A Carta de Paulo aos

Efésios

 

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Pág. 18

Introdução

O apóstolo Paulo do capítulo 1 ao 3 foca a abordagem da carta em pontos doutrinários e essenciais a vida cristã.

No capítulo 4 o apóstolo passa a abordar algumas questões comportamentais. Isto vemos nos versos 1 à 3, 17 à 19 e 25 à 32. Porém, ao fazer recomendações de ordem comportamental, Paulo intercala abordagens de cunho doutrinário.

  

Capítulo IV (v. 8- 15)

8 Por isso diz: Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, E deu dons aos homens.

Este versículo decorre da argumentação do versículo anterior, ou seja, o apóstolo apresenta o Salmo 68: 18 para demonstrar que a graça concedida a cada cristão é segundo a medida do dom de Cristo, e não segundo as características peculiares a cada cristão.

Paulo demonstra que o Salmo 68, verso 18 refere-se a Cristo, o único homem dentre os homens que subiu ao alto. Sobre esta 'façanha' do Cristo, o livro de Provérbios também contém a seguinte citação: "Quem subiu ao céu e desceu? (...) Qual o seu nome e o nome do seu Filho, se é que o sabes" Pv 30: 4.

Moisés ao falar ao povo de Israel também fez referência ao 'subir ao alto': "Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga, e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos" Dt 30: 12.

A forma como Paulo introduziu este verso demonstra que o Salmo 68, verso 18, refere-se a obra redentora de Cristo, ou seja, quando Cristo subiu ao alto após a ressurreição, a graça de Deus foi concedida a cada um dos homens.

Sabemos que Cristo subiu aos céus e assentou-se à destra da Majestade nas alturas, porém, o que significa 'levou cativo o cativeiro'? Muitos entendem que o cativeiro refere-se a um lugar onde os salvos na Antiga Aliança permaneciam após a morte. É plausível esta idéia?

Observe que o fato de Cristo ter levado cativo o cativeiro é que concedeu-lhe autonomia de conceder dons (graça) aos homens. Isto por si só demonstra que o 'cativeiro' não é um lugar.

Sabendo que Cristo subiu ao alto após ressurgir dentre os mortos, e que a graça de Deus é efetiva sobre aqueles que ressurgem com Ele, isto demonstra que o cativeiro refere-se à morte em Adão.

A humanidade era cativa da morte e tinha o pecado como seu aguilhão por causa da desobediência de Adão. Ao ressurgir dentre os mortos, Cristo estabeleceu um novo e vivo caminho pelo qual os homens têm acesso a Deus. O cativeiro foi levado cativo, ou seja, o opressor (morte) da humanidade foi vencido.

É na morte e na ressurreição de Cristo que a graça (dons) de Deus é concedida aos homens, ou seja, 'levar cativo o cativeiro' refere-se à vitória de Cristo sobre a morte. 

 

9 Ora, isto ele subiu que é, senão que também antes tinha descido às partes mais baixas da terra?

Para aqueles que ainda não haviam entendido o que o Salmo queria expor, Paulo demonstra que 'subir' refere-se ao caminho inverso que levou o Cristo até as entranhas da terra.

Para aqueles que já tinham entendido que Cristo desceu, habitou entre os homens, assumiu a condição de servo, foi fiel até a morte e desceu à sepultura, 'subir' significa de pronto o retorno à glória que Jesus tinha antes de haver mundo, junto com o Pai.

O que se observa neste verso é que Paulo fez referência somente à morte física de Cristo, sem qualquer alusão ao Hades. Este trecho da carta concorda com o exposto no Salmo 16: "Portanto está alegre o meu coração e se regozija a minha glória; também a minha carne repousará segura. Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção. Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente" Sl 16: 9- 11.

O Salmo 16 apresenta o Messias confiante e alegre quanto ao destino do seu corpo e alma: o corpo não ficaria sujeito à corrupção e a alma não ficaria abandonada no Hades.

Por fim, o Salmo demonstra que o destino final do Messias é o alto, assentado à mão direita de Deus.

 

10 Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para cumprir todas as coisas.

O apóstolo demonstra que o mesmo Jesus que desceu à sepultura, é o mesmo que ressurgiu e subiu aos céus.

Este versículo apresenta a mesma idéia dos versículos 20 à 21 do capítulo 1 da carta aos Efésios "... que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e fazendo-o assentar-se à sua mão direita nos céus, acima de todo principado, e autoridade, e poder, e domínio, e de todo nome que se nomeia..." Ef 1: 20- 21. 

 

11 E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores,

Se houver dúvidas sobre a argumentação apresentada neste capítulo, leia também I Coríntios 12: 1- 11, que trata das mesmas questões apresentadas aos cristãos de Éfeso.

Os cristãos que compreendem, que para guardar o vínculo da paz é preciso SUPORTAR uns aos outros em amor, primeiramente compreenderam que a salvação (graça) foi concedida segundo à medida da graça de Cristo, e não conforme os dons concedidos.

Os apóstolos não receberam uma graça maior que os profetas, da mesma forma que os pastores e doutores não são inferiores e graça, se comparado aos apóstolos. Todos os cristãos, não importando o dom que tenham recebido, receberam de Cristo graça segundo uma mesma medida.

Ao distribuir diferentes dons à igreja, isto não quer dizer que Deus teve alguém em preferência, antes, o objetivo dos diferente dos concedidos é o aperfeiçoamento dos santos "Mas um só, e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, distribuindo particularmente a cada um como quer" I Co 12: 11.

 

12 Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo;

Demonstramos anteriormente que o novo homem em Cristo é prefeito, ou seja, todos os cristãos são perfeitos em Cristo. Mas,  que entender através deste verso, se ainda é necessário o aperfeiçoamento dos santos? É possível aperfeiçoar a condição de 'santo'?

Em primeiro lugar é necessário observar o contexto do verso acima, que fixa-se em demonstrar qual deve ser o comportamento de cada membro do corpo de Cristo. Desta forma, perceber-se que, o que precisa ser aperfeiçoado é o comportamento dos cristãos, e não a condição alcançada em Cristo: santo.

Somente faz parte do corpo de Cristo aqueles que uma vez creram (uma só fé) e conformaram-se com Cristo na sua morte, e ressurgiram uma nova criatura através do poder de Deus. Este novo homem gerado em Cristo é santo e irrepreensível diante de Deus, sendo, portanto, perfeitamente santo.

A condição de santidade não precisa ser aperfeiçoada, uma vez que quem santifica é Deus, e a sua obra é prefeita e completa. Agora, o aperfeiçoamento daqueles que adquiriram uma nova condição diante de Deus (santo) diz respeito ao exercício do ministério.

A condição de santo não precisa de aperfeiçoamento, mas a atuação ou comportamento quanto a incumbência de edificar o corpo de Cristo (igreja), precisa de aperfeiçoamento. Visando o aperfeiçoamento no desempenho do ministério é que foi comissionado alguns dos membros do corpo de Cristo à condição de apóstolo, profeta, evangelista, pastores, doutores, etc.

Um pastor não desempenha a função de promover a santificação, pois quem santifica é Cristo. Porém, a função precípua de um pastor  deve ser com relação ao exercício do ministério.

Deus deu aos homens graça sobre graça sem medida Ef 4: 8, porém, concedeu a alguns em particular a responsabilidade de conduzir o povo adquirido, a nação santa, a geração eleita e o sacerdócio real I Pe 2: 9. O aperfeiçoamento que o apóstolo Paulo faz referência é quanto ao comportamento daqueles que anunciam as grandezas de Deus.

     

13 Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo,

Ao falar da edificação do corpo de Cristo, Paulo inclui-se na exposição "...todos cheguemos...". Ou seja, não é proveito para o corpo de Cristo que somente o apóstolo alcançasse o pleno conhecimento de Cristo. antes, é preciso que todos alcancem à unidade da fé, ou seja, que todos tenham um mesmo parecer acerca da esperança proposta.

Como é certo um só Senhor e uma só fé do qual todos são participantes em um só corpo e um só Espírito, todos precisam alcançar também a unidade do que professam.

Quando os cristãos foram de novo criados pela fé em Cristo, alcançaram a perfeição em Cristo. Desta perfeição decorre a idoneidade para participar da herança dos santos na luz Cl 1: 12. Porém, a condição de homem perfeito somente é possível àqueles que tem as faculdades mentais perfeitamente exercitadas no pleno conhecimento de Cristo Jesus.

Os cristãos já haviam adquirido a condição de santos, justificados, irrepreensíveis, idôneos, filhos, etc. Porém, ainda faltava o espírito de sabedoria e revelação, o que Paulo rogava a Deus que fosse concedido aos cristãos desde o início da carta "...o Pai da glória, vós dê em seu conhecimento (...) Oro para que, estando arraigados e fundados em amor possais perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura..." Ef 1: 17 e 3: 16.

A condição de filhos, herdeiros, santos, justos, irrepreensíveis, inculpáveis, foi alcançada por meio da fé, porém, o que ainda precisavam alcançar a perfeita compreensão, o que confere aos cristãos a perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo.

O que muitos compreendem ser santificação 'progressiva', a bíblia apresenta como o transformar pela renovação do entendimento Rm 12: 2.

 

14 Para que não sejamos mais meninos, inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente.

O cristão que ainda não tem os olhos do entendimento iluminados, que não compreende qual a esperança da sua vocação e quais as riquezas da glória da herança de Cristo, são nomeados por Paulo de 'meninos' "Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento" (I Coríntios 14: 20).

Observe que, apesar dos cristãos já serem idôneos para participar da herança dos santos, muitos deles ainda eram meninos no entendimento. Quando a bíblia fala de aperfeiçoamento dos santos, ela diz da instrução necessária aos cristãos para que cheguem a medida da estatura de Cristo "Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo" (I Pedro 2: 2).

O objetivo de se alcançar o pleno conhecimento é para que os cristãos caminhassem a carreira proposta sem a necessidade de apoio. Enquanto 'meninos no entendimento', os cristãos seriam inconstantes, sujeitos a serem levados por ventos de doutrinas.

Qualquer outra doutrina diversa da doutrina do evangelho de Cristo surge do engano dos homens. Por estarem enfatuados na sua carnal compreensão, criam doutrinas de homens, e com astúcia induzem os incautos ao erro. 

 

15 Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo,

Paulo demonstra que é necessário ao cristão corrigir o rumo de sua vida "Antes..." (v. 15), ou seja, seguindo a verdade (que é Cristo), em amor. Aqueles que foram agraciados com a nova vida precisam crescer em tudo. Crescer em Cristo, naquele que é a cabeça, significa crescer no conhecimento do Filho de Deus.

 

 

Claudio Crispim

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