Introdução
Antes de prosseguirmos na análise versículo à
versículo, faz-se necessário observarmos como Paulo estruturou a escrita da
carta aos Romanos.
A primeira abordagem de Paulo sobre a justiça de
Deus pela fé em Cristo se dá no capítulo 1, versos 16 à 17. Em seguida, o
apóstolo passa a demonstrar que todos os homens pecaram e foram destituídos
da glória de Deus em Adão Rm 1: 16 à 3: 20. Após demonstrar que diante de
Deus todos tornaram escusáveis (judeus e gregos), o apóstolo volta a
abordagem inicial: a justificação pela fé. Observe:
1º) "Não me envergonho do
evangelho, pois é poder de Deus para salvação de todo aquele que crê;
primeiro do judeu, e também do grego. Pois nele se descobre a justiça de
Deus de fé em fé" Rm 1: 16- 17.
2º) "Mas agora se manifestou
sem a lei, a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas. Isto
é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos [e sobre todos] os
que crêem. Não há distinção" Rm 3: 21- 22.
Percebe-se que no intervalo argumentativo entre os
dois textos acima, Paulo apresentou elementos que demonstram que todos os
homens tornaram-se culpáveis diante de Deus.
Também é possível pontuar os elementos presentes
nos dois texto acima: No capítulo 1, versos 16 à 17, Paulo demonstra que a
justiça de Deus se alcança por meio da fé sem qualquer distinção entre
judeus e gregos. Da mesma, o capítulo 3, versos 21 à 22 continua
demonstrando que a justiça de Deus é para os que crêem sem distinção alguma
entre judeus e gregos.
Em seguida, o apóstolo apresenta uma argumentação
precisa e concisa sobre os motivos da justificação ser pela fé Rm 3: 23- 27,
e uma conclusão: "Concluímos, pois, que o homem é
justificado pela fé, sem as obras da lei" Rm 3: 28.
No capítulo 4, o apóstolo apresenta exemplos de
justificação pela fé no A. T.: Abraão e Davi, ou seja, Paulo evoca a
autoridade da Escritura para dar sustentação a sua argumentação Rm 4: 1- 25.
Desta forma, chegamos ao capítulo 5, onde o
apóstolo volta a exposição argumentativa do início da carta, quando
apresentou a idéia da justificação pela fé "TENDO
sido, pois, justificados pela fé..." Rm 5: 1.
Isto demonstra que a exposição de Paulo é focada
sobre um tema: a justificação pela fé em Cristo, sem qualquer distinção
entre judeus e gregos. A abordagem de Paulo sobre a justificação pela fé sem
distinção alguma entre judeus e gregos é debatida do capítulo 1 ao 4.
A abordagem do capítulo 5 também é sobre a
justificação pela fé, porém, sem o foco das discussões provenientes da
diferenças entre judeus e gregos, que motivou o apóstolo a demonstrar que em
Cristo não há distinção alguma entre judeus e gentios.
Nos quatro primeiros capítulos Paulo demonstrou
que todos os homens pecaram, e no capítulo cinco, ele retroage no tempo para
demonstrar onde e em quem todos pecaram Rm 5: 12- 21. Diferentemente dos
quatro primeiros capítulos que focam a problemática da lei, da fé, dos
judeus e dos gentios, o capítulo cinco apresenta qual é a condição daqueles
que agora estão em Cristo Rm 5: 1: 5, e qual era a condição do homem antes
de terem um encontro com Cristo por meio do evangelho Rm 5: 6- 6; 8 e 10.
Conclui-se que, após estudar o capítulo cinco da
carta de Paulo aos Romanos, será possível divisarmos como todos os homens
tornaram-se pecadores, e como é possível ser participante da graça de Deus.
O leitor também estará apto a verificar qual é a condição dos que estão em Cristo,
e a condição daqueles que continuam inimigos de Deus.
Capítulo V
1 TENDO sido, pois, justificados pela
fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo;
Não é correto nos pautarmos nas
divisões de textos como capítulos e versículos quando da
interpretação das cartas bíblicas. Ao analisar o texto, não podemos
atrelar a análise tão somente a um capítulo ou a um, dois ou três
versículos. Antes, a análise de qualquer versículo ou frase deve ser
considerada dentro do contexto geral da carta.
Precisamos estar atentos, pois
as divisões em versículos e capítulos acabam por influenciar a
leitura bíblica. As divisões em capítulos e versículos devem ser
considerados somente como auxilio para localização e referenciamos
certos textos.
A observação anterior é válida
na análise deste capítulo. Quando o apóstolo diz: "Tendo sido, pois,
justificados pela fé..." Rm 5: 1, ele termina uma argumentação e
introduz uma nova idéia.
Quando o apóstolo escreve
'Tendo sido, pois, justificados pela fé...', ele dá por encerrada a
discussão sobre a superioridade dos judeus, ou que somente os
gentios eram pecadores, ou que a justiça de Deus era proveniente da
lei mosaica.
Ao ser justificado pela fé em
Deus, as questões abordadas anteriormente passam à segundo plano,
uma vez que não há distinção alguma entre gentios e judeus. "Sendo,
pois, justificados pela fé..." remete à versículos anteriores Rm 1:
16- 17 e 3: 21- 22, e apresenta um novo aspecto da justificação pela
fé.
Os cristãos pela fé adquiriram
paz com Deus, por intermédio de Cristo Jesus. Por meio da fé os
cristãos são declarados justos e obtiveram paz com Deus. A condição
alcançada em Cristo contrasta com a condição apresentada no verso
10.
2 Pelo qual também temos entrada pela
fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da
glória de Deus.
Desde já, vale observar que ao
falar da salvação em Cristo, Paulo apresenta a condição do cristãos
(paz com Deus), para depois apresentar como alcançaram tal condição
(pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça). Ou seja,
durante a análise da carta aos Romanos, demonstraremos que,
geralmente, o ponto de partida para o apóstolo apresentar o plano da
salvação é o da condição alcançada (paz com Deus), e em seguida, ele
retroage até demonstrar qual era a condição anterior (inimizade).
Por Jesus os cristãos tem
entrada a esta graça, ou seja, alcança a graça da justificação e amizade com Deus
pela fé. Este versículo demonstra que por Cristo e pela fé os
cristãos recebem a graça de Deus, e o verso anterior fixa-se em
demonstrar a graça alcançada: justificação e amizade com Deus.
Paulo reitera que ele e todos quantos
estão em Cristo (...também temos...), estão firme na graça proveniente do evangelho
(...na qual estamos firmes...).
Enquanto muitos gloriam-se das questões relativo à carne II Co 11:
18, os cristãos gloriam-se na esperança proposta por meio do
evangelho.
Embora o apóstolo não volte a falar
que não há diferenças entre gentil
e judeu explicitamente, ele acaba por falar de modo
velado destas distinções promovidas pelos homens, e não por Deus.
Gloriar-se na esperança da glória de Deus é uma das maneira de
trazer à lembrança dos cristãos àqueles que se vangloriam da carne.
3 E não somente isto, mas também nos
gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência,
Enquanto os da fé gloriam-se na
esperança proposta e nas tribulações, os segundo à carne gloriam-se
em questões meramente humanas "Pois que muitos se gloriam segundo a
carne, eu também me gloriarei" (II Coríntios 11: 18); "Se convém
gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza" (II
Coríntios 11: 30).
Enquanto os da carne buscavam
elementos para gloriarem-se na carne dos irmãos em Cristo "Porque
nem ainda esses mesmos que se circuncidam guardam a lei, mas querem
que vos circuncideis, para se gloriarem na vossa carne" (Gálatas 6:
13), Paulo demonstra que o cristão deve gloriar-se tão somente na
cruz de Cristo, esperança da glória "Mas longe esteja de mim
gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela
qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo" (Gálatas
6: 14).
4 E a paciência a experiência, e a
experiência a esperança. 5 E a esperança não traz confusão,
porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito
Santo que nos foi dado.
Esta relação entre tribulação,
paciência, experiência e esperança também foi abordado por Pedro e
Tiago, porém, cada um à sua maneira:
"Meus irmãos, tende por motivo
de grande gozo o passardes por provações, sabendo que a prova da
vossa fé desenvolve a perseverança. Ora a perseverança deve terminar
a sua obra..." Tg 1: 2- 4.
"Nisto vos exultais, ainda que no presente, por breve tempo, se
necessário, sejais contristados por várias provações. Essas
provações são para que a prova da vossa fé (...) redunde para
louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo" I Pe 1: 6- 7.
A fé é a 'entrada' à graça de
Deus, que pela esperança proposta concede forças para suportar as
tribulações Hb 12: 2.
Quando o apóstolo diz que 'a
esperança não traz confusão', ele aponta para o Espírito Santo, que
foi concedido através do amor de Deus. Ao escrever este verso Paulo
tinha em mente a declaração feita aos cristãos de Éfeso: "Em quem
também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o
evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes
selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa
herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua
glória" Ef 1: 13- 14.
O penhor geralmente é
equivalente ao valor da dívida, e Paulo demonstra que os cristãos já
haviam recebido o que é infinitamente superior à herança: o Espírito
Santo de Deus.
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