Espírito, alma e corpo: Como nos tornamos Espirituais?

 

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”

I Ts 5. 23.

 

Qual o elemento principal a ser destacado deste versículo? Os três elementos que determinam a existência do homem (corpo, alma e espírito), ou algo que eles já haviam recebido?

 

Para entendermos plenamente a exposição de Paulo é necessário analisar o contexto no qual está inserido o versículo.

 

Observe que o apóstolo antes de fazer esta citação fez algumas determinações em seqüência: regozijai-vos sempre; orai sem cessar; em tudo daí graça; não extingais o Espírito; não desprezeis as profecias; Examinai tudo; retende o bem; abstende de toda espécie de mal; etc I Ts 5. 16- 22.

 

Após várias determinações o apóstolo muda o contexto de recomendação para interseção!

 

Desta breve oração pelos cristãos, extraímos os seguintes elementos do texto:

 

“E o mesmo Deus de paz...” - Ao fazer a breve intercessão confiado no Deus de paz, Paulo faz referência a argumentação utilizada em versículos anteriores. O 'mesmo Deus de paz' é aquele que não nos destinou para a ira, conforme ele escreveu no versículo 9 “Pois Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós...” I Ts 5. 9.

 

Após demonstrar que Cristo morreu pelos cristãos para que vivessem juntamente com Ele, é que Paulo passa à exortação e determinações “Pelo que exortai-vos (...) edificai-vos (...) Agora vos rogamos (...) tratai...” I Ts 5. 11- 22.

Esta breve interseção estabelece um vínculo entre dois contextos diferentes: um contexto de determinação vinculado a outro, de pedido a Deus.

 

“...vos santifique em tudo” - O mesmo Deus que destinou os cristãos à salvação por meio da morte de Cristo, é quem santifica o homem em tudo. Não é o cumprimento cabal das determinações que foram enumeradas anteriormente que levam o crente à santificação. O que santifica o homem em tudo é o mesmo Deus de paz.

 

 

“e todo o vosso espírito, alma e corpo...” - Quando o apóstolo faz referência aos componentes imateriais (espírito e alma) e materiais do homem (corpo), ele não pretendia separá-los ou demonstrar que estes elementos devam ser considerados dissociados quando da santificação. Antes, ele quer tornar claro que a providência de Deus em santificar engloba o homem como um todo. Em momento algum Paulo quer demonstrar que os elementos que compõe o homem devem ser analisados em separado.

 

Como é possível chegar a conclusão acima? Simples! Basta fazer a uma comparação de argumentos entre outras cartas. Observe:

 

“De maneira que nenhum dom vos falta, esperando a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual vos confirmará também até ao fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor" I Co 1. 7- 8.

 

“Para que aproveis as coisas excelentes, para que sejais sinceros, e sem escândalo algum até ao dia de Cristo; Cheios dos frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus” Fl 1. 10- 11.

 

E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoará, confirmará, fortificará e fortalecerá. A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém” I Pd 5. 10- 11.

 

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é o que vos chama, o qual também fará I Ts 5. 23- 24.

 

Estes quatro versículos foram selecionados por tratarem de um mesmo assunto: o zelo de Deus por aqueles que foram alcançados por Cristo.

 

É certo que ao falar da irrepreensibilidade alcançada em Cristo, Paulo quer destacar que a ação de Deus alcança o homem como um todo (espírito, alma e corpo), e não por partes como alguns consideram. Todos os versículos citados mantêm integra esta idéia geral.

 

  • Nada falta ao cristão (nenhum dom), a não ser aguardar a revelação de Cristo em seu grande dia. Mas, é Cristo quem confirma a irrepreensibilidade, e não as ações dos cristãos. Cristo há de confirmar a irrepreensibilidade dos cristãos, pois Deus é fiel I Co 1. 7- 8; II Pe 1. 3;
  • O que produzimos (frutos de justiça), vem por meio de Cristo, e o que resta ao cristão é somente aprovar as coisas excelentes Fl 1. 10-11;
  • É Deus quem aperfeiçoa, confirma, fortifica e fortalece o cristão, visto que, é Ele quem chama a eterna glória.

 

Em todos estes textos os apóstolos não fazem referência aos elementos constitutivos do homem, mas ao homem como um todo.

 

O elemento principal do versículo vem a seguir:

 

“...sejam plenamente conservados irrepreensíveis...” – a preocupação do apóstolo Paulo era com a conservação de algo que os irmãos já haviam recebido: a irrepreensibilidade.

 

Este versículo não se constitui um mandamento, como os anteriores.  'sejam irrepreensíveis', antes é uma interseção ao Deus de paz.

O apóstolo intercede a Deus para que aquilo que eles já haviam adquirido (alcançado) não fosse perdido pelos cristãos, e aponta a fidelidade de Deus como garantia para a manutenção das condições já adquiridas Fiel é o que vos chama, o qual também o fará”. Deus havia convocado os cristãos em Tessalônica, e os manteria irrepreensíveis até a vinda de Cristo.

 

Este versículo apresenta um dos aspectos concernente ao resultado do novo nascimento, e por isso mesmo é enfático quanto ao “todo”.

 

O ‘todo’ refere-se ao homem como indivíduo. Aqui especificamente refere-se aos cristãos tessalonicenses, e nenhum destes elementos corpo, alma e espírito são considerados em separado quando se refere ao homem.

 

O texto demonstra que o homem é constituído de três elementos, e não dividido em três partes. Também demonstra que na vinda de Cristo o homem tem que ser encontrado integro, irrepreensível.

 

Observe que o ser irrepreensível não é produto de uma luta incessante do homem. A irrepreensibilidade do cristão é resultado da obra de Deus “... o qual também o fará” I Ts 5. 24. Deus é o 'garantidor' da condição recebida, e também aponta para o que Ele fez anteriormente, a irrepreensibilidade.

 

O Deus que fez o homem nascer de novo em Cristo irrepreensível, é poderoso para manter esta condição. Deus é Deus de paz, ou seja, o homem pode descansar nele, visto que, tudo o que fizer estando em Cristo, pertence ao seu Senhor.

 

O tema acima é confirmado com estes versículos: “... o qual vos confirmará também até ao fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados...” I Co 1. 8; “E esta é a minha oração: que o vosso amor aumente..., para que sejais sinceros, e inculpáveis até o dia de Cristo...” Fl 1. 10.

 

Nestas referências, o apóstolo Paulo apresenta o mesmo tema aos irmãos de Corinto e de Filipenses. Em momento algum ele faz referencia a uma divisão entre corpo, alma e espírito. A referência que Paulo fez as partes constitutivas do homem foi no intuito de que as partes representassem o todo.

 

Observe que ao escrever a outras igrejas Paulo não se referiu aos irmãos pelas partes constitutivas, mas pelo todo.

 

Por não entenderem plenamente o que expõe os versículos a cima, muitos acabam levantando várias questões como as descritas abaixo que não está em sintonia plena e clara com os princípios bíblicos.

 

Não há que se considerar de suma importância saber ou entender as distinções ou classificações com relação aos componentes imateriais do homem. Por que? Não é o entendimento que se tem a respeito da alma e do espírito do homem que nos tornará espirituais; não é a falta deste conhecimento que nós torna carnais.

 

Todo entendimento ou compreensão da vida espiritual é dado por Deus por meio de Cristo. O que afeta a vida espiritual é a falta de fé e não a compreensão que temos a respeito do que é alma e espírito. Basta nascermos de Deus por meio do evangelho de Cristo que nos tornamos espirituais, visto que o que é nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é espírito.

 

Não se pode considerar que para entender ou ter vida espiritual é necessário fazer distinção entre alma e espírito; que há aspectos pertinentes a alma e aspectos pertinentes ao espírito do homem que, se não entendermos estarão fadados a pender a ‘espiritualidade’ ora para a alma, ou ora para a carne. Que para sermos espirituais devemos estar voltados para o nosso espírito; que para se alcançar a ‘espiritualidade’ ou ser espiritual é necessário separar os elementos que Deus uniu para compor o homem e seguirmos intuitivamente as determinações do ‘espírito’ que está no homem interior, com o propósito de não andarmos no desejo da carne.

 

Não há e não é possível buscar quais são as funções que desempenham a alma e o espírito; não se busca o que é espiritual, pois a bíblia não nos dá este parâmetro. A bíblia nos diz o que é ser carnal e o que é ser espiritual, e isto tem a ver com a natureza do homem, e não com a sua própria busca por espiritualidade.

 

Não é a busca do homem pelo espiritual que o torna espiritual, mas sim o nascer de Deus. Se crermos que Jesus Cristo nos purifica de todo pecado, recebemos poder para sermos feitos filhos de Deus, e então nos tornamos espirituais.

 

 

Claudio Crispim

 

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