A bíblia
geralmente trabalha com proposições, ou seja, não é
uma característica das exposições bíblicas
dar definições e conceitos. Exemplificando, a bíblia não
apresenta uma definição ou um conceito de Deus, ela
simplesmente apresenta algumas proposições, como: Deus é
luz; Deus é vida, etc.
A
linguagem bíblica demanda raciocínio para chegar a
um entendimento, diferente da linguagem dos livros
de hoje, que se aplicam em apresentar conceitos e
definições acerca dos temas que abordam.
Os livros
acabam simplesmente informando os seus leitores, já
a bíblia estimula o raciocínio do leitor, fazendo
com que este percorra os labirintos do aprendizado até
uma maravilhosa descoberta. Além do mais, auxilia na
memorização do conceito quando abstraído.
Apesar de
a bíblia nos estimular ao raciocínio, ela nos surpreende ao apresentar, em uma das
suas cartas, um conceito de fé:
“Ora, a fé é a certeza
das coisas que se esperam, e a prova das coisas que
não se vêem”
Hb 11. 1.
a) Esperar algo com certeza, é definido pelo escritor
aos Hebreus como sendo fé.
b) A fé é
prova do que se espera e que apesar de não ser
possível ser visto, existe.
O conceito que o escritor aos Hebreus
apresentou auxilia em muito no desenvolvimento
deste estudo, porém, o contexto na qual a palavra fé
é empregada nos diz muito mais. Observe o
versículo seguinte:
“Mas, se alguém não
cuida dos seus, e principalmente dos da família,
negou a fé, e é pior que o incrédulo”
I Tm 5. 8.
Qual o significado da palavra fé no
versículo acima? Podemos aplicar o conceito
apresentado pelo escritor aos Hebreus a este
versículo? Não!
O contexto demonstra que a palavra fé
empregada por Paulo neste verso teve
o seu significado primário ampliado, passando a designar a idéia geral da mensagem do evangelho.
Dizer que: ‘alguém negou a fé’, tem o mesmo
significado que ‘negar a mensagem do evangelho’.
A fonte da fé genuína é o evangelho,
e ter um comportamento contrário ao recomendado pelo
evangelho constitui-se prova de que aquele que se
diz cristão, e não é, está em condição inferior até
mesmo daquele que não professa o evangelho.
Paulo não quis dizer que o
comportamento seja essencial à aceitação do
evangelho, pois este é alcançado por meio da fé.
Antes, ele procurou demonstrar que o comportamento
do cristão confirma o que ele professa ter alcançado
por meio do evangelho.
A palavra fé neste versículo
é empregada para designar a mensagem que deu causa à
confiança do crente, enquanto o conceito da carta
aos Hebreus se prende à confiança do crente, sem
qualquer referência a mensagem que promove a fé.
Percebe-se que a
fé não se trata de uma qualidade ou mérito
intrínseco ao crente. A mensagem do evangelho dá
base à fé, que acaba por refletir no comportamento
de quem professa segui-la.
Um
outro aspecto a considerar, quanto à interpretação de
alguns textos bíblicos, fica por conta da etimologia da palavra fé.
A idéia
de fé no Antigo Testamento é
a de 'descansar' ou 'apoiar-se', confiante em
alguém ou em alguma coisa.
“Porque o Egito os
ajudará em vão, e para nenhum fim; por isso clamei
acerca disto: No estarem quietos será a sua força
(...) Assim diz o Senhor Deus, o Santo de Israel: Em
vos converterdes e em repousardes está a vossa
salvação, no sossego e na confiança está a vossa
força, mas não quisestes”
Is 30. 7 e 15.
“Aquietai-vos,
e sabei que Eu sou Deus”
Sl 46. 10.
A intranqüilidade do
homem, ou a sua procura obstinada por uma saída
frente aos problemas da vida é uma demonstração de falta de
confiança em Deus.
Geazi, o servo de Eliseu, é o
exemplo típico do homem sem fé:
“Então o moço lhe
perguntou: Ai, meu senhor, o que faremos?” II Rs 6.
15b.
A falta de fé faz com que o homem busque uma
solução apoiada em seus próprios recursos. A
pergunta de quem não tem fé sempre será: O que
faremos? "Perguntaram
eles: Que faremos para executar as obras de Deus?"
Jo 6: 28.
Eliseu por sua vez demonstra
tranqüilidade, mesmo quando tudo parecia perdido ao
olhos de Geazi.
Os reis
de Israel e Judá sempre procuravam alianças com os
povos vizinhos, confiando que as suas alianças
trariam paz e segurança. Todos eles esqueciam que
Deus havia prometido defende-los, e que bastava
repousarem e estar sossegados.
No A. T. a salvação de Deus apresentava-se
àqueles que se convertiam ao Senhor e repousavam
(descansar). Já o livramento aparecia vinculado ao
estar sossegado. A força dos reis de Israel e Judá
não estava em suas alianças, exércitos, cavaleiros,
homens, etc., e sim, em estarem tranqüilos.
No
Novo
Testamento temos o verbo
'pisteuõ' e o seu
substantivo 'pistis'. Este verbo tem dois
significados básicos:
(1) acreditar
no que alguém diz, aceitar uma afirmação como
verdade, especialmente a de natureza religiosa
“Vai-te, e seja
feito conforme a tua fé”
Mt 8. 13 ;
(2)
confiança pessoal em contraposição a um mero crédito
ou crença, e esta idéia é introduzida no texto
através de uma preposição "em + ele"
“Dele todos os profetas
dão testemunho de que, por meio de seu nome,
todo aquele que nele crê recebe remissão de
pecados” At 10. 43.
A
mensagem do evangelho fundamenta-se na pessoa de
Cristo. Ele mesmo anunciou as boas novas do reino
aos homens. Crer na mensagem do engelho, em última
instância, é crer na pessoa de Cristo.
A confiança do cristão é pessoal, e
sendo Cristo o Verbo de Deus encarnado, a
palavra d'Ele é a verdade. A pessoa de Cristo e a
sua mensagem estão intimamente interligados.