A Carta de Paulo aos

Gálatas

 

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Capítulo V (v. 15- 16)

 

O Andar na Carne e o Andar no Espírito

15 Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede não vos consumais também uns aos outros.

Havia dissensão entre os cristãos e Paulo para convencê-los a comunhão em torno do evangelho, utiliza-se de dois argumentos:

1.      Aqueles que estavam firmes no evangelho tinha o dever de servir os outros cristãos em amor. Para isso, eles não podiam deixar se levar por atitudes da velha natureza. Eram livres, libertos da carne, mas não poderiam deixar que o comportamento pertinente a antiga natureza se perpetuasse. Paulo traz a lembrança que o serviço do cristão é em amor;

2.      Mas, havia aqueles que estavam inquietando os cristãos, e com isso promovendo as desavenças por causa da observância dos preceitos da lei. A estes, o apóstolo demonstra que viver a lei, é viver em amor. Um dos princípios do evangelho é um resumo da lei de Moisés.

Daí advém o aviso: se continuassem a desavença, possivelmente acabariam por se extinguirem.

 

16 Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne.

Diante do quadro de desavenças, Paulo demonstra a solução: Andai no Espírito!

Dai surge a questão: como se anda no Espírito?

A mensagem da carta aos Gálatas foi direcionada a um público cristão. Percebe-se que havia uma dissensão no seio da comunidade entre os cristãos por causa da guarda de aspectos da lei imposta pelos judaizantes.

Na primeira parte da carta, o apóstolo aplica-se em demonstrar as falhas dos argumentos dos judaizantes. Agora ele estava a tratar da discórdia e disputa que passou a existir entre os cristãos.

Os que estavam 'mordendo' e 'devorando' uns aos outros eram cristãos Gl 5: 15, ou sejam, eles já eram participantes do evangelho de Cristo, e haviam recebido poder para serem feitos filhos de Deus Jo 1: 12. A necessidade dio novo nascimento já tinha sido resolvida, pois eram nascidos da Água e do Espírito.

Todos eles eram espirituais, conforme Paulo demonstra: "Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, corrigi o tal com espírito de mansidão. Mas olha por ti mesmo, para que não sejas tentado" Gl 6. 1. Ser espiritual não decorre da isenção de 'ofensas', pois até mesmo os espirituais devem estar atentos, pois estão sujeitos a erros. A condição de espiritual decorre de ser nascido do Espírito Eterno, ou seja: aquele que é nascido do Espírito, é espírito Jo 3: 6.

Todos os que creram eram nascidos de novo, mas estavam em desavença devido a persuasão que não advinha de Deus (v. 8).

'Andar no Espírito' refere-se as questões comportamentais, visto que, aqueles que nascem de Cristo precisavam andar conforme as pisadas do Mestre. Ao nascer de novo (REGENERAÇÃO), o cristão passa a viver em Deus (no Espírito), entretanto, precisa andar no Espírito (COMPORTAMENTO).

Os cristãos haviam adquirido uma nova natureza por estarem em Cristo, porém, não estavam portando-se de maneira digna da nova natureza "Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito" Gl 5: 25.

Em primeiro lugar, o homem é gerado do Espírito. Tem-se o novo nascimento, que livra o homem da condenação que pesa sobre todos os homens sem Cristo. Esta nova criatura é criada à imagem e semelhança de Cristo. É concedido a plenitude de Cristo, pois o homem passa a ser participante da natureza divina. Desta forma o cristão é verdadeiramente um dos filhos de Deus, pois nasceu segundo a vontade de Deus. Por ser concedido poder para ser criado um dos filhos de Deus, o cristão ganha a idoneidade de ser participantes da herança dos santos na luz. Tudo isto é proveniente da fé em Cristo.

Após tudo o que foi providenciado aos que crêem, como se vê acima, o cristão deve se portar de maneira digna da vocação. O cristão foi chamado para ser um dos filhos de Deus (não há outro destino para os que crêem), e, portanto, é convocado a andar como filho de Deus. Ao nascermos de novo, vivemos no Espírito, porém, é preciso andar no Espírito.

 

Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne.

Quando se acata a determinação do apóstolo que é: 'andai no Espírito', o cristão deve compreender também que não se pode acomodar em cumprir com a concupiscência da carne.

Aqueles que não nasceram de novo, estão mortos em delitos e pecados. Vivem para o mundo e cumprem o que determina a natureza pecaminosa. Estão vinculados à pratica do pecado por um princípio que os detém, a natureza decaída.  Esta condição é designada de escravidão, pois não é possível ao homem livrar-se de tal natureza.

Quando a bíblia aponta a figura da escravidão do pecado, ela faz referência a elementos deste sistema de dominação que existia no passado. Da figura da escravidão destacamos que:

a) O escravizado não pode libertar-se por si mesmo;

b) Toda a produção do escravo pertence ao seu senhor;

c) Um escravo não serve a dois senhores.

Estes princípios regiam os sistemas escravocratas da antiguidade, e quando a bíblia diz que o homem é escravo do pecado, ela procura evidenciar que o homem não pode libertar-se da sua natureza pecaminosa herdada em Adão. Por causa desta realidade, resta ao homem esperar em Deus, que pela fé conforma-se com Cristo na sua morte, fazendo com que a velha natureza dominada pelo pecado desça a sepultura.

Ao morrer com Cristo, o homem deixa de ser escravo do pecado, e é criado novamente, um novo homem, que passa a condição de servo da justiça.

Enquanto o homem viver para o pecado, não há como ele produzir algo para Deus, visto que toda a produção do escravo pertence por direito ao seu Senhor. Se o senhor tem poder sobre a existência do seu escravo, quanto mais sobre aquilo que ele produz. Somente após morrer com Cristo, é que o homem para de produzir para o seu antigo senhor, o pecado. Agora, de posse da nova natureza participante da natureza divina, o homem passa a ter vínculo e produzir para Aquele que o libertou.

É por isso que o resgate da humanidade foi com preço de sangue. Era impossível resgatar a humanidade através de valores econômicos ou morais. O pecado não coloca os seus escravos à venda. Somente a morte deles com Cristo pôde livrá-los da servidão.

Não há como dar uma determinação: 'não satisfaça à concupiscência da carne' àquele que não é nascido de novo. Não há como um servo do pecado acatar as determinações pertinentes aos servos da justiça. Tal determinação só é válida aos nascido de novo, que vivem no Espírito. Estes servem ao Senhor, e tudo o que produzem será reclamado pelo novo Senhor. Os servos da justiça reúnem em si as condições necessária a não cumprir com as concupiscências da carne.

Tudo o que o novo homem em Cristo produz, produz para o seu Senhor. Esta verdade pode ser observada nas declarações de Paulo: "Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz e o que não faz caso do dia para o Senhor o não faz. O que come, para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e o que não come, para o SENHOR não come, e dá graças a Deus" (Romanos 14: 6).

"16 Digo porem, andae em Espirito. E não cumprais a concupiscencia da carne."

Traduzida em Portuguez pelo Padre João Ferreira D'Almeida, Ministro Pregador do Sancto Evangelho em Batavia. Londres: Impresso na officina de R. E A. Taylor. 1819.
ou

JOÃO FERREIRA A. D'ALMEIDA. REIMPRESSO DA EDIÇÃO DE 1693, REVISTA E EMEMDADA.
NOVA YORK: SOCIEDADE AMERICANA DA BÍBLIA, 1848.

Tradução extraída do site da SBB
.

 

Gosto desta tradução por ser antiga, o que a torna isenta das tendências doutrinárias da atualidade por parte do tradutor.

Uma outra tradução assim reza: “Digo porém, andai em Espírito. E não cumprais a concupiscência da carne”.

A compreensão dos teólogos da atualidade é que, se o homem cumprir a primeira determinação que é: 'andar no Espírito', a segunda condição será satisfeita automaticamente: não cumprirá com o que é pertinente a carne.

Antes de nos posicionarmos, faz-se necessário demonstra que tanto o Espírito de Deus, quanto a carne, são considerados pelo apóstolo como agentes externo ao homem.

Aquele que é nascido da carne ou do Espírito, passa a ser participante da natureza que o gerou "O que é nascido da carne, é carne, mas o que é nascido do Espírito, é espírito" Jo 3: 6. A carne como 'agente externo' ao homem, somente gera homens carnais e que vivem segundo as concupiscências da carne.

Por sua vez, o Espírito de Deus gera homens espirituais, que após ser gerado, deve passar a não cumprir com o que era ditado pela antiga natureza.

Ao nascerem, os homens vem ao mundo vinculados à carne, à natureza de Adão. O nascimento é a porta de entrada para os dois caminhos, tanto para a perdição, quanto para a salvação. Os nascidos da carne estão debaixo da condenação em Adão que pesa sobre todos que vêem ao mundo. Estes são plantas que o Pai não plantou, e que serão arrancadas Mt 15: 13.

Os nascidos do Espírito alcançam nova vida por intermédio de Cristo, através da fé, e passam a condição de homens espirituais.

Estes conceitos nada têm a ver com os elementos imateriais que constituem o homem. O ser carnal não tem vínculo com o corpo do homem, da mesma forma que ser espiritual não tem vínculo o espírito do homem, e sim, em ambos os casos, vincula-se ao nascimento. Não é o espírito do homem que o faz espiritual, e não é o corpo do homem que o faz carnal.

Ser espiritual e ser carnal diz de qual vontade o homem, que é composto por corpo, alma e espírito, foi gerado “filhos nascidos não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas da vontade de Deus” Jo 1. 13.

Estes conceitos são complementados com a idéia de que o oleiro pode fazer de uma mesma massa, vasos para honra e vasos para desonra. Os vasos para desonra são criados em Adão e todos os homens nascem nesta condição. Os vasos para honra são criados por Deus da mesma massa que era formado os vasos para desonra. Eles são feitos (criados) em Cristo.

Por fim, é preciso considerar o porquê o versículo apresenta duas frases com idéias e ordens distintas:

A primeira frase ordena que o cristão ande no Espírito. Já a segunda diz para não cumprir com as concupiscências da carne. São duas ordens distintas, sendo que a segunda ordem não é conseqüência da primeira.

As traduções recentes não enfatiza esta idéia, antes parece demonstrar que a satisfeita a primeira condição, a segunda é conseqüência: “Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne” Rm 5. 16 (ARC).

 

 

 

Claudio Crispim

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