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Capítulo V (v. 17)
Duas Naturezas?
17 Porque a carne
cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes
opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis.
O Dr. Bancroft, seguindo uma tendência teológica da atualidade, deixou
registrado o seguinte: "Apesar de que o homem regenerado
não se encontre na esfera da carne, ainda possui a carne (Gl 5: 16, 17).
A nova natureza, recebida na regeneração, não expele, nem destrói nem
desenraiza a antiga natureza. As duas co-existem. A velha natureza
esta presente, mas seus feitos devem ser mortificados por intermédio do Espírito
(Rm 8. 13). A carne está sempre presente, mas não estamos debaixo do seu
domínio" Bancroft, Emery H., Teologia Elementar, 10ª Impressão 2001,
ed. EBR, Pág. 234 (Grifo
nosso).
Para a nossa análise, destacaremos alguns
elementos da abordagem do Dr. Bancroft. O que é esfera da carne? A nova natureza
é recebida? Qual a relação entre Regeneração e nova natureza? É possível duas
naturezas em um único homem? É possível livrar-se do domínio da carne, e mesmo
assim permanecer vinculado a carne?
Quando Emery diz que 'apesar de o regenerado não estar na esfera da carne, ainda
possui a carne', o que ele entende por 'esfera da carne' e 'possuir a carne'? A
bíblia demonstra que na Regeneração ocorre a criação de uma nova natureza, e o
homem passa a ser participante da natureza divina, porém, como o homem permanece
neste mundo, conforme a oração de Cristo ao Pai, é certo que o homem regenerado
continuará de posse de um corpo composto de carne II Pe 1: 4; Jo 17: 15.
Apesar de um corpo constituído de carne, o novo homem gerado segundo Deus, é
espiritual, visto que os que são nascidos do Espírito, são espirituais Jo 3: 6.
Não é porque o homem possui a carne (corpo) que ele ainda encontra vinculado a
antiga natureza herdada em Adão (carne).
Emery afirma que o homem recebe uma nova natureza na Regeneração. Segundo o que
a bíblia demonstra, verifica-se que a Regeneração decorre do poder de Deus que
cria um novo homem, com uma nova natureza: a divina. A Regeneração decorre da
semente incorruptível, que é a palavra e o poder de Deus, onde os que crêem
recebem poder para serem feitos filhos de Deus I Pe 1: 23; Jo 1: 12.
Desta forma, verifica-se que a nova natureza não é recebida, antes decorre da
nova criação, onde os filhos de Deus são gerados participantes da natureza
divina. Não há como a velha natureza subsistir na Regeneração, pois a bíblia é
clara: "Eis que tudo se fez novo" II Co 5: 17.
Como co-existir duas naturezas no Regenerado, sendo ele filho da Luz? É possível
trevas no templo onde Deus habita? Fica claro que não é possível co-existir no
homem a natureza carnal quando se lê: "Toda planta que o Pai não plantou, será
arrancada" Mt 15: 13.
O homem em Cristo é livre porque o antigo senhor não tem poder ou direitos sobre
aquele que conformou-se com Cristo na morte Rm 6: 6. Que se dirá da nova
criatura que com Cristo ressurge dentre os mortos. Que relação há entre a
natureza herdada de Adão, com a natureza herdada de Cristo?
Após esta breve análise, verifica-se que Gálatas
cinco, dezessete,
não comporta a idéia de que o homem Regenerado possui duas naturezas!
Não é possível duas naturezas no homem. Se fosse
possível duas naturezas no homem Regenerado, também seria possível duas
naturezas no velho homem.
Seguindo a linha de raciocínio acima, há um livreto chamado Qualidade de Vida
Interior que diz: "Porém, dentro do homem há também uma
'natureza maligna' que se opõe à 'natureza benigna'. A esse choque de
'naturezas', a filosofia oriental chama de 'guerra entre a razão e a
concupiscência'. Em todos os tempos e lugares, os conhecedores da natureza
humana reconhecem esta realidade, esse conflito interior que, em maior ou menor
grau, todos experimentam diariamente. A essa natureza maligna, que se opõe à
natureza benigna que existe em nós, a Bíblia chama de pecado" Serrat,
Fernando B. Monte, Qualidade de Vida Interior, ed Árvore da Vida, 3º Ed., Pág.
19 (grifo nosso).
Observe que Serrat procura bases para a sua
argumentação na filosofia oriental. Fica o alerta: é extremamente perigoso
adotar conhecimento humano para explicar verdades bíblicas. A tendência do mundo
é buscar sabedoria, mas o evangelho é loucura para os que perecem. O que
demonstra que não dá para conciliar o evangelho com sabedoria humana I Co 1: 22-
23.
A bíblia não apresenta meio termo: o homem, ou é carnal, ou é espiritual.
É nascido de Adão, ou é nascido de
Deus. É vaso para desonra, ou é vaso para honra. É planta plantada pelo Pai, ou
não é.
A oposição que Paulo apresenta aos cristãos entre carne e Espírito
não ocorre no interior do novo homem em Cristo.
Para compreender a oposição entre carne e Espírito, é preciso reler o versículo vinte e nove do capítulo
quatro de Gálatas: "Mas, como então o que nasceu segundo a carne perseguia ao
que nasceu segundo o Espírito, assim é também agora" Gl 4: 29.
A declaração de Paulo no versículo 17 do capítulo
5, decorre de uma evolução de idéia que iniciou-se em capítulos anteriores, e
figura como explicação a determinação do versículo anterior. Por razões pertinentes ao versículo 17 e que foi dito o versículo
16, e não o contrário.
Do texto é preciso destacar:
-
A palavra ‘Espírito’ no versículo
17 designa o Espírito de Deus, e não o
espírito do homem;
-
A palavra ‘carne’ no verso 17 não
nomeia o corpo do homem, antes, refere-se ao velho
homem ou a natureza que o gerou;
-
Por que carne e Espírito se
opõem, ou desejam o que é contrário? “Estes se opõe” porque é da natureza do Espírito de Deus dar
vida e vida com abundância. Já a natureza da carne é produzir morte, o que é
totalmente oposto ao Espírito de Deus;
-
Gálatas 5: 17 não tem relação alguma com o que Paulo expõe
em Romanos 7, verso 23;
-
A batalha do cristão é contra as força espirituais da
maldade nas
regiões celestes, conforme Ef 6. 12, e não uma luta interior. Primeiro porque o
cristão adquire paz
com Deus, que purifica de todo pecado e cria um novo homem (fez) agradáveis no Amado.
O cristão é gerado para uma viva esperança, que o torna filho e
participante da natureza divina. Em segundo lugar, a paz
de Deus alcança o homem interior, estabelecendo a paz com Deus e consigo mesmo;
-
O pecado para o homem regenerado é um elemento externo,
uma vez que ele
“tenazmente nos assedia” Heb 12. 1. O pecado não mais habita no crente;
-
Não é bíblico dizer que no novo homem há
'tendências' para o mau, pois Deus
é luz, e nele não há treva alguma. No templo do Espírito não há
nem mesmo sombra do mau;
-
Não é bíblico dizer que o pecado
não reina, mas que habita
no crente, visto que, aqueles que são nascidos de Deus possuem ou são participantes da
natureza divina, e Deus não gera trevas;
-
Não é bíblico dizer que o cristão possui duas naturezas
contrárias, uma herdada em Adão e outra adquirida em Cristo, visto que,
necessário é nascer de novo (regeneração); ou melhor, ante é necessário
conformar com Cristo na sua morte;
Paulo no verso 17 somente expõe que a carne, ou
seja, a velha natureza, possui
vínculo com o pecado e com a morte. A carne tende para a morte, pois não pode
ser sujeita a lei de Deus , pois tal natureza teve origem na queda de Adão "Porquanto
a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é
sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser" (Romanos 8: 7).
A
inimizade da carne é contra Deus, ou seja, opõe-se a Deus, e não ao
novo homem em Cristo. Isto porque é desejo do
Espírito de Deus gerar filhos para
si, segundo o seu eterno poder. Neste aspecto, a vontade da carne
é antagônica a vontade do Espírito.
A carne e o Espírito opõem-se um ao outro,
ou segundo outra tradução, um cobiça contra o outro, e o
objeto desta cobiça, deste desejo, é o homem. A posição carne e Espírito não ocorre no
interior do novo homem, como muitos teólogos defendem.
A oposição
que Paulo demonstrou é proveniente da idéia apresentada no capítulo
anterior, onde ele demonstrou que o que nasceu segundo a carne
perseguia o que era nascido segundo a promessa.
Considerando que há duas portas e dois caminhos, sendo uma porta
estreita e um caminho estreito, uma porta larga e um caminho largo,
e que a porta de entrada para estes dois caminhos se dá através do
nascimento Mt 7: 13. A entrada no caminho largo e que conduz a
perdição é proveniente do nascimento segundo a carne, proveniente da
natureza herdada em Adão. A porta de entrada no caminho estreito
decorre do novo nascimento, que é segundo o Espírito e da palavra de
Deus (semente incorruptível).
A
oposição entre carne e Espírito ilustra a
conquista de novos membros para o reino de Deus.
Da mesma forma que Ismael perseguiu a Isaque, que foi gerado segundo a
promessa, havia uma perseguição dos judaizantes contra os cristãos.
A oposição não fica somente na
alegoria, ou na intriga entre judaizantes e cristão, antes, ela tem
início na oposição carne versos Espírito.
Por que carne e Espírito se opõem? Paulo conclui: “...para que não façais o que quereis”. Outra tradução reza:
“...de maneira que não façais o que quereis”.
A carne e o Espírito se opõem na
condição de senhores, buscando o serviço daqueles que submeteram a
'eles'. Não fazer o que deseja é conseqüência do viver no Espírito,
da mesma forma que, o homem que vive sujeito ao pecado não consegue
fazer o 'bem' que deseja.
Deste versículo em diante, Paulo
passa a trabalhar um outro ponto doutrinário, o renovar-se pela
transformação do entendimento. Apesar do cristão ser uma nova
criatura, por ter sido de novo gerado pela semente incorruptível, o
única elemento que pertencia ao velho homem, e que passa ao novo
homem, é a mente com suas lembranças e compreensão do mundo.
O que
a mente do novo homem ainda tem em foco e acaba por desejar? Continuar
comportando-se em conformidade com a velha natureza que foi morta
com Cristo. A mente do novo homem continua a mesma de outrora, e falta
ao novo homem trabalhá-la,
para que possa executar as coisas pertinentes ao Espírito, e não as coisas
decorrentes da velha natureza, que já esta morta.
'Andar no Espírito' diz da nova responsabilidade do
cristão em comportar-se a
altura daquilo que adquirimos em Cristo. O cristão não deve fazer ‘o
seu querer’, antes o querer do Espírito. Se os Gálatas assim agissem, não
estaria devorando um ao outro, mas servindo uns ao outro em amor, pois este é o
mandamento ordenado por Deus.
A vontade de Deus é que o cristão viva neste presente século de maneira sóbria,
justa e piamente. Para esta nova vida, a lei que disciplina a conduta do
cristão até que o que é morta se revista da imortalidade é o amor Tt 2. 12.
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