Introdução
"Pois assim está
escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão,
porém, é espírito vivificante" I Co 15: 45.
Para compreendermos
a exposição de Paulo nos capítulos 6 e 7 é preciso entendermos as
comparações que Paulo faz entre Cristo e Adão.
No capítulo 5 Paulo
demonstrou que Adão e Cristo constituem-se os cabeças de duas famílias
distintas. Este trouxe à vida (existência) os filhos de Deus, e àquele traz
à existência na condição de mortos e em inimizade com Deus os filhos da ira,
filhos da desobediência, filhos do diabo, ou filhos de Adão.
Comparando Adão e
Cristo, os contrastes são evidentes:
-
Em Adão a
transgressão e em Cristo o dom gratuito (Rm 5: 15);
-
Em Adão a
condenação e em Cristo a justificação (Rm 5: 16);
-
Em Adão
morte e inimizade, e em Cristo vida e paz (Rm 5: 17);
-
Em Adão
ofensa e em Cristo justiça (Rm 5: 18);
-
Adão
desobedeceu e Cristo obedeceu (Rm 5: 19);
Em Adão todos
pecaram e destituídos estão da glória de Deus e são justificados em
Cristo (o último Adão), gratuitamente pela sua graça por meio da fé Rm
3: 23- 24.
Paulo iniciou a
exposição do livro de Romanos demonstrando o comportamento dos homens
destituídos de Deus, e que, todos sem exceção serão trazidos a juízo por
causa de suas obras no dia da retribuição de Deus (dia da ira), quando
também será manifesto o juízo de Deus que se deu em Adão a todos os
homens Rm 2: 5- 11.
Paulo aponta
questões futuras, demonstrando que Deus recompensará a cada um segundo
as suas obras Rm 2: 7- 8, quando forem estabelecidos o Tribunal do Trono
Branco para os ímpios Rm 2: 6, e o Tribunal de Cristo para os justos II
Co 5: 10.
Depois, Paulo
passou a demonstrar qual a condição dos homens que hoje estão sem
Cristo: todos pecaram e juntamente se extraviaram, sem que houvesse um
único homem que fizesse o bem Rm 3: 10- 20. Concomitantemente, ele
demonstra a condição daqueles que estão em Cristo: justificados
gratuitamente pela graça de Deus por meio da fé em Cristo!
Desta forma, há
homens que, por causa da condenação em Adão permanecem sob condenação e
em inimizade com Deus, e homens que, pela redenção em Cristo, o último
Adão, estão justificados e em paz com Deus.
Mas, para
demonstrar a consistência do que expôs, Paulo retroage no tempo para
demonstrar onde e como se deu a condenação de todos os homens,
contrastando com a redenção em Cristo Rm 5: 12- 21.
A exposição que
Paulo faz aos cristãos Romanos é argumentativa e principalmente
teológica, diferente da exposição de Cristo, que é por parábolas e
ilustrativa.
Desta forma
temos que as parábolas como os dois caminhos, as duas portas, as árvores
boas e as árvores más, as plantas que o Pai não plantou, etc, fazem
referência a Adão e a Cristo.
Depois de fazer
uma exposição teológica, Paulo também apresenta uma figura para ilustrar
as considerações teológica: os vasos para honra e os vasos para desonra
Rm 9: 21.
Isto posto,
verifica-se que, para estudarmos o capítulo 6 e 7 e chegarmos a uma
conclusão plausível, é preciso analisados segundo a ótica do primeiro e
do último Adão.
Capítulo VI
(vs. 1- 7)
1 QUE diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?
A pergunta deste versículo decorre do versículo 20 do capítulo
anterior.
"Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse. Mas onde o pecado
abundou, superabundou a graça (...) Que diremos, pois?
Permaneceremos no pecado, para que a graça aumente?" Rm 5: 20 e
6: 1.
Após demonstrar que 'onde o pecado abundou, superabundou a graça',
Paulo antecipa-se àqueles que poderiam argumentar que permaneceriam no
pecado visando aumentar a graça.
'Que diremos...', ou seja, qual deve ser o entendimento do cristão?
Permanecer no pecado (em Adão), para que a graça aumente? Não! Este não
deve ser o entendimento do cristão.
Não é porque a graça superabundou onde o pecado abundou que o
comportamento do cristão deva ser de devassidão.
O pecado reinou pela morte (pena decorrente da transgressão de Adão),
e a lei somente fomentou a ofensa Rm 5: 20. Mas, a graça de Deus se há
manifestado para que, da mesma forma que o pecado reinou por meio da
natureza decaída do homem (carne) e em obediência as suas
concupiscências (conduta aquém da lei de Deus), a graça também reine
pela justiça através da nova natureza (espiritual) e em obediência à
justiça (conduta segundo a lei da liberdade).
2 De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos
ainda nele?
De modo nenhum! Os cristãos em Roma e o próprio escritor da carta não
permanecem no pecado.
Paulo espera que os cristãos raciocinem e cheguem a uma conclusão
sobre o 'permanecer no pecado' através do parâmetro estabelecido neste
verso: Se os cristãos 'Estão mortos para o pecado', como é possível
permanecer nele? Para os que estão mortos para o pecado não há como
viver ou permanecer no pecado.
Da mesma forma que Cristo, quanto a ter morrido, 'de uma vez morreu
para o pecado' Rm 6: 10, os que morreram com Cristo também de uma vez
estão mortos para o pecado Rm 6: 8 e 10.
3 Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos
batizados na sua morte?
Para os leitores da carta que argumentassem que permaneceriam no
pecado para que a graça aumentasse, Paulo demonstra que quem assim pensa
desconhece o real significado do batismo.
Tanto Paulo quanto os leitores da sua carta havia sido batizados na
morte de Cristo por meio da fé "...fomos batizados em Jesus...", ou
seja, todos os que crêem são batizado na morte de Cristo Jesus "...um
morreu por todos, logo todos morreram" II Co 5: 14.
Se todos morreram porque Cristo morreu, isto demonstra que 'de uma vez morreram para o
pecado' conforme Paulo demonstra no verso 10.
4 De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que,
como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim
andemos nós também em novidade de vida.
É pela fé que o cristão torna-se participante da morte e da
ressurreição de Cristo. O batismo nas águas somente simboliza o que o
cristão já alcançou pela fé em Cristo: o verdadeiro batismo do homem
efetivasse na morte com Cristo.
O cristão é batizado na morte de Cristo e sepultado juntamente com
ele. Isto porque, da mesma forma que Cristo foi ressuscitado dentre os
mortos pela glória e poder de Deus, os que com ele ressurgem obtenham
nova vida (espírito) e andem conforme ele andou (comportamento).
Neste ponto está o grande mistério revelado: Da mesma maneira que
através do primeiro Adão todos os homens pecaram e destituídos estão da
glória de Deus, sendo que não há nenhum deles que pratique o bem (embora
pratiquem boas ações) Rm 3: 10- 18 e 23, por meio de Cristo, o último
Adão, os homens são justificados e conduzidos à glória dos filhos de
Deus, e estes por sua vez não praticam o mau (embora sejam suscetíveis
de praticar más ações).
Como isto é possível? Este versículo é uma explicação teológica da
figura da árvore que Cristo apresentou aos seus discípulos: "Do mesmo
modo, toda árvore boa produz bons frutos, e toda árvore má produz frutos
maus. Não pode a árvore boa produzir maus frutos, nem a árvore má
produzir frutos bons" Mt 7: 17- 18.
Ou seja, os homens nascidos segundo a semente corruptível de Adão não
fazem o bem, e jamais poderão fazer o bem. Eles são plantas que o Pai
não plantou Mt 15: 13, nascidos da semente corruptível, e portanto,
árvores más, e só podem produzir frutos maus.
Da mesma forma, os homens nascidos da semente incorruptível, que é a
palavra de Deus, estes fazem o bem, visto que as suas obras foram
preparadas por Deus de ante mão para que andassem nelas. Estes são
plantas que o Pai plantou, árvores boas, e que só produzem frutos bons.
Como Deus fez (plantou) os cristãos novas criaturas para as boas
obras (bons frutos), resta que não há como andar segundo o pecado, pois
Deus já preparou para as suas criaturas para que andassem em boas obras
Ef 2: 10.
Resta que, é impossível àqueles que crêem em Cristo, e que, portanto,
são boas árvores (participantes da videira verdadeira), pratiquem más
obras ou dêem maus frutos Tg 3: 11- 12.
Com base no princípio demonstrado anteriormente é que Paulo demonstra
que é impossível aos que foram agraciados com nova vida por meio a fé em
Cristo permanecer (v. 1), viver (v. 2) ou andar segundo a velha natureza
que foi crucificada com Cristo (v. 4).
5 Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua
morte, também o seremos na da sua ressurreição;
Este versículo apresentada a mesma idéia que o apóstolo João
apresenta em uma de suas carta: "Nisto é aperfeiçoado em nós o amor,
para que no da do juízo tenhamos confiança, porque, qual ele é, somos
nós também neste mundo" I Jo 4: 17.
A exposição de João é declarativa, enquanto a de Paulo argumentativa.
João afirma categoricamente que os cristãos são como Cristo é, e aqui e
agora, neste mundo. João não aponta o mundo vindouro, quando os cristãos
serão revestidos da imortalidade, mas que, neste sistema de coisas
(mundo) o Cristão já alcançou a mesma posição do Filho de Deus.
É a maneira de João dizer que os cristãos já estão assentados nas
regiões celestiais em Cristo Jesus Ef 2: 6.
Como a exposição de Paulo é argumentativa, ele conduz o leitor para
chegar a uma conclusão. 'Se fomos...' é o mesmo que 'fomos' plantados
juntamente com Cristo na semelhança da sua morte, uma vez que com ele
morremos.
Por terem sido plantados na semelhança da sua morte, os cristãos
também ressurgem dentre os mortos à semelhança de Cristo. Desta maneira,
da mesma forma que Cristo é, os cristãos também são aqui neste mundo.
Estão assentados nas regiões celestiais em Cristo.
6 Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que
o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado.
Não há como um cristão dizer que permanecerá no pecado com a idéia de
que aumentará a graça de Deus, visto que:
- O velho homem (nosso) foi crucificado com Cristo;
- O corpo do pecado (carne) é desfeito, e;
- Não serve mais ao pecado.
Como seria possível a alguém que crê em Cristo permanecer no pecado,
visto que os que crêem são crucificado com Cristo e tiveram o corpo do
pecado desfeito? Se o corpo do pecado foi desfeito, como viver ou
andar no pecado?
O crente é crucificado e sepultado com Cristo para que não mais sirva
ao pecado, e segundo este saber, as possíveis argumentações do verso 1
são inconsistentes.
7 Porque aquele que está morto está justificado do pecado.
Ou seja, aquele que morreu com Cristo (que está morto) justificado
está do pecado. Por assim dizer, também cessou do pecado.
Aquele que está morto para o pecado, não permanece inerte, antes
ressurge dentre os mortos para a glória de Deus Pai. O novo homem que
ressurge com Cristo, este é declarado justo diante de Deus
(justificado).
Aquele que está morto para o pecado é o mesmo que vive para Deus. Por
viver para Deus é que o homem recebe a declaração de que é
justo.
Os que vivem para o pecado jamais serão justificados por Deus, uma
vez que os vivos para o pecado estão mortos para Deus. Paulo disse que,
quem está morto para o pecado está justificado, isto por causa do versículo
seguinte, onde ele demonstra que quem morre com Cristo, vivem para Deus (v. 8).
A declaração de justo (justificação) é concernente a nova vida
adquirida de Deus. Para receber a nova vida é preciso morrer (ter um
encontro com a cruz de Cristo). Segue-se que a graça de Deus veio sobre
todos os homens, "... para justificação e vida" Rm 5: 18.
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