Capítulo II (v. 15- 21)
A fé em Cristo
15 Nós somos judeus
por natureza, e não pecadores dentre os gentios.
Paulo construiu aqui, uma
frase que
demonstra a falsa superioridade dos judeus.
Por natureza os da
circuncisão eram judeus e pecadores. Sem contradição alguma, pois
todos os homens pecaram em Adão.
A condição de judeu
é determinada pela filiação em Abraão (natural), e não por Deus. Da mesma forma que a
condição de pecadores não decorre de Deus, mas da natureza decaída herdada
de Adão.
16 Sabendo que o
homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus
Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados
pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras
da lei nenhuma carne será justificada.
Paulo enfatiza um
saber comum a
todos cristãos: o homem não é justificado pelas obras da lei, mas
pela fé em Cristo!
Todos os cristãos
creram em Cristo para serem justificados, uma vez que era de
conhecimento que pelas obras da lei ninguém é justificado.
Como a lei não pôde justificar, é
Cristo quem justifica.
17 Pois, se nós,
que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos
achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De
maneira nenhuma.
Todos os cristãos professavam que eram salvos
(justificados) pela fé em Cristo (v. 16), o que leva a concluir que todos
buscaram a Cristo para serem justificados.
Os cristãos estavam professando uma verdade, mas
demonstravam que não entendiam o que era ser justificado em Cristo.
Como os cristãos haviam procurado justificação em Cristo
por meio da fé, e não por intermédio das obras da lei, é certo que
eles haviam deixado de ser pecadores. Não é razoável ser justificado em Cristo,
e ao mesmo tempo permanecer sendo pecador.
Um judeu por natureza é pecador, e se permanecer
separado da vida que há em Deus, será achado pecador. Mas, qualquer homem que se
refugiar em Cristo, for ainda achado pecador, é o mesmo que dizer que Cristo
está sendo ministro do pecado. Que contradição!
O apóstolo não está falando
de comportamento, de condutas errôneas, mas da cadeia, ou da natureza que prende todos os homens
que não tem a Cristo como Senhor.
Paulo é bem claro: Se
após estar em Cristo, o cristão ainda permanecer sendo pecador, ou seja, de
posse da velha natureza herdada em Adão, Cristo
haveria de ser ministro do pecado.
Só em expor este raciocínio, Paulo interpõe uma
ressalva: De maneira nenhuma! Ou seja, o cristão deixa de ser pecador.
Este fato é atestado também pelo apóstolo João: “Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado. Porque a sua semente
permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus” I Jo 3. 9. Por que
o cristão não peca? Porque o homem que creu em Cristo compartilha da natureza
divina II Pe 1: 4.
Se qualquer que é nascido de Deus
não comete pecado, todos quantos não são nascidos de Deus
cometem pecado.
Para ser nascido de Deus é preciso ter a semente
de Deus, isto demonstra que aqueles que não tem a semente de Deus (a palavra do
evangelho), são nascidos da vontade da carne, da vontade do varão e do
sangue Jo 1: 13.
Paulo queria que os cristãos compreendessem que,
se mesmo após serem justificados em Cristo, ainda estivessem necessitados da lei
para serem justificados, ainda estavam em pecado, e Cristo
estaria assumindo o papel de ministro do pecado.
É Certo que Cristo morreu pelos cristãos, sendo
eles (nós) ainda pecadores. Quando o homem aceita a Cristo, ainda está na
condição de pecador. Depois de aceitá-lo, porém, vive
um novo tempo de paz, amor e justiça, pois é uma nova criatura em Cristo
Jesus.
'Noutro tempo' éramos pecadores, hoje,
estamos assentados nas regiões celestiais em Cristo. A condição do Cristão hoje
difere totalmente em essência, da condição de
outrora.
18 Porque, se torno
a edificar aquilo que destruí, constituo-me a mim mesmo
transgressor.
Este versículo
é significativo para a compreensão da salvação.
Paulo estava alertando que, caso os
cristãos voltassem a seguir a lei, estariam se constituindo transgressores.
Não era Cristo que estava lançando fora os
cristãos, antes, eles mesmos estavam lançando mão de conceitos errôneos, que os
levaria de volta a perdição.
O
versículo evidencia que em momento algum a salvação de Deus deixa de ser
efetiva na vida do crente. A salvação em Cristo é poderosa e eterna, e desde que
permaneça em Cristo,
o homem jamais se perderá. Porém, se este mesmo homem voltar a edificar o que
antes havia destruído, voltará a ser transgressor diante de Deus.
O homem deve crer em Deus para ser salvo, porém,
a fé tem uma obra: a perseverança, conforme disse
Tiago.
Aqueles que estão perante o Pai, jamais serão
lançados fora, mas se o homem recuar, há de trazer sobre si perdição.
Se
a salvação fosse segundo a idéia da ‘predestinação’ anunciada pelos
reformadores, ou decorresse de um destino previamente traçado, conforme a
mentalidade humana atina, não haveria a necessidade de alertar os cristãos quanto aos
possíveis desvios. Paulo não precisaria falar em perseverança na fé proposta, e
nem mesmo haveria a necessidade de defender o evangelho.
O que foi destruído por meio da fé em Cristo, e que Paulo fala de sua reedificação? A carne do
pecado por meio do corpo de Cristo. Como e quando ocorre a destruição da carne?
Quando se morre com Cristo, conformando-se com o seu sofrimento, morte e
sepultamento. Em outro lugar Paulo fala da circuncisão de Cristo, que é o
despojar do corpo da carne. Que é o desfazer-se por completo da carne, e não só
do prepúcio Cl 2: 11- 13.
Paulo argumentou que, se torno a edificar o que destruí, acabo por tornar
transgressor, ou seja, o homem volta a condição de antes, pecador e sob o domínio do pecado.
Quando se morre com Cristo e ressurge com ele, a inimizade com
Deus é desfeita através da carne do seu corpo, isto é, pelo novo e vivo caminho
Hb 10: 20.
19 Porque eu, pela
lei, estou morto para a lei, para viver para Deus.
Paulo demonstra
que, perante a lei, ele estava morto, e que não possuía vínculo algum com ela, visto
que o apóstolo já havia morrido com Cristo.
O objetivo de não mais cumprir a lei era o de
viver para a Deus, e não para a lei.
Observe que a própria lei isentava o apóstolo quanto a
sua submissão, visto que
ele estava morto para a lei.
20 Já estou
crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim;
e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o
qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.
Paulo se
considerava morto, uma vez que foi crucificado com Cristo. Observe que a
nossa crucificação é com Cristo, ou seja, juntamente com ele, e não a parte dele.
Mesmo
que milhares de pessoas morreram crucificados, a nossa morte não tem relação
alguns com elas. Há argumentações que tentam demonstrar que a nossa morte é lenta,
conforme a morte de algumas pessoas que foram crucificadas à época de Cristo. Outros tentam
demonstrar que alguns cristãos ainda não morreram, devido ao fato
de que alguns condenados pelo governo Romano eram tirados da cruz pelos seus familiares,
permanecendo vivos, mas tidos como mortos.
Seja anátema tal ensinamento! Cristo diz: “...se não comerdes a carne do
Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmo” Jo 6.
53; II Tm 2. 11; II Co 5. 14; I Co 15. 36. É preciso ser participante da carne e
do sangue, ou seja, morrer com Cristo, e não 'aparte' d'Ele.
Todos aqueles que crêem que Cristo morreu em favor dos pecadores, tornam-se
participantes da morte de Cristo e recebem poder para serem feitos filhos de Deus:
nascidos não da vontade da carne, do sangue ou da vontade do varão, mas de Deus.
A idéia de que a morte do cristão se dá aos moldes da crucificação Romana
não é consistente, visto que a nossa morte é
conforme a morte do Santo Cristo: “Para conhecê-lo, e a virtude da sua ressurreição, e à
comunicação de suas aflições, sendo feito conforme a sua morte” Fl 3. 10.
“Pois, se
nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos
achados pecadores, é por ventura Cristo ministro do pecado? De maneira
alguma” v. 17.
“Se procuramos ser
justificados por Cristo é para que não sejamos pecadores, mas se fomos achados
pecadores mesmo após estarmos com Cristo, Ele tornar-se-ia ministro do pecado. Visto que Cristo não é
ministro do pecado, nós não podemos ser mais tido por pecadores”
Se estamos em Cristo e ainda continuamos sendo pecadores
e necessitados da lei,
só resta desesperança.
O 'Eu' que Paulo utiliza nos versos 19 e 20 é
figurativo, ou seja, representa o velho homem de Paulo. 'Eu' pela lei estou
morto, ou, 'eu' estou crucificado com Cristo. Quando Paulo fala da sua pessoa,
ele enfatiza com a palavra 'mesmo', ou seja: "Eu mesmo' II Co 8: 13; Rm
9: 3.
Paulo (eu) estava morto, e não mais vivia, ou
seja, agora, Cristo vivia nele. Por se uma nova criatura, o que é o mesmo que
estar em Cristo, segue-se que Cristo vivia em Paulo.
A vida que Paulo passou a viver na carne,
apoiava-se em Deus, diferente da vida de outrora, que se apoiava na lei e nas
tradições de seus pais.
21 Não aniquilo a
graça de Deus; porque, se a justiça provém da lei, segue-se que
Cristo morreu debalde.
Deus é fiel e jamais retira a sua salvação de sobre os seus servos
A
graça de Deus, de maneira alguma será retirada, visto que ele é fiel e poderoso
para suster os seus servos Rm 8. 31- 39. Em Deus a salvação é eterna! Deus jamais encolherá a sua
mão quanto ao propósito de salvar.
Mas esta passagem é peculiar: Deus é fiel e poderoso para cumpri o que
prometeu, mas é possível ao homem aniquilar a graça de Deus?
Paulo argumenta que Ele não aniquilaria a graça recebida, visto que não
mais se
utilizava da lei para se justificar. Se Paulo não anula a graça, verifica-se que o homem pode rejeitar a
graça de Deus quando lança mão da lei para se justificar
“...da graça tendes caído” Gl 5. 4.
Paulo vai além: se alguém considerar que a justiça vem da lei, está
dizendo que a morte de Cristo foi em vão.
O verso 21 soma-se ao
18: Se torno a edificar aquilo que destruí, anulo a graça de Deus!