A Carta de Paulo aos

Gálatas

 

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Capítulo V (v. 1- 6)

 

A Liberdade em Cristo

 

1 ESTAI, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão.

Paulo procura demonstrar aos cristãos da Galácia que o evangelho de Cristo trouxe plena liberdade. A condição alcançada em Cristo é totalmente diferente da condição daqueles que vivem debaixo da lei.

A pior escravidão que o homem está submetido é a escravidão do pecado realçado pela lei. O pecado em questão refere-se à natureza humana decaída e herdada em Adão. É por causa desta natureza caída que o homem tornou-se escravo do pecado, visto que, por mais que queira mudar a sua própria natureza, é impossível aos homens livrarem-se dela.

Sobre este aspecto disse Ezequiel: "Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo acostumados a fazer o mal" (Jeremias 13: 23), ou seja, da mesma forma que o etíope e o leopardo não tem poder para mudar a sua natureza, os homens não conseguem mudar a sua natureza caída. Por isso não há quem faça o bem, por causa da natureza decaída. Não há como a árvore má produzir frutos bons.

A conduta do homem decaído não é a causa do pecado, antes a conduta pecaminosa decorre da natureza decaída. Não é a conduta que prende o homem sob a escravidão do pecado, e sim, a natureza decaída.

Por cauda da natureza herdada de Adão, todos os homens sem Cristo eram:

  • Inimigos de Deus por natureza;
  • Pesava sobre eles o juízo e a condenação de Deus;
  • A lei somente evidencia quão perniciosa é a natureza pecaminosa;
  • A condição do pecador é designada como: filhos da desobediência, filhos da ira, filhos do diabo, escravos do pecado, etc.

Cristo livra o homem que crê da velha natureza herdada em Adão, que o tornava ‘filhos da ira e da desobediência’, concedendo uma nova natureza, a natureza divina, pela qual passa a ser “filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” Gl 3. 26; "...para que por elas vos torneis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção..." II Pe 1: 4.

O livramento concedido em Cristo torna os cristãos filhos "...E somos mesmo seus filhos!" I Jo 3: 1, isentando-os da lei. A lei só alcança aqueles que vivem segundo a velha natureza, ou seja, vivem segundo a carne, mas, todos os que são gerados de novo em Cristo, são gerados do Espírito, e a lei não pode alcançá-los “Pois eu pela lei estou morto para a lei...” Gl 2. 19.

Observe que o pronome 'eu' refere-se a velha natureza de Paulo, e não ao Paulo regenerado em Cristo, que geralmente vem especificado da seguinte forma: 'eu mesmo', ou 'eis que eu, Paulo' (v. 2).

Paulo deixa bem claro que em Cristo há liberdade plena. O cristão é livre da natureza pecaminosa, pois morreu com Cristo “Estou crucificado com Cristo...” Gl 2. 20, e a evidência desta liberdade verifica-se quanto à isenção da lei.

Paulo recomenda aos cristãos que permaneçam firmes na liberdade dada por Cristo, pois o perigo da escravidão estava a rondá-los de perto.

 

2 Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará.

Após realçar o fato da liberdade em Cristo, o apóstolo retoma a defesa do evangelho e procura conscientizar os cristãos.

Paulo solicita firmeza e convicção ante o que fora recebido, o que implicaria em não voltarem a submeterem a escravidão.

Com relação ao circuncidar-se, os cristãos estavam se submetendo a um julgo da escravidão, ou seja, caso executassem algumas das determinações da lei, estavam submetendo-se novamente ao julgo de um antigo e maldoso senhor.

Se continuassem a submeterem-se aos caprichos da lei, acabariam por voltar a serem escravos do pecado. Deixariam de viver pela fé a plena liberdade em Cristo, e passariam à escravidão, sob o tutor e curador que é a lei.

O alerta quanto ao perigo dos cristãos voltarem a estar debaixo da escravidão da lei, e por conseqüência, do pecado, demonstra que é possível ao cristão lançar fora o que alcançou gratuitamente por estar em Cristo.

Isto não significa que Deus deixou de cumprir com a sua promessa, antes, cumpre-se a palavra que diz: “...se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele” Hb 10. 38b.

Cristo liberta o homem e é fiel para conservá-lo nesta posição I Co 1: 8; Fl 1: 10; I Pe 5: 10; I Ts 5: 23- 24, sendo certo que, mesmo diante da incredulidade do homem, Deus permanece fiel "Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?" (Romanos 3: 3).

Porém, o homem quando tem um coração incrédulo, abandona a fé e volta a se submeter ao antigo senhor, o pecado. Volta a colocar-se à disposição do julgo da escravidão. Para estes, Cristo de nada aproveita "Tendo já a sua condenação por haverem aniquilado a primeira fé (...) Porque já algumas se desviaram, indo após Satanás" (I Timóteo 5: 12 e 15).

3 E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei.

Este versículo é um exemplo prático do que é estar debaixo do julgo da escravidão da lei: é obrigatório guardar toda a lei. Caso o homem venha a tropeçar em um único ponto da lei, torna-se culpado de todos Tg 2: 10.

A atitude de aceitar a circuncisão demonstra com clareza a falta de fé na obra redentora de Cristo. Qualquer atitude apoiada na lei, como elemento de se aproximar de Deus, é errônea, e nada tem a ver com o evangelho de Cristo, que dá uma nova natureza regida pela lei do Espírito de Deus, que é o amor.

Por isso Jesus alertou: “Quem crê em mim, como diz as escrituras...” Jo 7. 38. Se houver outra crença que não seja em conformidade com o que Cristo revelou, de nada adiantará.

 

4 Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído.

Muitos queriam ter o benefício da liberdade que há no evangelho de Cristo, mas queriam acrescentar alguns aspectos exteriores da lei, e novamente o apóstolo reitera que a circuncisão exclui o benefício do calvário, deixando o homem a mercê da lei.

A importância do assunto é tão relevante que o apóstolo reitera o pensamento insistentemente.

Qualquer um que tenha esperança de ser justificado através das obras da lei, separado está de Cristo. Não é participante da graça de Deus. Não compartilha da bem-aventurança que é proveniente do Descendente.

 

5 Porque nós pelo Espírito da fé aguardamos a esperança da justiça.

É possível enumerar as conseqüências funestas para aqueles que tentam se apoiar na lei:

1.      Têm um julgo a carregar, pois são escravos do pecado;

2.      Sem Cristo perde-se a filiação de Deus, ou a idoneidade;

3.  É obrigado a cumprir toda a lei, e por isso mesmo, vive sob maldição "Porém a maldição, se não cumprirdes os mandamentos do SENHOR vosso Deus, e vos desviardes do caminho que hoje vos ordeno, para seguirdes outros deuses que não conhecestes" (Deuteronômio 11: 28);

4.      Caiu da graça de Deus.

O homem não consegue viver a altura da lei por terem naturezas diferentes: a lei é espiritual e o homem carnal, o que torna impossível ao homem cumprir com as exigências da lei. Está vazio de Cristo.

 

6 Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor.

Quando ligado a Cristo, qualquer elemento proveniente do homem perde o seu significado e valor. Não é a religião, não é a nação, e não é a origem que torna o homem agradável diante de Deus. Diante de Deus tanto judeu quanto grego estão em iguais condições, uma vez que todos precisam nascer de novo. 

“O que importa é a fé que opera pelo amor”.

O apóstolo exclui qualquer outro artifício para se achegar a Deus. O que importa, o que tem valor diante de Deus é a fé. Deus não faz distinção diante daqueles que tem fé. Ele olha tanto para o judeu quanto para o grego que tem fé, e a prova disto está no pai Abraão, que foi justificado pela fé, quando gentil e incircunciso.

Nenhum elemento humano é considerado para se alcançar a graça divina.

A fé tem efeito mediante o amor de Deus. É o amor de Deus a base de operação da fé. É pelo amor de Deus que, mediante a fé, o homem alcança ser uma nova criatura Gl 6. 15, o que torna capaz de observar os mandamentos de Deus I Co 7. 19.

Sobre este aspecto o apóstolo João diz: "Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou" I Jo 3: 23.

Até mesmo o amor que demonstramos aos nossos semelhantes, só tem valor diante de Deus quando segundo o mandamento ordenado: crer naquele que Ele enviou. Amor segundo qualquer outro seguimento doutrinário, ou religioso, não é o amor que a fé opera.

 

 

 

Claudio Crispim

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