdeu a influência e sofreu modificações: perdeu o seu objetivo
pragmático, deixando de aplicar-se ao persuadir para aplicar-se ao
ensino de 'belos' discursos.
Tal
declínio deve-se a ascensão do pensamento burguês através da evidência
pessoal do protestantismo, racional do cartesianismo ou sensível do
empirismo (Perelman 1993: 26). Este processo é marcado pelo racionalismo
de Descartes, quando erigiu a evidência em critério de verdade. Ele
excluiu a argumentação do campo do saber geral e da filosofia em
particular. Para ele evidência só através da demonstração, e nunca
através da discussão (Perelman 1987: 264).
Mas, qual
a relação entre a Retórica, a Metafísica e a linguagem da ciência
moderna com a abordagem a Carta de Paulo aos Romanos? A Retórica como
uma 'ciência' da argumentação de modo a persuadir e convencer o
interlocutor teve o seu ápice entre os Gregos e Romanos, sociedade que
Paulo, como cidadão Romano fazia parte, e que acabou por influenciar o
estilo de composição de suas cartas.
Para uma
melhor compreensão dos escritos de Paulo, é preciso utilizar como
ferramenta de interpretação de texto e contexto elementos da Retórica. É
plenamente verificável que o método de ensino de Paulo é segundo a arte
do bem falar, de modo que ele procurava persuadir e convencer os seus
interlocutores
As várias
condições que Perelman enumera como sendo necessárias a argumentação
(Retórica) são plenamente observáveis nas Cartas de Paulo. Paulo sempre:
-
Situa
e insere- o seu discurso em um contexto determinado e dirige-se a um
auditório determinado;
-
Paulo
como orador, através do seu discurso procurava exercer uma ação (de
persuasão ou convicção) sobre o auditório;
-
Os
interlocutores precisam estar dispostos a escutar, ou seja, a sofrer
(aceitar)a ação do orador;
-
Querer
persuadir implica renúncia por parte do orador em dar ordens ao
auditório, procurando antes, a sua adesão intelectual;
-
Paulo,
além do estilo argumentativo, que nada tem a ver com a verdade do
evangelho, aponta e defende a verdade do evangelho desvinculado do
seu conhecimento humano ou do próprio uso da Retórica;
-
Ao
argumentar, Paulo demonstra que é tão possível defender uma tese
como a sua contrária.
Aplicação prática do exposto por: (Perelman, 1987: 234).
A
argumentação (Retórica) de Paulo é distinta da demonstração (lógica),
visto que, a concepção da argumentação insere a noção de auditório "O
conjunto daqueles que o orador quer influenciar mediante o seu
discurso." (Perelman, 1987: 237). O 'auditório' de Paulo é os cristãos,
e ele conhecia os valores e as teses do seu auditório em especial.
Paulo era
versado na Retórica, uma vez que ele não apresenta erros como orador,
que é a petição de princípio, que segundo Perelman é: "Supor admitida
uma tese que se desejaria fazer admitir pelo auditório." (Perelman,
1987: 239-240). Durante as suas exposições, Paulo trabalha as teses e
valores do seu auditório (cristãos), mesmo quando constituído de apenas
uma ou algumas pessoas (cartas pastorais e cartas as igrejas), através
do questionamento, técnica muito utilizada por Sócrates em seus diálogos
platônicos. (Perelman, 1987: 240).
O Capítulo
6 é composto por frases argumentativas, e, portanto, elas não devem ser
consideradas ou confundidas com frases conclusivas ou afirmativas.
Quais as
diferenças entre frases argumentativas, conclusivas e afirmativas? Como
interpretá-las?
Um exemplo
claro de frase afirmativa temos:
"E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz,
e não há nele trevas nenhumas" (I João 1: 5). O apóstolo João é quem
trabalha muito com frase afirmativas, ou por vezes declarativas.
Ao
relembrar a mensagem anunciada por Cristo, João faz menção de uma frase
declarativa e afirmativa: Deus é luz! Tais frases são utilizadas para
evidenciar uma verdade inconteste, ou para declarar algo acerca de
alguém.
Por
exemplo: "Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje e eternamente" Hb 13: 8.
Temos uma verdade e uma declaração acerca de Cristo Jesus. Estas frases
podem ser tomadas de maneira isolada do texto e contexto que não trarão
grande prejuízo ao leitor.
Ao citar
Hb 13: 8 é quase impossível alguém intentar negar a imutabilidade de
Cristo, embora há quem intente.
As frases
afirmativas, declarativas constituem-se premissas que dão
sustentabilidade às frases argumentativas e conclusivas.
O apóstolo
Paulo é dado a linguagem argumentativa, visto que, o seu discurso visa
convencer ou persuadir, seja qual for os seus interlocutores (judeus ou
gentios). Argumentar é fornecer argumentos e razões a favor ou contra
uma determinada tese ou matéria.
A
linguagem de Paulo é segundo a retórica dos Gregos e dos Romanos,
que foi concebida como a arte do bem falar, embora a doutrina apregoada
por Paulo não tenha se firmado em sublimidade de palavras ou de
sabedoria I Co 2: 1. A arte do bem falar é o
falar de modo a persuadir e a convencer através da dialética e tópica,
ou seja, uma arte no conduzir o diálogo e a exposição de temas
controversos.
A arte do
bem falar trabalha com operadores argumentativos que a língua dispõe.
Estes dispositivos são designados operadores e conectivos
argumentativos. Por causa destes operadores argumentativos, os
enunciados de uma frase ou oração, embora tenha uma significação própria
do ponto de vista lógico, acaba por divergir quando analisadas do ponto
de vista argumentativo.
Vejamos o
seguinte exemplo:
a) "Ora, a qual dos anjos disse jamais:
Assenta-te à minha destra até que ponha os teus inimigos por estrado dos
teus pés?"
B) "Não são todos eles espíritos ministradores,
enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?" Hb 1: 13
- 14.
Temos dois
enunciados que se analisados do ponto de vista lógico e argumentativo,
somente o ponto de vista argumentativo faz com que o segundo enunciado
complemente o primeiro. Observe: a pergunta 'b' quando tida como um
enunciado de cunho lógico somente carece de respostas: Os anjos são ou
não ministros enviados a servir em favor dos santos?
Porém,
quando analisadas argumentativamente, os operadores argumentativos
transformam simples premissas que conduzem a uma única conclusão,
diferente do que é próprio a abordagem lógica (verdadeiro - falso).
Desta
forma, verifica-se que o enunciado 'b' exerce somente a função de
enfatizar a divindade de Cristo, sem a pretensão de especificar qual o
'serviço' desenvolvido pelos anjos.
Os operadores argumentativos
aplicados aos enunciados transforma-os em premissas que conduzem a uma
única conclusão, posicionando o enunciado numa certa direção que implicam
em conclusões específicas.
Já os conectores argumentativos são
dispositivos (advérbios, conjunções e locuções de subordinação ou de
conjunção, etc.) que permitem a conexão ou a ligação recíproca de dois
ou mais enunciados. Numa argumentação, os conectores podem ligar as
premissas entre si, as premissas com a conclusão e a conclusão com as
premissas.
Bibliografia:
Retórica e
Argumentação, Paulo Cesar, Universidade da Beira Interior, 95/96.